Publicidade

Estado de Minas

Circo faz parte da cultura do povo mineiro desde o século 19

A alegria das antigas trupes italianas e ciganas é mantida pela família Simões, que montou a lona em BH


postado em 29/10/2011 06:00 / atualizado em 29/10/2011 06:59

De pai para filho, neto e bisneto. Há pelo menos seis gerações, o clã Simões faz do picadeiro o palco de sua arte, que está entre as mais populares do mundo. Não é mera coincidência a semelhança entre a trama de O palhaço, filme escrito, dirigido e protagonizado por Selton Mello, com a história dessa família. A exemplo de Pangaré, interpretado por Selton e filho de Puro Sangue (Paulo José), o adolescente Yahn, de 12 anos, foi praticamente criado no picadeiro do Circo Irmãos Simões. Além do pai, Reginaldo, de 39, ele costuma contracenar com os tios Márcio, de 37, Lalado, de 42, e Lindomar Simões, de 46.

A família Simões, radicada em BH, dedica-se ao circo desde o fim dos anos 1800(foto: Beto Magalhães/EM/D. A Press)
A família Simões, radicada em BH, dedica-se ao circo desde o fim dos anos 1800 (foto: Beto Magalhães/EM/D. A Press)
Do clã vieram pelo menos 18 das 20 pessoas envolvidas na produção do espetáculo, cuja lona itinerante está de férias até janeiro. Trata-se de uma das mais tradicionais companhias circenses do país, fundada pelo patriarca João Simões no fim do século 19. João e Ermília tiveram cinco filhos, que formaram a segunda geração de artistas, seguida por outras quatro. “Gosto de ser palhaço porque é muito legal fazer palhaçada ao lado de meu pai e dos tios”, diz o jovem Yahn.

Criado no Rio de Janeiro, o Circo Irmãos Simões chegou a Minas Gerais nos anos 1970. Estabeleceu-se em Juiz de Fora, na Zona da Mata, mas na década seguinte desembarcou em BH. Com base fixa na capital, a trupe monta sua lona em toda Minas Gerais. “Não tem jeito, a gente já nasce no clima”, explica Lindomar Simões, o palhaço Fofoca, que estreou no picadeiro aos 5 anos. Bisneto de João, neto de Plácido e filho de Francisco Simões, ele vem de uma família de 13 irmãos. Todos profissionais do picadeiro.

Lindomar, diretor artístico da companhia, conta que as temporadas duram em média 15 dias, sob o comando dos palhaços Fofoca, Fofura, Calhambeque e Fofinho – ou seja, ele e os irmãos Márcio, Lalado e Reginaldo. O sobrinho Yahn incorpora Pedacinho. “Ser palhaço é tudo de bom”, resume Lindomar, atribuindo o prazer da profissão ao contato direto com a plateia. “Nossa função é fazer o público sorrir”, garante ele.

A arte está no sangue. “O verdadeiro palhaço tem o dom, senão perde o encantamento”, diz Fofoca. Escolas de circo, pondera Lindomar Simões, não são a garantia de aprendizagem. “É preciso ter a vivência do circo, essa é a grande escola. Apesar da necessidade de contato físico com a lona, há todo um mistério envolvendo a profissão”, acredita.

Magia, malabarismo, acrobacia e equilibrismo são algumas das funções do palhaço, que também pratica malabares e trapézio. Enquanto o Pangaré de Selton Mello pensa em abandonar a lona em busca de outro destino, o clã Simões segue firme no ofício. “É muito gratificante ter um filho palhaço”, afirma Reginaldo Simões. Malabarista, equilibrista e conhecido como palhaço Tony ou Suarê, ele entra no picadeiro somente nos intervalos dos números.

Márcio Simões encarna Fofão, o personagem de cena conhecido como pastelão. Para ele, o melhor da profissão é “abrir a cortina, chegar ao picadeiro e fazer as pessoas felizes”. Lalado Simões (Calhambeque), por sua vez, dedica-se à mímica e à pantomima. Além do filho Kaíque, de 12 anos, palhaço acrobata, ele tem Luan, de 20, malabarista e mágico. “Tudo o que é nosso veio do circo”, comenta Márcio.

Entretanto, os irmãos Simões advertem: a grande ameaça a essa antiga arte vem da ausência de espaços físicos para a montagem das lonas nas cidades, além da eterna burocracia brasileira.

Linha do tempo

1770: Philip Astley inaugura o primeiro circo europeu moderno, o Astley’s Amphitheatre, em Londres
1792: O circo chega aos Estados Unidos, levado pelo inglês John Bill Ricketts
1869: Nos EUA, William Cameron Coup é o primeiro a promover espetáculo circense de grandes dimensões, para cerca de 1 mil pessoas
Anos 1800: Registra-se no Brasil a presença de circos itinerantes, que funcionam em moldes semelhantes aos atuais
1897: Em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, nasce Abelardo Pinto, o mitológico palhaço Piolim
1915: Nasce em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, George Savalla Gomes, o Carequinha, famoso palhaço brasileiro
1977: Em São Paulo, é criada a primeira escola de circo no Brasil. Chama-se Piolin, em homenagem ao palhaço paulista
1982: Surge a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro

Moleza & Dureza
Entre as famílias circenses mais conhecidas de Minas está a do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. Filho de Antônio Cerezo, o Carlito, sucesso na extinta TV Itacolomi como palhaço Moleza (foto), e da atriz Helena Robattini Cerezo, o ex-atleta dividiu o picadeiro com o pai na pele do pequeno Dureza. Em Belo Horizonte, eles ficaram conhecidos como a dupla Moleza e Dureza.

Mmemória:
Trupes ambulantes

Minas Gerais e São Paulo são os estados que mais receberam as chamadas famílias ambulantes, vindas da Europa por volta de 1830. “São João del-Rei é uma das poucas cidades a terem o registro de todas as famílias circenses que passaram por lá”, afirma Sula Mavrudis, presidente da Rede de Apoio ao Circo. “Sempre à margem, esses artistas continuam itinerando até hoje”, constata ela.

O circo chegou ao Brasil por meio de imigrantes italianos e de ciganos vindos da Romênia e da Iugoslávia. Entre os clãs circenses de Minas Gerais se destacam os Stancovichs, os Stevanovichs e os Wassinovichs, do Leste Europeu, e os italianos Robattinis. Especializada em circo-teatro, a família Freitas ficou em Conceição de Aparecida, enquanto os Gonçalves foram para Caxambu (ambas cidades do Sul de Minas) e, posteriormente, para Guarani, na Zona da Mata. O famoso palhaço Pardal pertence ao clã Gonçalves, cujo Circo-Teatro Caxambu faz sucesso ainda hoje.


Publicidade