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Estado de Minas

Nossa história: ruas tomadas contra Hitler

Há 73 anos, começava a Segunda Guerra Mundial. Brasil entrou para o conflito após ter navios comerciais afundados por alemães, o que causou revolta e desencadeou manifestações pelo país


postado em 01/09/2012 06:00 / atualizado em 01/09/2012 07:07

Há 73 anos, começava a Segunda Guerra Mundial. Brasil entrou para o conflito após ter navios comerciais afundados por alemães(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press/Reprodução)
Há 73 anos, começava a Segunda Guerra Mundial. Brasil entrou para o conflito após ter navios comerciais afundados por alemães (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press/Reprodução)
O mundo lembra hoje, ainda com espanto, os 73 anos do início da Segunda Guerra, que envolveu a maioria das nações e incluiu todas as grandes potências da época, organizadas em duas alianças opostas: os Aliados (Estados Unidos, França, Inglaterra e outros) e o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O conflito mais letal da história da humanidade durou até 1945, mobilizou mais de 100 milhões de militares e deixou cerca de 70 milhões de mortos. Para os brasileiros, a data remete à entrada do país nessas páginas sangrentas: há 70 anos, completados no último sábado, o presidente Getúlio Vargas (1882-1954) rompia relações diplomáticas com o Eixo, depois que navios nacionais, não de combate, mas comerciais, foram torpedeados e afundados por submarinos alemães.

O ataque às embarcações desencadeou protestos e levou milhares de pessoas às ruas das capitais. Belo Horizonte não ficou de fora e teve manifestações públicas na Praça da Liberdade e Praça Sete, no Centro. Sob as palmeiras-imperiais e diante do Palácio da Liberdade, homens e mulheres, civis e militares, carregavam bandeiras e faixas contra a ação de Adolf Hitler (1889-1945) e apoiavam o envio de tropas ao front, na Europa. “O torpedeamento foi um tipo de sabotagem econômica, pois impediu que as mercadorias exportadas pelo Brasil chegassem aos seus destinos – os países aliados”, explica a professora de história da PUC Minas Carla Ferretti Santiago, autora da pesquisa BH nos tempos da Segunda Guerra. A estimativa é de que, durante o conflito, 50 navios tenham se tornado alvo dos alemães.

Além da revolta pelos naufrágios, há outra versão bem aceita para Vargas ter declarado guerra à Alemanha, embora tardiamente, segundo a professora. O motivo seria o empréstimo de US$ 20 milhões, liberado pelos Estados Unidos, para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda (RJ). Com a pressão norte-americana, o Brasil, que no início da guerra, em 1939, mantinha a neutralidade e depois uma posição ambígua, não teve mais como ficar em cima do muro. E, além de mandar os pracinhas para a Itália, permitiu até que fosse construída uma base norte-americana em Natal (RN), ponto estratégico no Oceano Atlântico para os aliados.

O Brasil, via Força Expedicionária Brasileira (FEB), mandou ao teatro de operações da Itália 25.334 combatentes, dos quais 2.947 mineiros. Morreram 467, sendo 82 das Gerais. Houve vitórias, como a conquista da cidade de Montese e do Monte Castelo, dentre várias outras, sendo que, em Collecchio e Fornovo, os pracinhas cercaram e aprisionaram a 148ª Divisão de Infantaria Alemã, com quase 15 mil homens. Quem se lembra bem daqueles tempos sinistros no campo de batalha, de forma lúcida e clara, é o capitão Divaldo Medrado, de 92 anos, que esteve à frente de um grupo de combate, a menor unidade de um regimento. Ele participou de uma das quatro tentativas de tomada ao Monte Castelo e levou 13 tiros de metralhadora no ombro – “omoplata, clavícula e úmero”, faz questão de citar.

Decisão

Na tarde de quarta-feira, reunido com ex-combatentes e familiares na sede da Associação Nacional dos Veteranos da FEB (AnvFeb), no Bairro Floresta, Região Leste de BH, Medrado disse que a decisão do Brasil de entrar na guerra foi correta. “Os nossos navios foram atacados na calada da noite e sem aviso prévio. Isso gerou revolta. Sabíamos que partiríamos para a Europa”, diz o capitão. Para ele, guerra é uma “miséria”, mas, sem titubear, voltaria à luta “se as razões fossem as mesmas daquela época”. Durante o período que ficou na Itália, Geraldo Gomes dos Reis, de 92, foi motorista e conta que não teve medo: “Com o tempo, a gente foi se acostumando, mesmo que tivesse de dirigir à noite com os faróis apagados”.

Rafael Inácio Braz, de 91, também revela que não teve “um pingo de medo”, embora participasse da infantaria, tropa que faz o serviço a pé. “Não estava no primeiro ataque a Monte Castelo, portanto, escapei de morrer, como ocorreu com muitos brasileiros. Agradeço a Santa Joana D’Arc. Antes de partir, minha irmã Ana Maria, devota, me pediu para rezar para ela”, recorda-se Rafael. Circulando pelo museu da AnvFeb, os três mostram o amplo acervo da casa, não se intimidam diante da bandeira com a suástica nazista e fazem questão de posar para fotos ao lado do canhão de 155 milímetros, de fabricação norte-americana, instalado no canteiro central da Avenida Francisco Sales, em frente ao número 199.

Clima de paranoia

Nos tempos de guerra, mesmo a milhares de quilômetros, BH, então com cerca de 215 mil habitantes, sentia os efeitos do conflito. E era evidente a total aversão a tudo que se referisse a Alemanha, Itália e Japão. “Houve um clima de eixofobia”, diz Carla Ferretti. Exemplos: dois turistas japoneses foram presos sob acusação de espionagem quando fotografavam o Pirulito da Praça Sete, e a Casa d’Italia, de encontro de imigrantes, na Rua Tamoios, sofreu ataques e foi confiscada pela prefeitura, tornando-se, depois, sede da Câmara Municipal. Lojas de alemães viraram alvo de agressões e das consequências da paranoia vigente, tão logo o Brasil declarou guerra.

O clima de medo esteve presente o tempo todo. Sem chance de receber um ataque aéreo nazista, muitos belo-horizontinos agiam como se a guerra estivesse logo ali. Houve queima e depredação de estabelecimentos comerciais e muitos estrangeiros foram agredidos e apanharam nas ruas. A Fazenda Mikado, primeira colônia agrícola japonesa de BH, instalada em Venda Nova, sumiu do mapa. As autoridades policiais prenderam os homens, ordenaram o despejo imediato de mulheres e crianças e apreenderam livros e documentos. E mais: o medo dos bombardeios fez os novos prédios, como o Edifício Acaiaca, na Avenida Afonso Pena, saírem das pranchetas dos arquitetos com abrigos antiaéreos.

Ao lado do estresse generalizado, houve também campanhas para ajudar o Brasil a repor os navios perdidos. Uma delas, a Pirâmide Metálica, começou assim que o Aníbal Benévolo foi torpedeado em agosto de 1942. Na Praça Sete, moradores doaram ferro-velho para construção de outro navio. As coletas de dinheiro ganharam as vias públicas, com destaque para a Campanha da Mulher Mineira pela Aviação, com o objetivo de ajudar o país a comprar aviões de combate.

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