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Estado de Minas

Zuzu Angel, força feminina

Ontem, foi o centenário de nascimento da estilista mineira conhecida internacionalmente por usar a moda como bandeira de protesto


06/06/2021 04:00

 Zuzu Angel(foto: Fotos arquivo Estado de Minas, reprodução de jornais e revistas)
Zuzu Angel (foto: Fotos arquivo Estado de Minas, reprodução de jornais e revistas)

Há 100 anos, em 5 de junho, nascia em Curvelo, Minas Gerais, Zuleika de Souza Neto. Ninguém poderia imaginar as dores que passaria, e a morte trágica que teria. Zuleika virou Zuzu Angel, ficou famosa no mundo todo. Ontem, para comemorar seu centenário, foi aberta uma exposição na sua cidade natal. O jornal Estado de Minas publicou matéria divulgando todas as ações planejadas para as merecidas comemorações do centenário desta mineira de fibra. (A matéria pode ser acessada no uai.com.br ou em.com.br.)
 
Tem um ditado que diz “quem meu filho beija, minha boca adoça”. Por outro lado, se quiserem ver uma mulher se transformar em uma leoa brava é só fazer mal a uma de suas crias. Zuleika Angel Jones, ou simplesmente Zuzu Angel, foi o exemplo vivo deste amor incondicional de mãe. Mulher destemida, usou de todas as armas que tinha para clamar por justiça na busca pelo corpo de seu filho Stuart Angel Jones, desaparecido em maio de 1971, assassinado pelo regime da ditadura. Acabou vítima deste mesmo governo, morta em um acidente de carro, em 14 de abril de 1976.

Com certeza, muita gente ainda se lembra dessa mulher, principalmente porque, em 2006, sua história foi relembrada em um belo filme no qual a atriz Patrícia Pillar e o ator Daniel Oliveira fazem o papel de Zuzu e Stuart, ambos com interpretações magistrais. Muitos podem conhece-la pelo lindo anjo que virou marca registrada da confecção que criou, com seu nome. E para os mais novos, que não viveram na ditadura e nunca ouviram falar desta mulher inesquecível, conheçam Zuzu Angel.

Mãe de três filhos – Stuart, Ana Cristina e Hildegard, a caçula, que é conhecida jornalista –, a mineira foi casada com o canadense naturalizado americano Norman Angel Jones, de quem se separou mais tarde. Era estilista, mas gostava de ser chamada de costureira. Inteligentíssima, usou do seu ofício para denunciar ao mundo as atrocidades que eram cometidas no Brasil pela repressão política da ditadura. Sua moda ficou conhecida internacionalmente, bem como as mazelas do governo.

Foi ela quem fez o primeiro desfile de protesto do mundo. Mostrou para todos que a moda podia muito mais do que vestir pessoas de maneira elegante e com estilo, mas que tinha força para levantar bandeiras importantes. Com um vestido simples branco amplo, cheio de bordados naif, representou toda uma situação política. Tanques de guerra, soldados, canhões, quepes militares se misturavam a árvores, flores, casinha com chaminé, tambores, passarinhos, anjos tristes, pombas negras e sol quadrado.

Esse vestido foi a principal bandeira usada por Zuzu Angel no desfile-protesto que fez em setembro de 1971, na casa do cônsul-geral do Brasil em Nova York. Outra jogada inteligente da costureira, já que na época existia um decreto que proibia brasileiros de falarem mal do Brasil no exterior. Zuzu, espertamente, levou seu desfile para a casa do cônsul-geral, que era considerada território brasileiro. Dessa forma, não pôde ser acusada pelos militares de fazer uma denúncia contra o Brasil em país estrangeiro.

No fim do desfile, Zuzu entrou na passarela usando um vestido longo preto, um cinto com 100 crucifixos pendurados e um colar com uma enorme imagem de anjo. Ao seu lado, duas modelos sorridentes e vestidas de branco a acompanhavam. Ao fundo, sua filha Ana Cristina cantava “Tristeza”, de Miltinho. No link do YouTube https://www.youtube.com/watchv?=tSaus8c183s é possível ver parte do desfile. Seu protesto com a moda foi parar em jornais e revistas de todo o mundo.

Estilista de personalidade

Zuzu Angel na entrada final do desfile-protesto em Nova York
Zuzu Angel na entrada final do desfile-protesto em Nova York

Desde os anos 1960, época em que a moda internacional ditava o estilo e as brasileiras obedeciam, Zuzu acreditava nos valores das referências culturais de nosso país. Valorizava rendas do Ceará, chita, estampas tropicais. Depois de se mudar para o Rio de Janeiro, já separada do marido, passou a usar a criatividade e a habilidade para costurar para sustentar a família.

Fez vestidos inspirados em Carmem Miranda, Maria Bonita e Lampião, estampas de anjinhos sobrevoando nuvens, xadrezes com padrões de cores e formas, pássaros e florais com releituras naif. Nessa época, os estilistas famosos eram Dener, José Ronaldo, Guilherme Guimarães e Clodovil, e muitos deles a chamavam de cafona.

Mas atrizes brasileiras e estrangeiras vestiam Zuzu Angel, entre elas Dina Sfat, Bibi Ferreira, Marieta Severo, Kim Novak, Liza Minelli e Joan Crawford. Esta última a fez conhecida em Nova York, onde a brasileira passou a vender suas coleções nos anos 1970. Primeiro, na Bergdorf Goodman. Depois vieram Saks, Lord & Taylor, Henry Bendell e Neiman Marcus.

Como símbolo de sua marca, Zuzu criou o anjo, em referência ao seu sobrenome Angel, e, depois, se tornou também a representação do filho assassinado em suas criações. O anjo virou ícone, marca registrada, tanto na versão branca quanto na preta, representando o luto e a dor da perda.

Em 1967, lançou no Copacabana Palace uma coleção chamada moda e liberdade, e chegaram a chamá-la de louca por falar em moda e liberdade, e de cafona, por usar rendas de bilro, uma vez que os estilistas brasileiros se envergonham das suas origens e por isso copiavam Paris. Porém, Zuzu sempre se orgulhou do Brasil. Chegou a bordar vestidos com pedras semipreciosas de Curvelo.

A mineira sempre teve língua afiada. Em 1975, em uma entrevista ao New York Times, declarou: “Acham que moda é futilidade. Eu tento dizer que moda é comunicação, além de garantir emprego para muita gente”. Em entrevista dada à revista A Cigarra, em novembro de 1972, fez questão de mostrar um croqui de uma roupa que criou em 1970, comercializada na Bergdorf Goodman, em Nova York, e em seguida mostrar a foto de uma roupa da coleção de Valentino, de 1972, publicada pela revista Vogue, idêntica à dela. Não teve dúvida, disse com a maior segurança: “Todos os costureiros brasileiros copiam Paris e Roma, não concordo que falem mal de Paris e Roma porque é cuspir no prato que comem, mas eu posso falar mal, porque lá me copiam”. E arrematou: “ele copiou até a sombrinha”.

Outro modelo que Zuzu afirmou ter sido copiado foi o de renda de bilros que fez em 1970. Segundo ela, de novo Valentino o copiou, dessa vez com renda de Veneza. Zuzu afirmou que ele se preparou dois anos para conseguir industrializar a renda. Nem Yves Saint Laurent, outro monstro sagrado da moda, escapou da sedução do estilo único da mineira. Em 1970, Zuzu lançou a barriga de fora e em 1972 a Maison lançou um modelo igualzinho ao dela chamando de Midrif.

Para João Braga, professor de história da moda e história da arte na FAAP e na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, Zuzu foi uma visionária por valorizar as referências nacionais, além de pioneira ao usar a moda como uma bandeira política, como um veículo de comunicação. “No Brasil, com certeza, nunca ninguém havia feito isso. Dentro de um conceito contemporâneo de moda no cenário internacional, desconheço alguém que tenha tornado, antes de Zuzu Angel, a passarela como um lugar de protesto. Já haviam ocorrido manifestações de rua através da maneira de vestir, como as francesas, que usavam as cores da bandeira da França na época do nazismo. Mas antes de Zuzu não sei de ninguém que tenha protestado por meio de um desfile”, diz João.

Em 2001, o estilista mineiro Ronaldo Fraga desfilou no São Paulo Fashion Week a coleção “Quem matou Zuzu Angel”, uma releitura do estilo da costureira. Peças com muitas aplicações e bordados. O sol quadrado estava lá, assim como fitas de cetim e gorgorão. As modelos usavam sobre a cabeça uma auréola de estrelas. Segundo Ronaldo, “o grande legado de Zuzu é pensar através da moda. Talvez nem ela mesma tenha tido a consciência de que estava fazendo algo tão intelectualizado. Foi a primeira moda com uma voz brasileira. Está acima do feio e do bonito. Era uma roupa fresca, primorosa, onde o feito a mão tinha uma presença muito forte”.

Além de Fraga, Tufi Duek e Isabela Capeto já homenagearam a estilista mineira em suas coleções. No ano em que o golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil completou 50 anos, a moda de Zuzu voltou à cena. O Instituto Zuzu Angel, criado por sua filha Hidelgard Angel, em 1993, negociou o retorno da marca. Fizeram uma exposição, batizada de “Ocupação Zuzu”, instalada em quatro andares do Itaú Cultural, em São Paulo. Na mostra, 400 itens, entre roupas, croquis, documentos, cartas e pelo menos 40 looks criados por ela, sendo quatro vestidos de noiva, trajes que usava em seu luto pela morte do filho, e exemplares do desfile feito na casa do cônsul, em Nova York. Além de camisetas, bolsas, óculos, fivelas etc, com o anjinho, que virou referência da marca. Na exposição estava também a carta de Zuzu entregou a Henry Kissinger. Segundo sua filha Hidelgard Angel, sua mãe fez uma moda libertária e panfletária, mas sempre feminina.

Zuzu mulher

Zuzu Angel com a filha Ana Cristina e a modelo americana Kate Lindsay, filha do prefeito de Nova York
Zuzu Angel com a filha Ana Cristina e a modelo americana Kate Lindsay, filha do prefeito de Nova York
A família de Zuzu se mudou de Curvelo para Belo Horizonte quando ela ainda era criança. Nuca foi santinha, e chegou a ser expulsa do Colégio Sagrado Coração de Jesus por mau comportamento. Foi campeã de natação. Conheceu seu futuro marido, Norman Angel Jones, aos 18 anos, na casa de parentes. Ele comprava cristais e pedras mineiras para a embaixada dos Estados Unidos. Segundo contam, na hora em que viu o americano, disse para suas primas e tias que se casaria com ele, e se casou. Teve o primeiro filho, Stuart, depois Ana Cristina, que mora na França, e por último Hidelgard, jornalista, que mora no Rio de Janeiro, e é a caçula.

Apesar de ter morado no exterior, e no Rio de Janeiro, Zuzu manteve intacto o amor por Minas. Em uma de suas entrevistas, em dezembro de 1971, disse “preciso sempre reabastecer minhas baterias de mineirismo; quando sinto que vai acabando tenho que voltar”.

“Minha mãe tinha grande orgulho de ser mineira, foi muito amiga do jornalista José Maurício Vidal Gomes e se sentava na mesma carteira com Wilson Frade, no colégio, ambos jornalistas do Estado de Minas. Toda a singeleza de Minas está presente na moda feita pela minha mãe. Usava pedras de fundo do rio, que colocava nos bordados das roupas. Ela e sua roupa tinham toda a leveza de Minas Gerais. Nós sempre passávamos férias em Belo Horizonte e ficávamos em um hotel na Avenida Afonso Pena. Eu era criança e achava interessante que todos os homens passavam de chapéu. Também íamos visitar a prima-irmã de mamãe, no sítio, Lélia Caldeira Brant, e nossa tia Ordália”, lembra com carinho Hildergard Angel.

“Minha mãe foi uma Tiradentes de saias, e Minas deve se orgulhar dela, pois foi a única naqueles tempos de medo congelante a levantar o queixo e apontar o dedo. Intimidava os poderosos”, completa Hildegard.

Stuart: o filho desaparecido

Stuart Edgar era estudante de economia e caiu na clandestinidade quando integrou o Movimento Revolucionário de 8 de outubro, o MR 8, que foi um turbulento divisor de águas na vida de sua mãe, Zuzu. Já separada do marido, começou sua busca incessante pelo filho com uma coragem implacável. Nunca conseguiu encontrar seu corpo.

Em novembro de 1986, 10 anos depois da morte de Zuzu, o jornalista José Maurício Vidal Gomes, seu amigo de longa data, publicou no Estado de Minas a reportagem “O urro de uma leoa em busca do filho”, onde descreveu quantas vezes ouviu a amiga gritando “tudo que quero é meu filho. Já que ele está morto, quero seu corpo, quero enterrar com minhas mãos o filho que saiu de minhas entranhas”, e questionava se isso era pedir muito para uma mãe.

Um colega de cela de Stuart contou que na manhã de 14 de maio de 1971, depois de dois dias de tortura, ele foi colocado no porta-malas de um carro e levado para a base aérea do Galeão, no Rio, para informações. De noite, uma testemunha viu de uma janela o jovem todo esfolado, com a boca quase colada a um cano de descarga aberto, sendo arrastado de um lado para o outro no pátio, amarrado ao parachoque do carro.

Segundo Hidelgard, o corpo teria sido jogado no mar. Em agosto de 2013, dois militares perseguidos pela ditadura confirmaram, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, a cena de horror e as toxinas do cano de escapamento.

“Minha mãe nunca se conformou com a morte de Stuart, e fez de sua perda uma bandeira, não baixou a guarda, a cabeça. Foi impávida e altiva até o final, lutou na pior época do governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, período chamado de anos de chumbo. Meu irmão nunca entregou ninguém, era um rapaz que lutava por uma ideologia. Minha mãe sabia de tudo, claro, e sempre foi solidária ao seu filho.”

Na obsessão de encontrar Stuart, Zuzu costurou para Iolanda Costa e Silva, viúva do ex-presidente Arthur da Costa e Silva, mas a proximidade não surtiu o efeito desejado. Passou escondendo as denúncias sobre o assassino do filho e entregou tudo às atrizes Kim Novak, Joan Crawford e Liza Minelli para que encaminhassem ao senador Eduard Kennedy. Em 1976, furou o bloqueio da segurança do secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, em visita ao Brasil, e entregou-lhe uma carta com nova documentação sobre o desaparecimento do filho, que também era cidadão americano.

A filha caçula diz que nesta luta e sofrimento sua mãe envelheceu 20 anos em dois e só conseguia encontrar alegria na criação. A peregrinação continuou acelerada durante anos, até que em 14 de abril de 1976, em um acidente no Rio de Janeiro, o Karmann Ghia azul que dirigia derrapou na saída do túnel – que depois foi batizado com seu nome – bateu na mureta de proteção e caiu em uma ribanceira. Uma semana antes, com medo que lhe acontecesse algo, deixou com o compositor Chico Buarque e outros amigos cartas explicando que a responsabilidade deveria recair sobre as mesmas pessoas que mataram seu filho.

Sua luta inspirou os cantores e compositores Chico Buarque de Holanda e Miltinho, do MPB 4, a escrever a canção “Angélica”, uma homenagem à mulher que provocou mal-estar ao regime de exceção. “Quem é essa mulher, que canta sempre esse estribilho, só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar. Quem é essa mulher, que canta sempre esse lamento, só queria lembrar o tormento, que fez o meu filho suspirar. Quem é essa mulher, que canta sempre o mesmo arranjo, só queria agasalhar meu anjo, e deixar seu corpo descansar. Quem é essa mulher, que canta como dobra um sino, queria cantar por meu menino, que ele já não pode mais cantar.”

Morte trágica e reconhecimento

Com os filhos Hidelgard, Ana Cristina e Stuart
Com os filhos Hidelgard, Ana Cristina e Stuart
Levou 22 anos para o governo reconhecer que a morte de Zuzu Angel foi crime político. Em 25 de março de 1998, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça reconheceu, por quatro votos a três, que a estilista Zuleika Angel Jones havia sido “vítima de atentado político”. Durante 22 anos prevaleceu a versão oficial, confirmada pela comissão, em setembro de 1997, de que ela havia morrido em um acidente de carro, porque dormiu ao volante. Na época, ficou estabelecido que a família de Zuzu receberia uma indenização no valor de R$ 100 mil, segundo estimativa do presidente da comissão.

A decisão da comissão foi revista durante análise de um novo pedido de indenização, apresentado pela família de Zuzu. A maioria da comissão convenceu-se de que ela estava acordada na hora do acidente e caiu no viaduto depois de ser fechada por um carro. A versão oficial defendida pelo relator era de que o carro havia batido no meio-fio do lado esquerdo da pista, mudado sua trajetória e percorrido 28 metros até bater no meio-fio do lado direito; aí, teria mudado novamente de trajeto, andado mais nove metros até bater na mureta do viaduto e cair de seis metros de altura.

A comissão mudou o parecer depois de receber laudo de peritos com base em provas surgidas com o depoimento de um advogado, testemunha do acidente. Os peritos informaram que Zuzu freou o carro e, portanto, estava acordada antes de cair do viaduto e capotar várias vezes. A conclusão veio por causa de uma lesão encontrada no perônio direito da estilista, que seria típica de compressão transmitida pelo pedal do freio no momento do impacto.

O advogado que foi testemunha viu o acidente da janela de seu apartamento. Ele viu quando um carro fechou o Karmann Ghia de Zuzu, trombando nele e fazendo com que ela caísse. Ele e seus amigos desceram correndo para o local do acidente, chegando em menos de cinco minutos, mas quando chegaram já tinha todo um aparato policial impedindo que se aproximassem. Era assim que agia a ditadura.

TESTEMUNHHA FAMOSA 

Uma segunda testemunha também foi muito importante no processo. Trata-se de uma pessoa muito conhecida no país, já idosa na época, com problemas de saúde, mas credibilidade inabalável, era a esperança do então deputado federal pelo PT de Minas Nilmário Miranda, que fazia parte da Comissão. Essa pessoa, que ficou anônima para a imprensa, estava de carro, atrás do carro de Zuzu, quando viu um carro bater no karmann Ghia da estilista, na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado. O caso estava praticamente enterrado na comissão, até ser apresentado o nome da testemunha-chave. Por ser uma pessoa muito famosa e na época, fazer parte do poder, apesar de não ser militar, foi levada em consideração.

CERTIDÕES CORRIGIDAS 

Depois de anos lutando para que a certidão de óbito de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, e de seu irmão, Stuart Angel, fossem retificadas, Hildegard recebeu, em 2019, os papéis com as informações corretas. Quase 50 anos depois da morte dos dois, em crime de autoria da ditadura na década de 1970, a jornalista agora tem o reconhecimento do país de que seus familiares tiveram “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro”.

“Agora recebemos os dois documentos. É mais uma página, uma conquista importante, nessa longa e triste história. Doravante, com esses documentos, poderemos contestar informações inverídicas que volta e meia são divulgadas na imprensa, e agora até em livro supostamente ‘de história’”, declarou a jornalista, na época, à imprensa.

As certidões de óbito já existiam, porém com informações falsas, em uma clara tentativa do Estado de apagar os danos reais da ditadura. “Stuart morreu em 1971. Mas, para o Estado, era um desaparecido”, contou. A Comissão de Mortos e Desaparecidos reconheceu oficialmente a morte de Stuart em 1998, mas manteve a informação de que Stuart desapareceu no regime. A certidão de óbito de Zuzu dizia que ela havia morrido vítima de “acidente automobilístico”, mas o correto é morte provocada pelo Estado.

Elke, modelo e amiga

A atriz e apresentadora Elke Maravilha começou sua carreira como modelo, e era a preferida de Zuzu, de quem se tornou grande amiga, não apenas dela, mas de toda a família. Em todas as entrevistas que deu sobre a estilista, sempre disse que “Zuzu era sujeito homem, e apesar de toda sua dor, nunca se fez de coitadinha. Sempre soube seu lugar e seu valor”.

Conheceram-se no salão do João Berti, muito frequentado por personalidades da época. Segundo Elke, “Zuzu era uma mulher muito forte e que carregava uma dor muito grande, mas nunca se fazia de coitada. Lembro-me dela sempre de cabelo arrumado e unhas feitas, dizia que não tinha medo de morrer porque já estava morta.”

Em entrevista que deu, ao lado da amiga Hildergard Angel, em 2014, para a exposição feita no Itaú Cultural pelos 50 anos do golpe de 1964, a ex-modelo conta que foi presa no Aeroporto Santos Dumont porque ela e Hilde ficaram indignadas com os cartazes de “Procura-se, desaparecido” com a imagem de Stuart, que o governo havia espalhado, sendo que todos sabiam que ele havia sido morto. Hildegard não poderia falar nada, mas Elke não aguentou. “Sou russa, e baixou a russa em mim. Rasguei os cartazes e me prenderam. Por causa disso perdi a nacionalidade brasileira e fui considerada apátrida por anos, até requisitar minha cidadania alemã. Nunca me arrependi do que fiz, foi um ato de solidariedade a Zuzu.

A entrevista completa pode ser vista no canal YouTube, no link  (https://www.youtube.com/watchv?=obIavJws0M0).

Mensagem de vida

Texto de Ana Marina publicado no Estado de Minas, em 2014, no cinquentenário do golpe de 1964

Conheci Zuzu Angel no início dos anos 1960. Ela se hospedava na casa de uma parente que morava perto de mim, no Bairro Santo Antônio.  Estava chegando de Curvelo, onde nasceu, e seu trabalho como estilista logo chamou a minha atenção. A moda brasileira ainda engatinhava por aqui, mas ela estava muito além do copismo, da conformação a modelos importados. Já defendia a cultura brasileira das roupas em algodão estampado, florais que lembravam nossas chitas, rendas feitas a mão e modelagem muito pessoal, sem muitos truques de cortes e recortes. Zuzu batalhava para colocar no mercado – e na cabeça das brasileiras – um estilo que tinha muito mais a ver com nosso país tropical do que o das rendas e musselinas usadas na época. Naquele tempo, já fazia da moda uma mensagem de vida.

Sua originalidade fez sucesso principalmente nos Estados Unidos, quando produziu vários desfiles e teve coleções vendidas em algumas das principais lojas de Nova York. Era, para os padrões da época, uma estilista vencedora, que, estimulada, chegou até a abrir uma butique em Ipanema, a ilha da modernidade do país. Só que, antes disso – anos 1970 –, ela já mostrava uma outra faceta de seu caráter pioneiro, destemido, defensor de suas crenças. Quando a ditadura se instalou no país, seu filho Stuart foi um dos presos, torturado e morto no Galeão, e a família nunca teve acesso ao seu corpo.

Zuzu mostrou sua força através da moda que fazia. Foi desfilar nos Estados Unidos sua revolta contra a ditadura, criando estampas com anjos de luto (o anjo era uma das marcas de suas criações, apoiada em seu nome). Pegou o consulado de Nova York de surpresa e colocou na passarela uma coleção de protesto. Nas roupas, as estampas de sua dor de mãe: anjos engaiolados, grandes manchas vermelhas, motivos bélicos, mensagens políticas que foram amplamente divulgadas pela imprensa internacional.

Voltando ao Brasil, ela não se calou, continuou a lutar contra o desaparecimento do corpo de seu filho Stuart. Incomodou tanto que, em abril de 1976, o carro em que ia para casa  foi empurrado da estrada do Joá abaixo. Zuzu morreu, mas deixou uma imagem tão forte na sua luta contra a ditadura como deixou com sua moda, orgulhosamente apoiada em suas raízes brasileiras.


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