
A ordem do mercado é expandir, mas a construção de imóveis deve levar em conta uma das características especiais de Belo Horizonte, afinal em cidade montanhosa todo cuidado é pouco. Na chamada cidade formal, áreas instáveis ou com potencial de deslizamentos estão por todo o lado, em diferentes graus de perigo, segundo mapa de risco geológico elaborado por professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Secretaria Municipal de Planejamento. Com variações de nível 1 a 4 (veja quadro), a cartografia mostra que desabamentos e deslizamentos não são problemas exclusivos de regiões de vilas e favelas e podem se tornar um pesadelo, caso a engenharia não trabalhe seguindo especificidades de cada tipo de solo.

Os dois mapas mostram que a maior parte de BH tem níveis entre 1 e 2. Pelo menos oito bairros teriam áreas que merecem atenção especial, com níveis de risco em graus 3 ou 4: Buritis (Oeste); Sion, Serra e Mangabeiras (Centro-Sul); Nova Iorque (Venda Nova); Engenho Nogueira e Ouro Preto (Pampulha); e Alvorada (Nordeste). Todos têm alta declividade. Partes construídas em encostas da Raja Gabaglia se encaixam nesse perfil.
A representação cartográfica mostra que, no caso do Buritis, os prédios dos números 199 e 211 da Rua Lara Soares Carneiro, com as estruturas abaladas, estão numa zona de risco 3. Isso significa que ela tem possibilidade de deslizamento natural e risco associado a escavações com intensidade que varia de média a elevada. “BH melhorou, mas está longe do ideal em termos de avaliação do risco e de como conduzi-lo. Tudo foi excessivamente regulamentado, então, a pessoa cumpre a formalidade da lei e dorme sossegado, sem se preocupar com outras questões”, afirmou Edézio de Carvalho.
O geólogo ressalta que as áreas vulneráveis não são inviáveis para construções, desde que haja rigor técnico: “Não significa que uma área de risco esteja condenada, mas que a natureza e a intensidade dela deve ser levada em conta”.

“A prefeitura está numa corrida atrás do trem, mas esse trem está começando a sair do controle, pois BH está aumentando muito o número de edificações” - Edézio Teixeira de Carvalho, geólogo
PERIGO NATURAL
Nível 1
Risco de deslizamento natural: baixo a desprezível
Risco associado a escavações: desprezível a médio
Nível 2
Risco de deslizamento natural: baixo a médio
Risco associado a escavações: médio
Nível 3
Risco de deslizamento natural: médio a elevado
Risco associado a escavações: médio a elevado
Nível 4
Risco de deslizamento natural: elevado
Risco associado a escavações: médio a elevado
Ocupação desordenada
A época remete ao início da década de 1970 e o local, a uma enorme fazenda, de propriedade Aggeo Pio Sobrinho, com mata de galeria, cerrado e nascentes. Na cobertura vegetal, exemplares nobres, como jatobás, ingás e cedros. A fauna também era rica, com sabiás, micos-estrela e ouriços. Hoje, exemplares assim só mesmo no parque que leva o mesmo nome do antigo dono dessa área. O som pacato dos animais e do farfalhar do vento nas folhas das árvores cedeu lugar ao barulho de bate-estacas, betoneiras e mateletes, bem no ritmo frenético da construção de mais e mais edifícios, que ocupam cada centímetro do Buritis.
A fazenda começou a ser demembrada por volta de 1973. Naqueles tempos, havia apenas uma via de acesso para a região, a Rua Dom João VI, que se ligava ao Anel Rodoviário, perto da estação da Cemig. Para se ter ideia da diferença, um dos bairros mais pulsantes de BH era considerado zona rural. O nome origina de buriti, uma espécie de palmeira nativa do cerrado que podia ser encontrada na região e foi escolhido pela empresa responsável pelos primeiros loteamentos para batizar seu empreendimento de luxo, um condomínio fechado, que seguia os mesmos moldes de outros já existentes em Nova Lima, na Grande BH.
O primeiro condomínio foi lançado no início da década de 1980 e a área era então considerada Zona Residencial 2, que permitia apenas edificações unifamiliares e horizontais. Logo começaram a surgir diversos prédios de pequeno porte, oferecendo, segundo as construtoras, o “padrão Zona Sul”, a preços mais acessíveis.
A partir de 1991, começou um crescimento desordenado, que englobou até mesmo a região vizinha do Bairro das Mansões, que assumiu as mesmas características. Com o passar do tempo, houve uma explosão do número de moradores. Consequentemente, o que era tranquilidade se tornou confusão, com um trânsito caótico e cada dia pior. O local que conquistou a fama de maior canteiro de obras da América do Sul, o Buritis é o segundo bairro mais populoso da capital, segundo o Censo 2010, com 29.374 moradores, perdendo apenas para o Sagrada Família, na Região Leste de BH.
