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Estado de Minas

Inconfidente Resende Costa vai descansar em paz depois de 213 anos


postado em 15/04/2011 06:10 / atualizado em 15/04/2011 06:49

Trata-se do conjurado José Resende Costa, que viveu na Região do Campo das Vertentes e morreu, aos 70 anos, em 1798, no degredo em Guiné-Bissau, na África(foto: Reproducao da revista Memoria Cult )
Trata-se do conjurado José Resende Costa, que viveu na Região do Campo das Vertentes e morreu, aos 70 anos, em 1798, no degredo em Guiné-Bissau, na África (foto: Reproducao da revista Memoria Cult )
É longa e tortuosa a história do traslado dos restos mortais de José Resende Costa (1728-1798), que tinha um filho com o mesmo nome também inconfidente; de Domingos Vidal de Barbosa Laje, morto aos 32 anos; e João Dias da Motta, aos 59, igualmente no degredo na África, cumprindo a sentença proferida na madrugada de 19 de abril de 1792, na Sala do Oratório da Cadeia Pública (Paço dos Vice-reis), no Rio de Janeiro. Tudo começa em 1932, quando o então cônsul do Brasil em Dacar, no Senegal, João Batista Barreto Leite, pede a exumação dos corpos – que é feita no mesmo ano, com a ajuda de uma nativa, Michaela da Costa, na época com mais de 80 anos. Ao chegar ao país, os restos mortais foram levados para o arquivo histórico do Itamarati, no Rio de Janeiro (então capital federal) e depois percorreram um longo caminho. A história sobre a identificação foi antecipada pelo Estado de Minas no dia 3 e estará na edição especial da revista Memória Cult, editada por Fernando Junqueira e Eugênio Ferraz.

Em Minas, a primeira ação pedindo a transferência das ossadas dos conjurados mineiros partiu do poeta Augusto de Lima Júnior (1889-1970), autor da obra História da Inconfidência de Minas Gerais. Ele pediu ao então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) que os despojos dos inconfidentes fossem trazidos ao Brasil e teve sucesso. Em 21 de abril de 1936, Vargas decretou o repatriamento dos restos mortais dos degredados e, no fim daquele ano, as urnas foram conduzidas à Capela do Senhor dos Passos, na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Pouco depois, novo destino, o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, onde foram construídos jazigos especiais para os despojos.

No Museu da Inconfidência, na Praça Tiradentes, no Centro Histórico de Ouro Preto, uma lápide ainda vazia homenageia os três inconfidentes. A expectativa é de que o sepultamento em solo brasileiro, na quinta-feira, dia 21, mais de 200 anos depois da morte deles, seja acompanhado pela presidente Dilma Rousseff (PT). Os despojos vão ficar no Panteão, no primeiro andar do prédio, ao lado das lápides de Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga, João da Costa Rodrigues, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, Vitoriano Gonçalves Veloso, Álvares Maciel, Francisco de Paula Freire de Andrada, Domingos de Abreu Vieira, Luiz Vaz de Toledo Piza, José Aires Gomes, Antônio de Oliveira Lopes e Vicente Oliveira da Mota.

Em 1993, para garantir a autenticidade das ossadas, a direção do Museu da Inconfidência entregou o material para exame à equipe do curso de pós-graduação do programa de Odontologia Legal e Deontologia da Faculdade de Odontologia da Unicamp, em Piracicaba (SP). À frente do curso está o professor Eduardo Daruge, autor de mais de 10 mil perícias judiciais nas áreas cível, criminal, trabalhista e de investigação de paternidade. Ele foi ainda o responsável pela reconstituição facial do carrasco nazista Josef Mengele; do cantor João Paulo, carbonizado em consequência de acidente de carro, e de outros. Daruge estará hoje na sede do Ibram, em Brasília, para dar detalhes sobre o trabalho (veja quadro abaixo).

QUEBRA-CABEÇA HISTÓRICO

Em junho de 1993, a Faculdade de Odontologia da Unicamp, em Piracicaba (SP), recebeu uma urna, enviada pelo Museu da Inconfidência, contendo o que se acreditava serem os restos mortais dos três inconfidentes. O objetivo era estudar e tentar separar as peças ósseas pertencentes a cada um deles. Quando a urna foi aberta, a equipe encontrou fragmentos ósseos maiores e menores, além de terra, pedras, pedaços de jornal picado, fios de cabelo e outros materiais. Tudo foi separado e armazenado.

Os fragmentos de ossos, igualmente separados, foram acondicionados no interior de uma caixa de papelão para estudo posterior. Analisando cada um deles, a equipe da Unicamp verificou que, pela cor, espessura, relação de continuidade com outras peças encontradas e características anatômicas, havia partes coincidentes e pertencentes a três pessoas diferentes.

Outro fato que chamou a atenção dos pesquisadores é que, entre as peças ósseas, havia grande quantidade de fragmentos (144) pertencente a um crânio. Pelas características anatômicas, deveriam pertencer à porção cefálica de um único indivíduo.

Depois da separação dos fragmentos ósseos pertencentes a três indivíduos, a equipe de Eduardo Daruge, a partir dos conhecimentos de morfologia, reconstituiu o crânio com a exata montagem das pequeninas partes. No fim de seis meses, foi possível montar o crânio, sendo que as partes perdidas na terra, durante a exumação, foram esculpidas em cera branca para preencher os espaços que faltavam. Com estudos radiográficos e de densiometria óssea, verificou-se que o crânio deveria pertencer a José Resende Costa. As outras duas ossadas tinham apenas alguns fragmentos ósseos da calota craniana, impossibilitando a reconstituição.

No processo de identificação, foi usada a densitometria óssea – um exame radiográfico para medir a densidade dos ossos e que pode ser aplicado nos vivos e nas ossadas para avaliação da idade de uma pessoa. Os resultados (na pessoa viva) variam de 648 a 833mg/cm2. De acordo com dados da exumação na Guiné-Bissau, antiga possessão portuguesa, José de Resende Costa (pai) morreu aos 70 anos; João Dias da Motta, aos 49; e Domingos Vidal de Barbosa Laje, aos 32. Como a densidade óssea é inversamente proporcional à idade, isto é, quanto menor a idade maior a densidade óssea e quanto maior a idade menor a densidade, foi possível desenvolver o estudo. A diferença de idade entre os três conjurados permitiu identificar a ossada de cada um dos inconfidentes.

A partir da reconstituição do crânio de José Resende Costa foi feita uma tomografia computadorizada, com 135 cortes de 1,5 milímetros de espessura cada, obtendo-se uma fita magnética, o que possibilitou a projeção da imagem do crânio em três dimensões. De posse da fita, um dos integrantes da equipe foi à University College London (UCL), na Inglaterra, e obteve a colaboração do professor Alfred Linney. Com um programa especial, ele criou a imagem computadorizada da possível face do inconfidente. Na sequência, um levantamento sobre a existência de possíveis descendentes dos conjurados levou a uma fotografia de um trineto de José Resende Costa, tornado possível a comparação – tipo facial, forma e disposição da porção nasal e outras características – entre a imagem reconstituída do inconfidente e o descendente.


Depois de estudos detalhados, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Piracicaba (SP), tendo à frente o professor Eduardo Daruge, fizeram a reconstituição facial do inconfidente José Resende Costa (pai). Nesse trabalho, a equipe teve a colaboração de Alfred Linney, da University College London (UCL), da Inglaterra. O processo foi feito depois da reconstituição do crânio, durante análise sobre a autenticidade de ossadas trazidas ao Brasil como restos mortais de três dos participantes do levante mineiro do século 18.


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