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Estado de Minas

Deficiente visual há 20 anos, professora dedica a vida à educação infantil em BH


postado em 24/06/2011 08:04

Maria da Conceição com os estudantes em Venda Nova: 10 anos direcionados a projetos que ajudam a desenvolver escrita e leitura(foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Maria da Conceição com os estudantes em Venda Nova: 10 anos direcionados a projetos que ajudam a desenvolver escrita e leitura (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)

Ela enxerga com o coração. Teve a visão comprometida pela retinose pigmentar, mas não abandonou a missão de educadora. Maria da Conceição Dias Magalhães, de 54 anos, é deficiente visual há mais de duas décadas. Entretanto, isso não foi empecilho para ela fazer o que mais gosta: ensinar crianças a ler e a escrever. Ao longo de 18 anos de magistério – 10 dedicados a alfabetizar alunos da rede municipal e quatro atuando com estudantes cegos –, aproximadamente 600 meninos e meninas passaram pelas mãos da ‘tia Conceição’. “O meu grande diferencial não é o fato de eu ser cega, apesar de essa ser a opinião de muita gente, mas sim a maneira como trabalho em sala de aula, os métodos que utilizo para estimular o desejo da criança de aprender, como os jogos, as peças, as letras móveis, atividades extraclasse. Papel e giz sempre foram muito pouco aproveitados por mim e ainda conto com material pedagógico adaptado em braille e computador com sintetizador de voz”, revela a professora, que se formou em pedagogia quando já estava completamente sem a visão.

Irmã do comediante Geraldo Magela, também deficiente visual – cinco dos oito irmãos foram afetados –, Conceição conta que nunca pensou em dar aulas. Porém, quando viu os filhos crescendo, se desenvolvendo, e a empolgação deles com as atividades curriculares, decidiu abrir uma escola infantil em casa. “Vi que era possível alfabetizar os pequenos e dei aulas durante três anos na minha casa. Depois, prestei concurso para professora da prefeitura, passei e, durante 15 anos, atuei na rede municipal”, acrescenta.

No quadro

Os estudantes Leonardo Almeida, Wiusmarqs Moreira, Luana Silva e Priscila Hameze, todos de 16 anos, conheceram letras e palavras por meio de Conceição. Foi ela a responsável por ensiná-los a ler e a escrever quando eles tinham 6 anos. “O que mais me marcou era como a letra dela era bonita quando ela escrevia no quadro-negro”, recorda Wiusmarqs. Leonardo comenta que os colegas nem percebiam que a professora tinha deficiência visual e acredita que ela era até mais eficiente do que os demais mestres. “Ela ensina muito melhor do que alguém que enxerga. Sempre teve muito cuidado com cada um de nós, ia em cada mesa e isso foi fundamental para a nossa evolução como estudantes porque ela nos deu uma excelente base”, frisa. Já Luana e Priscila se lembram das orientações que davam para a professora no momento de ela escrever com o giz. “A gente sempre falava para ela escrever um pouco mais embaixo, ou mais para a direita no quadro. Mas, no geral, era engraçado como a Conceição comentava da própria caligrafia, se o T estava parecendo um L, por exemplo. Era interessante e a gente acaba tendo saudades”, diz Priscila.

A mobilidade e o senso de percepção de Conceição dentro da sala de aula impressionam. Ela consegue descrever até onde se localiza cada aluno. “Como eu organizava a disposição das carteiras, tinha noção se fulano sentava no fundão ou na frente. Pela voz também a gente se guia. Nunca tive problemas com os pais, até porque quando se cativa o filho deles, não há obstáculos nesse sentido”, revela. Uma auxiliar a ajudava durante o trabalho.

Para entender

A retinose pigmentar é causada por inúmeras mutações genéticas hereditárias. A doença ataca a retina, causando destruição das células receptoras de luz, que se desativam ou passam pela chamada morte celular programada, uma espécie de autodestruição. Ocorre a distrofia dos cones e bastonetes, responsáveis por transformar a luminosidade visível em impulso nervoso que é levado até o cérebro. Pode afetar desde crianças a pessoas em idade madura. Causa a perda progressiva da visão. Num primeiro estágio, a noturna. Ela é incurável, sem possibilidade de tratamento clínico ou cirúrgico. A incidência da retinose pigmentar é de 1 para cada 4 mil pessoas.

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