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Estado de Minas entrevista/Junia Giannetti - 60 anos, Administradora e designer

Sem medo do desconhecido

Designer mineira se renova e faz sucesso em cursos on-line, com alunas em todo o país


24/10/2021 04:00

Administradora e designer
Junia Giannetti (foto: Arquivo pessoal)

 
Muito se fala que, atualmente, idade é apenas uma questão cronológica, se a pessoa está ativa e participa do mundo virtual, é jovem. É o que chamam de ageless. Só é velho quem não quer se renovar, se atualizar, aprender, se aventurar no mundo digital. A designer de joias Junia Giannetti é um ótimo exemplo de uma pessoa que se reciclou. Administradora de empresas por formação, assim que saiu da faculdade, aos 23 anos, decidiu ter um negócio próprio e empreendeu abrindo uma loja de bijuterias na Savassi, point da época. Depois de quase 20 anos atuando no mercado, com a loja em alta, decidiu largar tudo e se dedicar ao seu grande sonho: o design de joias. Há menos de três anos, começou a dar aulas de montagem de colar para um grupo de amigas, o negócio cresceu, e hoje ela dá cursos on-line, tem mais de mil alunas espalhadas pelo Brasil, administra três perfis no Instagram e tem o prazer de ver seu trabalho ser a porta de entrada de muitas mulheres para o mercado de trabalho.
 
Como migrou da administração para a moda?
Desde a adolescência, sempre gostei de moda e sempre tive aptidão para trabalhos manuais. Acredito que isso venha da família Giannetti. Sou sobrinha dos artistas plásticos Marília Giannetti, que foi referência na área, aluna de Guignard, e professora de belas-artes no Rio de Janeiro; e de Bruno Giannetti. Sempre fui antenada nas tendências de moda, e ainda adolescente criava coisas, fazia pulseiras de miçangas e vendia para minhas colegas. Fiz administração, trabalhei como estagiária na Agevile, imobiliária do meu pai, mas quis ter meu próprio negócio. Quando me formei, peguei minha poupança – naquela época a gente tinha era poupança – e abri a Art Biju, na Savassi. Morava no Bairro dos Funcionários, mas vivia circulando na Savassi, era o point da época. O dinheiro era pouco, eu mesma fiz o projeto e montei a loja. A Jacqueline, minha irmã, foi minha primeira vendedora e depois se tornou minha sócia.

Não teve medo de investir em um negócio tão nova?
Não. Nunca tive medo de investir em meus sonhos. Não existia curso que ensinasse a ser empresário, empreendedor, tampouco curso de varejo e de design. Aprendi na prática, com o mercado. A loja cresceu, era referência em bijuteria na cidade. Abrimos filiais no BH Shopping e no Diamond Mall. Tinha mais de 80 fornecedores. Vendia as principais marcas da época, como Rose Benedetti, Mary Design, Francesca Romana, todos que estavam em alta. Nossa curadoria era muito boa. Mas eu sempre fui criativa, queria criar e vender minhas peças.

Como fez para produzir suas criações?
Eu tinha fornecedores que eram artesãos da Feira de Artesanato de domingo, que tinham um trabalho muito bonito, diferenciado. Eu criava as peças e eles produziam minhas criações. Eram peças exclusivas, que vendíamos na Arte Biju. No final da década de 1990, o Brasil começou a importar da China uns fios de pedras e pérolas, que vinham em contêineres. Comprava fios de várias pedras, fechos e passei a montar os colares. Fui em tentativas, erros e acertos, até que desenvolvi uma técnica própria de montagem. Como precisava de uma grande quantidade de peças para minhas lojas, não tinha tempo suficiente para produzir, então montei uma equipe, ensinei a técnica, fazia os protótipos e a equipe produzia. Foi a forma que encontrei de ter os colares, pulseiras e brincos do jeitinho que eu queria.

E quando entrou a joia na sua vida?
Mesmo quando ainda estava com a loja já desenhava joias, e um ourives amigo da minha família fazia minhas criações, mas só desenhava peças para minha mãe, para mim e para a minha irmã, era uma coisa bem familiar.

Até quando ficou com a loja?
Fiquei com a loja por 18 anos. Em 2000, resolvi que trabalharia só com design e criação. Jacqueline continuou sozinha com as lojas por mais dois anos, depois vendeu. Saímos do mercado no auge, mas ambas estávamos demandando outras coisas para nossa vida. As pessoas perguntavam se estávamos doidas. Depois que saí, criei minha marca e passei a trabalhar só com joia e criação. A pessoa que trabalha com criação precisa de mudar, não dá conta de ficar fazendo sempre a mesma coisa, temos necessidade de mudar de ares, respirar, oxigenar, expandir. O repertório criativo é muito grande, precisamos abrir horizontes, estudar, aprender, pesquisar, ter tempo. Quando entrei integralmente no mercado da joalheria exclusiva, a Anna Marina me deu um grande apoio, fez várias colunas e reportagens sobre meu trabalho, me prestigiou muito, mostrou minhas criações. Isso foi muito importante para mim, porque tinha mudado completamente o rumo do meu trabalho. Tenho todas as matérias do Caderno Feminino & Masculino e colunas do EM Cultura guardadas. Por causa de uma reportagem da Anna Marina, uma mulher de Brasília trouxe uma bolsa cheia de joias da década de 1980 para eu criar peças novas, personalizadas. Fiz cinco joias lindas para ela.

Fez cursos de especialização na área?
Vários. Fiz especialização na Fumec, de design e cultura, cursos de design de joias na Escola Mineira de Joalheria, fiz diversas disciplinas de desenho na Guignard, tive aula de desenho criativo e de traço livre com Fátima Cavalieri, e com várias professoras particulares, desde 1991.

Faz joias personalizadas?
Sim, é o que gosto, joias personalizadas, com história. Faço uma entrevista com a cliente, um briefing para saber o que ela deseja. Se for o caso de trabalhar com joias que já tenha, vejo todo o material, e vamos conversando para identificar o estilo desejado, tamanho, etc. Preciso chegar na essência dela, e, claro, saber qual valor ela quer gastar. Já cheguei a comprar primeiro a esmeralda, depois o brilhante, e por último o ouro. Tudo para uma cliente poder fazer a joia do jeito que queria para presentear a filha no dia do noivado. Faço muito anel de noivado, aliança de brilhante, todas dentro do conceito do desejo pessoal, joias que contam uma história para guardar uma memória, uma história para contar no futuro. Uma cliente pediu que eu fizesse um terço em pérolas, com uma cruz de ouro, para ser usado por todas as noivas da família. Não crio joia simplesmente para usar, falar que tem joia e ostentar. É para ter uma simbologia pessoal.

E os colares casuais?
Comecei com a linha de colares mais casual como uma proposta mais comercial, para usar no dia a dia e como opção para presente, por ter um preço mais acessível. São feitos com pedras naturais. Foi a partir deles que, em 2019, surgiu a ideia de dar cursos.

Quantas coleções de colares cria por ano?
Três – uma no inverno, outra na primavera e uma para o Natal, mas faço pequenas reposições, do que mais agradou, porque só faço uma peça de cada. São peças com assinatura, mesmo a mais barata é única.

O que está em alta no verão?
Os chokers, que são os colares agarradinhos no pescoço, e os colares fininhos com pedras bem pequenas, que estão em alta desde o ano passado, e continuam neste verão. A proposta é misturar com outros colares que a pessoa já tem, fazendo um mix de colares de vários comprimentos. No caso das pulseiras, a moda é o pulserismo, uma mistura de pulseiras, desde uma riviera de brilhantes, com outra de pedras, uma de couro, outra de pérola, uma semijoia. Vale tudo, a moda é colocar cerca de 2 centímetros de pulseiras no braço direito, deixando o esquerdo apenas para o relógio.

E a tendência de brincos?
O earcuff e a pizza continuam em alta porque o uso do celular é cada vez maior e brincos grandes incomodam muito. A moda tem sido cada vez mais influenciada pelo uso e conforto, também nos acessórios. Para o verão, as argolas voltaram com tudo, em todos os tamanhos.

Como começaram os cursos?
Duas amigas manifestaram desejo de aprender a fazer colar. Decidi fazer o curso e montei uma turma com 12 vagas, presencial, em 2019. Foi sucesso, e em uma semana lotou. Programei outra turma. Meu filho André, que tem duas empresas de tecnologia de internet – faz aplicativos para internet e muitas outras coisas –, me falou para transformar o curso em on-line. Não entendia nada. Fiz um curso para aprender como fazer um curso on-line. Desde dar um nome para o meu curso, que se chama “Colares que encantam”, até como gravar, ensinando tudo, desde a montagem até o acabamento, porque a pessoa tem que assistir na hora em que puder, e rever a aula quantas vezes quiser. O professor é muito bom. Aprendi tudo.

O que você ensina?
Tudo. Dou a lista dos fornecedores, abro todo o meu negócio, quais ferramentas são necessárias, como escolher as pedras, como montar o colar, os acabamentos, fornecedores de pedras, etc. A primeira turma foi em novembro de 2019. Periodicamente, abro uma nova turma. Ofereço três aulas gratuitas, para as pessoas interessadas verem se realmente gostam do negócio. Se gostarem, compram o curso completo. Abro as inscrições por cerca de uma semana. Não faço turma grande para poder dar atenção aos alunos. Tenho um grupo no Telegram de cada turma, que fica ativo por três meses. Depois, as que se interessam passam para uma grande comunidade, também no Telegram. Vou esclarecendo dúvidas. Em dois meses elas já aprenderam e criaram a primeira coleção. Já formei mais de mil alunas em todo o país.

Como é a diversidade criativa, já que tem gente de todo o país?
Incrível. É lindo ver a influência regional em cada peça e as soluções dadas por cada aluno dentro de suas limitações, sejam elas financeiras ou de acesso a material. Alunas do Nordeste usam muita semente. Durante o curso, várias alunas percebem que aquilo de fato pode se tornar uma fonte de renda, um negócio. Fico muito feliz em perceber que estou ajudando as mulheres a conseguirem renda própria. Tenho uma aluna de 76 anos que abriu recentemente sua marca. Ela era psicóloga, tinha se aposentado e não queria ficar sem uma ocupação. Está toda feliz porque percebeu que o que achou que seria um hobby agora está gerando uma nova renda. Umas fazem bazar e vendem para as amigas. Dentro do curso tem um módulo em que ensino como vender as peças dentro do Instagram.

Como conseguiu aprender e dominar o Instagram?
A gente vai pesquisando, pergunta para os filhos e vai tentando. E é como tudo na vida, entre erros e acertos. Mas tenho um gestor de marketing, que é muito importante para quem faz curso on-line. Ele mora na Austrália – veja como o mundo é conectado – e faz toda a gestão dos cursos. Ele é especializado em curso on-line, conheci-o por meio do namorado da minha filha. Eles são amigos.

Postar e responder a todo mundo ocupa muito tempo. Como administra isso?
Ocupa sim, e eu tenho três perfis de Instagram. Um da minha marca pessoal, que é o @Junia Giannetti, onde coloco meus looks, minha rotina, lugares onde vou, etc. O outro é o @Junia Juannetti.design, no qual só posto coisas específicas do curso, para quem de fato se interessa pelas pedras, joias e design. E o @Junia Giannetti Brand, que é sobre minhas joias personalizadas. Tenho uma designer gráfica que cria e posta tudo para mim, preciso criar o conteúdo para seis postagens semanais. Faço aos sábados. Os directs eu respondo pela manhã bem cedo, na hora do almoço e nos intervalos. As alunas no Telegram, respondo depois das 21h, para me dedicar com tranquilidade. A divisão de tempo é uma arte à parte, muito necessária, é fundamental saber administrar para conseguir fazer tudo e ainda atender as clientes em casa, criar e desenhar a peças, fazer ginástica e sair com as amigas.

Ainda se vende muita joia?
Sim, muita. Na pandemia, cheguei a vender joia no hall do prédio de clientes e até mesmo no hall do meu prédio. O uso da joia tem sido pelo prazer, e não para mostrar. 


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