
Dorcelina Mago Pereira, de 100 anos, não teve rebentos. Mas no colo acolheu tantos frutos dos outros que já perdeu a conta. Quatro gerações, ao menos, foram embaladas pelas cantigas e pelas histórias de “Ina preta” – assim chamada pelas crianças, muitas, que a rodeiam. Um século de vida, celebrado em 17 de janeiro, durante fim de semana de missa e festa. A data de nascimento ninguém sabe ao certo. Estima-se o ano – 1912 – pelo entendimento das lembranças de Dorcelina, que, por exemplo, recorda-se com lucidez do pai e dos três irmãos mais novos, mortos em 1918, vítimas da gripe espanhola. Órfã, sem documentos, Ina Preta passou anos difíceis na infância e na adolescência, quando era chamada apenas de “Negrinha”.
Tempo vencido, não faltam elogios por parte de quem tem o privilégio de conviver com ela. Sinônimo de bondade para muitos, Dorcelina até inspirou o cartunista Ziraldo a criar um personagem para a célebre Turma do Pererê: “Mamãe Docelina” é metade Ina Preta, metade Tia Neném – outra senhora que também tocou a alma de menino do autor.
Em O segredo de mamãe Docelina, Ziraldo registrou: “Mãe Docelina é a maior quituteira de toda a região da Mata do Fundão. Ela é linda. Tem cor de jabuticaba madura e um sorriso muito branco”. Na casa da família Amado, no Bairro Gutierrez, Região Oeste de Belo Horizonte, a mulher encantadora se enche de amor para falar ao Estado de Minas de filhos de toda uma vida: “Três do Leo, seis da Míriam, quatro do Eugênio, sete do Gastão, nove da Nini, quatro da Ignez e seis da Mana” e de outros muitos que ela não deu conta de fazer caber na frase única, cheia de carisma.
No edifício de nome Clara, na Rua Matias Cardoso, baixinha de metro e meio, de lencinho cor-de-rosa nos cabelos prateados, vestidinho lilás e casaquinho escuro, Ina Preta deixa o cochilo da tarde para ganhar a sala de visitas com o andador de alumínio – um apoio para não forçar os joelhos, operados nos anos 1990. “A gente ficou com medo de ela não se recuperar, porque, na época, ela já estava com mais de 80 anos. Ela ficou boa. Mas as pernas já não têm mais a mesma força por causa da idade”, conta Míriam Arreguy Araújo.
A dona de casa, mãe de seis filhos, moradora de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, revela que, quando criança, toda vez que tinha medo corria para a cama de Dorcelina. Nas últimas semanas em Belo Horizonte, especialmente para o aniversário de Ina, Míriam é só doçura no trato com a velha querida. É alegria e saudade dos tempos em que vivia ao lado de duas grandes protetoras: Ina Preta e Maria Ângela Arreguy Amado, a Lilita, sua mãe de sangue, falecida aos 90, há dois anos. Dorcelina, ainda que com a audição comprometida, sentada próxima ao piano, parece ouvir com satisfação os elogios da filha de consideração. Sorri e, muito à vontade, ajeita-se na poltrona para tomar conta da conversa.
Lúcida, acerta os óculos com as palmas das mãos e desfia o novelo do tempo. O peso do passado distante, com a perda dos pais e irmãos de sangue, faz com que Ina Preta, por vezes, dê mais força à voz marcante: “Donana, minha mãe de criação, bateu muito em mim”. Entretanto, no coração enorme, diz não haver brecha para amargura ou ressentimento. Relembra com carinho o coronel da cidade de Caratinga, no Vale do Rio Doce, que a “pegou” pequeninha para criar. Comenta ter sofrido nas mãos da mãe de criação, que a “emprestou” várias vezes para outros casarões.
“Ela não gostava de mim. Eu é que sou de raça de índio, forte. Minha mãe de verdade era filha de índio. Donana me bateu muito. Se ‘coro’ educasse, eu era a nêga mais educada do mundo”, e sem perder a graça, emenda: “Também… fui uma capeta. Quebrava os chicotes, as varas, tudo que servia para me bater, e jogava no fundo da cisterna”, diverte-se, valente no vaivém dos sentimentos. “Minha irmã foi para a casa do delegado e eu fui pra casa do coronel, que foi muito bom na minha vida. Agora, quando ele não estava em casa, até água quente nas costas a mulher dele jogava em mim”, conta.
Cuidado com os outros Depois de falar de assunto ruim, de dores que deixou para trás, Ina Preta refaz o sorriso largo e dá nova paz aos gestos desenhados pelas mãos expressivas de linhas profundas. Sorri com gratidão para reviver “dona Glorinha”, professora de curso de alfabetização de adultos, nos anos 1930, em Caratinga: “Ela foi um céu aberto pra mim. O que mudou a minha vida”, ressalta. Foi quando Ina Preta entrou para a família de intelectuais que, anos mais tarde, ajudaria a construir a história cultural da capital mineira. Mineiros de linhagem rara. Entre tantos, o jornalista Milton Amado e o professor João Etienne Arreguy Filho, que fizeram escola e deixaram saudades.
Incentivada, Dorcelina, por vezes, até que pelejou com os estudos, mas nunca teve muita paciência com o que fosse além dos cuidados com o outro. Dedicada e amorosa como não se vê, babá e cozinheira de mãos caprichosas, Dorcelina foi sempre bem-vinda na casa de todos os filhos de dona Glorinha. Mas foi de Lilita, por força das circunstâncias – com três filhos portadores de necessidades especiais já falecidos –, que Ina Preta foi a maior e mais fiel escudeira. Daí, durante a tarde de recordações, o amor estampado na expressão de Míriam, xodó por anos da boa senhora. Faltava alguém no ambiente. A pequena Mariana, de 4 anos, tímida, entra correndo na sala e salta no colo de Ina Preta. “As crianças são loucas por ela”, comenta Míriam. Grudada em abraço, a pequena confirma e faz aumentar as virtudes da boa Dorcelina.
Trocam carinhos, conversas manhosas e mimos que só as duas conseguem decifrar. “Sou avó solteira. Nunca dei um beliscão numa criança”, repete. “A gente tem que cuidar, e eu cuido mesmo, porque o mundo de hoje está perdido. O mundo da minha época era o começo desse mundo de hoje, perdido”, reflete. Continua, ora passado, ora presente: “Minha obrigação é vigiar. E sou brava mesmo. Minha briga é para a educação deles. Brigava para a mãe deles não ter que brigar. Brigava para cuidar, porque comigo eles sabiam que era mais fácil”, ri, cúmplice de Míriam.
Dedicação à família adotiva
“Tá chovendo?… Então tem que tirar a roupa do varal”, orienta Ina Preta, atenta às águas de verão que começam a molhar a janela. A vista cansada não lhe afeta a atenção. No apartamento do Edifício Clara, no Bairro Gutierrez, vivem com a centenária o caçula de Lilita, Leopoldo, de 38 anos, sua mulher, Ana Maria, de 35, e os filhos, Gabriela, de 11, Gustavo, de 9, e a pequena Mariana, que não desgruda de Ina Preta por um segundo desde que tomou conta do cômodo naquela tarde.
“O prato da Gabriela tá na geladeira. Ela já comeu?”, quer saber, preocupada com a outra mocinha da casa, que, reservada, não quer aparecer. Ina Preta volta ao passado sem deixar de dar carinho a Mariana: “Donana, antes de morrer, mandou me chamar para pedir perdão”, diz, referindo-se a tempos atrás, por ocasião da doença que abateu a mulher do coronel: “Fui de avião. Cheguei na beira da cama e ela me pediu perdão. Perdoei porque tenho muito medo daquele lá de cima”, aponta para o céu.
Desconversa: “Ah… Quebrei muita sombrinha na cabeça de rapaz abusado”. Solteira, dona Dorcelina? “Solteira. Namorei muito, mas nunca me casei. Tive um noivo. Já era velha. Ele foi trabalhar na Bolívia e morreu num acidente na estrada. José Felício era o nome dele. O que manda na gente é o coração. Depois que a gente gosta de uma pessoa, ninguém tira essa pessoa do coração da gente. Meu noivo era de Caratinga. Foi na época da guerra do Rita”. Hitler, dona Dorcelina? “Esse mesmo. A guerra estava começando”, relembra.
Na repescagem do que viu passar, traz à luz encontro especial em Guarapari, no Espírito Santo, no início dos anos 1970, quando descobriu a filha de sua irmã mais velha, de sangue – na época, a sobrinha morava em Governador Valadares. “Vimos a senhora na praia e identificamos logo que elas eram parentes de tão parecidas. Foi emocionante”, conta Míriam. Saudades? Dorcelina suspira, sorri e fala da terrinha, no Vale do Rio Doce, quando vivia com o pai, antes de 1918: “Também tenho muita saudade da minha irmã, que ajudava meu pai e morreu”.
Mariana continua no colo de Ina Preta. “Essa menina é boa como ouro. Ela me veste, passa creme em mim, nos meus pés. É o meu xodó. Parece adulta”, elogia. Leo, o caçula da Lilita, irmão da Míriam, surge na sala. A entrevistada, vaidosa, tira onda: “Tô contando minha história, Leo. Nasci pra ser chique, né!?”.
