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Estado de Minas

Com obras na Savassi, tribos se espalham por BH


18/07/2011 06:43 - atualizado 18/07/2011 09:29

A Praça da Liberdade, a poucos quarteirões da região da Savassi, foi o ponto escolhido por integrantes de diversas turmas para se reunir, dançar e conversar
A Praça da Liberdade, a poucos quarteirões da região da Savassi, foi o ponto escolhido por integrantes de diversas turmas para se reunir, dançar e conversar (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
É sexta-feira e, como de costume, há cerca de dois anos, o estudante Marcos Namoratos, de 16 anos, arruma a mochila e sai para a balada. Não pode faltar o laquê e a chapinha, para retocar os cabelos artificialmente lisos e espetados, a maquiagem, para delinear os olhos de preto, e duas navalhas, caso um amigo queira repicar as madeixas. O visual fica completo com um piercing no septo nasal e outros dois no lábio inferior, que ele mesmo furou. Mas, se antes Namoratos marcava presença às 19h na Praça Diogo de Vasconcelos, a conhecida Praça da Savassi, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, há três meses a rotina mudou.

Ele faz parte da legião de alternativos, forçados a procurar novo endereço para os encontros nas noites de sexta-feira e sábado, depois do começo das obras de revitalização da praça, no fim de março. Marca das madrugadas da região, os adolescentes e jovens de comportamento irreverente, roupas pretas e cabelos exóticos – cada qual de um grupo, todos adeptos do estilo "fora do padrão", como definem – sumiram com a chegada das máquinas e trabalhadores. De lembrança, deixaram apenas uma pergunta: “Para onde foram as tribos da Savassi? Elas desapareceram”, diz o segurança de um fast-food, Altair Santos, de 28.

Em busca do paradeiro das tribos, o Estado de Minas encontrou a resposta para a pergunta de Altair a poucos quarteirões dali. A Praça da Liberdade é o novo reduto de punks, remanescentes de emos e sua versões atualizadas, como scene kids e otakus, entre outros adeptos de um modo diferente de pensar e vestir (veja glossário). Com as inseparáveis PET’s preenchidas por mistura de refrigerante e bebida alcoólica – barata –, agora, eles voltaram a dividir espaço com metaleiros, que, há quase um ano, já haviam trocado a Savassi pela Liberdade.

Aos sábados, a preferência dos alternativos é pela Praça Nossa Senhora da Glória, no Bairro Eldorado, em Contagem. Há também reuniões marcadas pela internet na estação de metrô do Minas Shopping, no Bairro União, na Região Nordeste de BH. "Mas, com as obras da Savassi, o point agora é a Liberdade. É de lei, nem precisa combinar, todo mundo vem", conta o autêntico scene kid Namoratos, que vê com bons olhos as melhorias na Savassi, mas não sabe se a turma volta para lá.

Do mesmo grupo, a estudante Júlia Avelar, conhecida como Panda, de 15, diz que eles chegaram na Liberdade para ficar: “Antes, eram grupinhos, havia muita briga. Aqui é todo mundo amigo.” E a garota, de cabelos rosa choque “por enquanto, pois já foram pintados de todas as cores, menos branco”, põe a afirmativa em prática. Com os amigos ela canta, dança, ri e, em torno do coreto, chama a atenção de quem é rotulado pelos alternativos como “dentro do padrão”.

Choque cultural

“Estou me sentindo um estranho no ninho”, revela o contador Anselmo Portilho, de 35, com a namorada, Gisele Oliveira, de 24, em visita a BH. “Sou de Barbacena e lá no interior as pessoas são mais reservadas. Achei legal o pessoal aqui”, diz Gisele, que só observa. Diante dela, meninos e meninas se reúnem em rodas e não poupam manifestações de amizade, com destaque para os abraços coletivos. O garoto Namoratos explica: “Somos um choque cultural.”

São pessoas que o estudante Neim Lopes, de 18 e franja colada na testa, prefere chamar de família. Morador de Vespasiano, na Grande BH, toda sexta-feira ele enfrenta quase uma hora no ônibus para encontrar a turma. O garoto, que se define como um emo – tipo mais emotivo –, afirma que, na praça, se sente livre para agir como quiser. “Muitas vezes, se dá vontade de chorar, eu choro. Vale a pena demais vir.” Tanto vale que o arquiteto Renato Sambi Colloto, de 44, também migrou da Savassi para a Liberdade.

É ao lado do coreto que ele, religiosamente, todas as sextas-feiras, se veste de elfo, personagem do filme Senhor dos anéis, com direito a orelhas pontudas, além do arco e flecha, hábito que mantém desde 2006. “É um lugar que tem liberdade. Gosto de representar o personagem e eles gostam de me ver assim”, afirma Renato, que só cultiva um temor em relação ao retorno dos alternativos à Savassi, cujo projeto arquitetônico prevê quatro fontes. “Espero que nenhum bêbado tome banho nas fontes, como fazem aqui.”

Encontro regado a excessos


Liberdade deixou de ser apenas o nome da praça da Região Centro-Sul da capital e marca o comportamento das tribos, que, com as obras de revitalização da Praça Diogo Vasconcelos, conhecida como da Savassi, abandonaram o espaço e migraram para o novo endereço. Sem marcação cerrada da Polícia Militar e sob olhares distantes da Guarda Municipal, a diversão dos jovens, a maioria menor de idade, acompanha boas doses de bebida alcoólica. “A gente sempre traz rum, vodca e vinho barato”, diz o estudante Henrique Fernandes, de 21 anos, contando que o violão costuma acompanhar a turma, embalado pelas variações do rock n’ roll.

Por essas e outras, o soldado Paulo Gesualdi, da base comunitária da 4ª companhia do 1º Batalhão da PM, situada na Praça da Savassi, não tem saudade dos tempos em que os alternativos viviam na região. “Usavam muito álcool e outras drogas. Era triste ver as crianças vomitando e as mães desesperadas para encontrar os filhos.” Já o garçom de um café da praça, Iteomar Caetano, de 52, tem outra percepção sobre o sumiço das tribos. “Eles fazem falta, pela criatividade. O que querem é causar impacto.”

E já tem gente cogitando voltar a marcar presença na Praça da Savassi, que tem inauguração prevista para março de 2012. É o caso do estudante Carlos Max, de 18. A turma dele, formada por metaleiros, deixou de frequentar a região há quase um ano, antes do início das obras de revitalização. A motivação precoce? Rixas entre grupos, a presença de assaltantes e o fechamento do Bar do James, reduto do rock na região. Mas a turma dos camisas pretas planeja o retorno. “A Savassi é o melhor ponto de encontro. Acho que vai melhorar e ali tem tudo: bares, restaurantes.”

Glossário - o beabá das tribos


Emo: Escutam “emotional hardcore”, estilo musical de letras melódicas, são sensíveis e emotivos. Usam roupas pretas e penteados com franjas lisas, escondendo parte do rosto. O movimento, que teve seu auge em 2008, perdeu força

Scene kid: gostam de ser a cena e abusam de cabelos coloridos, cortes repicados, lisos e espetados. Meninas costumam usar coroa na cabeça. Inventam brincadeiras infantis, mas gostam de rock pesado.

Otaku: são aficionados por seriados e desenhos animados japoneses, conhecidos como Anime. Geralmente têm cabelo tingido e mochilas apinhadas de bottoms.

Punk: geralmente se opõem à organização social. Vestem coturnos, calças rasgadas, blusas pretas e jaquetas de couro. Cortam o cabelo ao estilo moicano.

Como ficou? - Feiras de arte e modelo


Rotina alterada


Não foram somente as tribos que marcavam presença nas noites da Praça da Savassi que tiveram a rotina alterada com as obras de requalificação do espaço. Além de o comércio registrar queda de 40% no faturamento, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas, ruas onde funcionavam feiras da região se transformaram em canteiro de obras e, com isso, as atrações foram obrigadas a sair dos pontos tradicionais.

Artistas plásticos da Esquina da arte, que ocorria desde 1996, aos sábados, na praça, têm agora exposição temporária no Shopping Quinta Avenida, também na Savassi. A ideia é que a mostra percorra outros centros de compras até a inauguração das obras da Savassi. “Aqui no corredor do shopping não está ruim, mas é diferente o contato com as pessoas”, afirma o artista plástico e retratista Cristiano Coelho, de 71 anos.

Já a feira modelo, com 17 barracas de frutas, legumes e comidas típicas, que, por 15 anos, funcionou na Rua Tomé de Sousa, foi transferida definitivamente para a Rua Paraíba, entre a Rua Inconfidentes e a Avenida Getúlio Vargas. “No começo foi estranho e, até hoje, alguns clientes não conseguiram nos encontrar. Em contrapartida, o espaço ficou mais amplo”, conta o feirante Giovanni Laureano Teixeira, de 36, um dos primeiros a ter banca na feira.


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