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Estado de Minas entrevista/Rogério Faria Tavares - 50 anos, Jornalista, advogado

Sob nova direção

AML está em nova fase, acompanhando toda a modernidade sem perder a tradição


15/08/2021 04:00 - atualizado 16/08/2021 10:20

(foto: alexandre guzansche/divulgação)
(foto: alexandre guzansche/divulgação)


Rogério Faria Tavares se tornou um dos imortais mineiros quando, em 2016, foi eleito para ocupar a cadeira de número 8 da Academia Mineira de Letras. Ativo e participativo, assim que entrou assumiu a reitoria da Universidade Livre e apenas 4 anos depois foi eleito presidente da instituição, sendo o primeiro a ser reeleito para um segundo mandato. Um dos acadêmicos e presidente mais jovens que a AML já teve, tem se destacado por conseguir manter a instituição ativa e dinâmica durante a pandemia e contextualizá-la nos tempos atuais, com eleição de duas mulheres em um ano, e marcando forte presença nas redes sociais, com Instagram, Facebook, canal de cursos, e programação semanal no canal do YouTube com quase três mil inscritos, além de uma série de podcasts de leitura poética.
 
Fez direito e jornalismo?
Comecei fazendo direito, provavelmente por influência do meu pai que era advogado e político, porém, quando estava no quinto período decidi fazer jornalismo, também. Concluí os dois. Fiz mestrado em direito, em Madri, e doutorado em literatura. O denominador comum é a área de humanas. Como sou muito curioso, precisava de uma “autorização legal” para perguntar o que quisesse para as pessoas, e isso consegui com o jornalismo, que imprimiu uma marca muito forte na minha formação, principalmente na hora de mapear os territórios, descobrir fontes. Tenho paixão por entrevistas.

Sempre teve essa sede pelo saber?
Sou filho de professora e sobrinho de outras dez professoras. Minha mãe foi professora de português, latim e grego. Minha família é de Dom Silvério, mas nasci aqui em Belo Horizonte. Cresci no mundo do estudo, do aprendizado e das relações.

Sempre foi estudioso?
Não, eu era mais participativo, gosta de me envolver com as coisas, de fazer eventos. Na quarta série do primário tinha uma biblioteca pequena na sala de aula, um cantinho da leitura, e teve eleição para presidente da biblioteca e eu me candidatei. Ganhei e levei a função muito a sério, administrava como se fosse um grande centro cultural. Cobrava multa por atrasos nas devoluções e com o dinheiro ia na livraria Ediouro que tinha na Av. Carandaí com Av. Afonso Pena e comprava mais livros para investir no acervo. Participei do grêmio do Colégio Loyola. Sempre tive prazer e alegria nessas coisas. É uma paixão pelo fazer, só vai mudando as instituições, prazer em tirar as coisas do mundo da fantasia e colocar no mundo real. É uma paixão, às vezes um pouco desmedida, mas já me conformei. Tive a sorte de me casar com a mulher da minha vida, Sabrina – terapeuta de bodytalk –, e tenho dois filhos lindos, o Carlos de 9 anos e a Gabriela, de 4, que só conversa contando histórias. Minha família é o meu oásis.

Como é o processo de eleição de um acadêmico?
Depois que um acadêmico morre, guardamos um luto de 30 dias. Após esse período a presidência lança um edital na imprensa, no site e nas redes sociais abrindo a vaga por 30 dias e os interessados se inscrevem. Temos algumas normas: o candidato ou candidata tem que ser mineiro, ou não mineiros que residam em Minas há mais de quatro anos, e ter publicado pelo menos um livro. Não precisa ser prosa ficcional ou poesia, pode ser de ciência. O inscrito envia seu currículo, e a relação dos livros publicados. Após os 30 dias, a presidência dispara cédulas para casa de todos os acadêmicos com a relação dos inscritos e eles votam. A apuração é em uma reunião aqui na Academia. Ganha quem recebe a maioria dos votos, 50% mais 1.

E se uma pessoa que não é conhecida de nenhum dos acadêmicos se inscrever?
É pouco provável que uma pessoa que não tenha nenhum tipo de laço com a Academia ou com nenhum acadêmico se inscreva. Porque a Academia também é um espaço de sociabilidade. O que tenho visto, desde que cheguei aqui, é que as escolhas são muito lógicas, naturais e me guio muito por uma frase da Nélida Piñon “primeiro a gente entra para a Academia, depois a gente é eleito”. Primeiro fazemos laços, construímos relações, participamos, ou então temos uma vida dedicada às letras. O jornalista J.D. Vital, eleito recentemente, se relaciona com a Academia há mais de 30 anos. É uma consequência. Assim que eu fui eleito entrei para a reitoria da Universidade Livre da AML.

Como foi sua candidatura para presidência, quem compõe a chapa e de quanto tempo é o mandato?
O mandato era de três anos, mas em 2019 foi feita uma alteração no estatuto e ele passou para dois anos com direito a reeleição. Eu fui o primeiro a ser eleito nesse novo formato, em 2019, e acabei de ser reeleito. Saio em 2023. Quem me ligou me estimulando a concorrer foi um grande amigo, também acadêmico, o Ronaldo Costa Couto, que reside em Brasília. Disse que eu deveria oferecer meu nome para reflexão do grupo, eu ofereci o nome para essa reflexão, foi bem acolhido e montamos a chapa que foi bem acolhida. Não teve nenhuma candidatura oponente. Para a reeleição tivemos apenas uma mudança, o Olavo Romano pediu para sair porque mudou para o interior. Ao meu lado, na diretoria estão Caio Boschi, como vice-presidente; Jacyntho Brandão, secretário; Luís Giffoni, tesoureiro; Antenor Pimenta, Patrus Ananias, Márcio Sampaio no conselho fiscal.

Como se sentiu entrando para a Academia e depois ocupando a presidência?
A Academia é um museu casa, faz parte da história de Belo Horizonte. A Academia é um acervo bibliográfico e de documentação, temos mais de 10 coleções, mais de 32 mil publicações. Há três anos começamos um trabalho de catalogação e organização do acervo, é a primeira inventariação feita, e está sob a batuta de Inês Rabelo, gestora de projetos e da bibliotecária Soraia Carvalho. A Academia é um centro cultural, com programação constante, mas também é um espaço de convivência, de relações e sociabilidade. Fazer parte da Academia foi um presente na minha vida, ganhar bons amigos, boas relações. O que nos reúne e nos aproxima aqui é o livro, a poesia, a cultura, a educação, ou seja, as coisas boas da vida, aqui é o oásis. É um lugar de promover a literatura, a língua portuguesa e cultivar a memória. A presidência foi uma honra imensa, a AML é uma das instituições culturais mais antigas do Estado e do Brasil e a nossa é das mais importantes do país, e não somos nós que falamos isso, são os de fora. Procuro fazer o máximo para retribuir a confiança que meus pares depositaram em mim. A exemplo das Olimpíadas que acabaram recentemente, o meu dever é manter a tocha acesa para passar o bastão para quem vier depois.

O que implantou de novo na sua gestão?
Primeiro preciso dizer que encontrei muita abertura e interesse no grupo, para minhas propostas. Não tive nenhuma resistência, ao contrário, houve incentivo e participação. Queria abrir mais as portas da Academia Mineira de Letras para a cidade. Temos uma tradição que é importantíssima, ela nos ancora, nos dá identidade, nos faz entender quem somos, de onde viemos, como fomos criados, de que matéria somos feitos. Nos ajuda compreender o caminho que trilhamos para chegar até aqui, e a planejar o presente e projetar o futuro. Honrar a tradição é um exercício de gratidão. Aqui, precisamos fazer isso sempre e colocar essa tradição em diálogo com o mundo atual. Essa instituição, que se alimenta dessa tradição, precisa estar atenta, curiosa e sensível ao que passa ao seu redor. Estamos no século das tecnologias digitais, das relações em rede, precisamos compreender esse mundo e como o fenômeno das letras ocorre hoje. Isso é acolher a realidade como ela se manifesta. Dialogar com esse mundo e convidá-lo a participar de nossa programação cultural. Comecei intensificando a programação cultural, infelizmente chegou a COVID-19, e tivemos que fechar as portas por causa da pandemia. Mas mantivemos tudo funcionando e com maior frequência ainda, na versão digital. Temos um Instagram forte, um Facebook ativo. Já tínhamos as palestras presenciais, que ocorriam no máximo duas vezes por mês, com a pandemia, e a impossibilidade dos encontros presenciais, passamos as palestras para formato gravado e exibição no nosso canal do Youtube, conseguimos colocar uma palestra por semana, desde o início da quarentena e não faltamos uma semana. É impressionante, já estamos com quase 3 mil inscritos no canal, para ouvir palestra sobre literatura e poesia. As pessoas amam poesia. Trouxemos uma plataforma digital chamada AML Cursos, oferecendo alguns cursos pagos e outros gratuitos. Precisamos de fonte de renda. Ano passado o acadêmico Jacyntho Lins Brandão ofereceu um curso Mitologia comparada, que esgotou e deu fila de espera. Agora estamos oferecendo um curso gratuito para professores da rede pública. Outra novidade é a reforma da Revista, em outro formato. Mantivemos a versão imprensa com tiragem limitada e colocamos no nosso site a versão digital, e já digitalizamos todos os volumes anteriores. Agora ela pode ser acessada em qualquer lugar do mundo. Criamos na revista dossiês temáticos. A próxima sairá com um dossiê sobre mulheres, são mais de 30 textos sobre as escritoras mineiras, e já está pronto o dossiê da outra edição que será sobre literatura africana de língua portuguesa. Para exemplificar o apoio que tenho recebido, liguei para o acadêmico Carlos Bracher dizendo que gostaria muito que ele fizesse a capa para a próxima revista (a que saiu em dezembro de 2020). Ele aceitou prontamente. Achei que mandaria um desenho pelo computador, mas me surpreendi quando mandou um óleo sobre tela com o palacete e o auditório ao lado, e um lindo texto atrás, sobre cultura. Criamos um programa de entrevista sobre antigos acadêmicos, que irá ao ar em setembro no YouTube, é o sentido do que todo mundo chama de imortalidade, o que é isso, reativar a memória, a presença daqueles que se foram, entre nós.
 
Gosta muito de entrevistas?
Muito, é maravilhoso descobrir os quem tem dentro das pessoas. Estamos fazendo uma série de entrevistas sobre o bicentenário da Independência do Brasil, este ano entrevistamos nove pessoas e entrevistaremos mais 11, ano que vem. Será nossa contribuição para essa data tão marcante. Outra novidade, lançamos recentemente, em parceria com o Tribunal de Justiça, um podcast chamado “Vozes poéticas de Minas”, uma série que têm agradado muito. São oito podcasts de leitura poética, com quatro homens e quatro mulheres.

O que dá mais audiência?
A leitura dos poemas de Natal foi um sucesso. As pessoas amam poesia e são os programas que dão maiores visualizações.

Conte um pouco da história da Academia, já que falamos de tradição
A Academia Mineira de Letras foi fundada em 1909, em Juiz de Fora por um grupo de intelectuais da época, eram 12 e depois a eles se uniram outros 18 e finalmente completou o grupo de 40. Não tínhamos sede própria, isso só veio a acontecer quando Eli Menegale, pai da querida Berenice Menegale, assumiu a presidência. Foi ele quem conseguiu a primeira sede para a Academia, no centro da cidade. Antes, tudo da academia ficava em um baú, que nos acompanhava onde tinha reunião, foi assim até 1947. O baú com os documentos estão aqui, em exposição. O Vivaldi Moreira conseguiu esta nova sede, o casarão Borges da Costa, e o arquiteto Gustavo Penna projetou o auditório anexo. Agora, a bisneta de Eduardo Borges da Costa informou que doará a mobília completa que era do quarto do casal. Aqui é um museu casa, o casarão é majestoso, é um ponto turístico, deve ser visitado. Guardamos verdadeiras relíquias e queremos preservar nossa história para que a pessoas tenham a oportunidade de conhecer o passado, a tradição. Na casa tinha o consultório médico e no andar de baixo, era o ambulatório onde o dr. Eduardo tratava seus pacientes. Hoje, praticamente todos os ambientes se transformaram em bibliotecas que abrigam coleções que os acadêmicos doaram. Cerca de 90% do mobiliário existente era da casa. Onde ficava o consultório é a sala da Presidência, na antessala fica o acervo dos livros dos acadêmicos, organizados por cadeira, desde o seu primeiro ocupante.

Em um ano foram eleitas duas mulheres. É um marco de modernidade
Em 1967 foi eleita a primeira mulher para a Academia Mineira de Letras, Henriqueta Lisboa, antes mesmo de ter uma mulher na Academia Brasileira de Letras, que foi Rachel de Queiroz. Embora fosse uma mulher muito suave e reservada, era muito valente, forte. Depois veio a grande Maria José de Queiroz, eleita em 1968. Na sequência vieram Lacyr Schettino, Alaíde Lisboa, Ieda Prates Bernis, Elizabeth Renó, Carmem Schnider Guimarães, que faleceu recentemente. Eram sete em um estado que tem escritoras maravilhosas. Em 110 anos tivemos sete, de 57 anos para cá. Como estamos mais atentos ao que ocorre na contemporaneidade, foi natural que na nossa gestão fossem eleitas duas mulheres, uma após a outra. A grande poeta e ensaísta professora Maria Esther Maciel, e depois de dela Maria Antonieta Cunha que é esse monumento, fundou a editora Miguilim, foi presidente da Câmara Mineira do Livro, uma mulher que entregou a vida dela para o livro.

Tem algum projeto que ainda quer implantar?
Estamos fazendo um projeto, que está em curso e dá muito trabalho, que é a edição de um dicionário biográfico de todos os acadêmicos, com mais de duzentos verbetes sobre todos os fundadores, patronos e ocupantes de todas as cadeiras. Dicionário de pequenas biografias, cerca de três laudas cada biografia. Pretendo lançar antes de terminar meu segundo mandato. A obra será impressa, mas irá para a internet e será uma obra aberta, porque não acabará nunca. Será uma obra de consulta e referência. Fiz também um dossiê sobre teatro em Minas, tem mais de 30 textos. Está pronto para publicação, e vamos lançar. 


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