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Estado de Minas Criação

Joia mineira

Coleções temáticas revelam criações artesanais repletas de personalidade


08/08/2021 04:00

Heliana Lages(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Heliana Lages (foto: Silverio Vitor /divulgação)


A prata é o material preferido e com ela Cátia Magalhães compõe joias que nascem do seu olhar sobre amplos universos. Pode ser a natureza – um galho, uma flor, uma pétala – ou o trabalho de um artista a quem admira. Tudo instiga e é motivo para que ela entre em ação em busca das formas imaginadas. Graduada em história, a joalheira confessa que o que cria é artesanato puro. “Não sei nem desenhar, mas faço fios, faço chapas, às vezes eu mesma moldo, e vou criando as peças”, explica.
 
Heliana Lages(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Heliana Lages (foto: Silverio Vitor /divulgação)
 
 
Antes de chegar a esse ponto, porém, Cátia se dedicou a outras atividades, atuou na produção de vídeos e de moda, fez parte de projeto cultural que rodou o Brasil inteiro, oportunidade inspiradora para que descobrisse as lindezas do país. Mas desde os anos 1990 descobriu que gostava de joias e foi estudar um pouco mais sobre elas e suas diversas técnicas nos cursos livres da Escola Mineira de Joalheria.
 
Heliana Lages(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Heliana Lages (foto: Silverio Vitor /divulgação)
 
 
“Comecei devagarzinho atendendo pedidos de conhecidos e de amigos. Meu primeiro ponto de venda foi nas lojas da Auá, da Patrícia e do Paulo, que me abriram as portas para o mercado. Fui me desligando das minhas funções anteriores e, desde 2013, vivo exclusivamente da joalheria”, explica.
A prata veio de uma atração particular. Além de gostar da matéria-prima, do seu brilho, ela considera ainda a facilidade de lidar com o metal. “Gosto do ouro também, mas como trabalho com peças grandes, a comercialização nesse material fica mais difícil. Além do mais, a prata tem sido reavaliada e revalorizada e é tão preciosa quanto o ouro”, pondera.
 
Cátia Magalhães(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Cátia Magalhães (foto: Silverio Vitor /divulgação)
 
 
Por outro lado, se a ourivesaria exige um processo mais ortodoxo em termos de técnicas, Cátia aprecia a liberdade de colocar a “mão na massa” e, entre tentativas e erros, chegar a uma determinada forma. Suas joias têm um apelo orgânico e o conceito da beleza do imperfeito. Daí que uma  nunca é exatamente igual a outra, o que imprime um DNA marcante para a marca que leva seu nome.
 
Cátia Magalhães(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Cátia Magalhães (foto: Silverio Vitor /divulgação)
 
 
As coleções são compostas por brincos, colares longos, gargantilhas, pulseiras, anéis, e ela nutre uma especial afeição pelos broches. “Comecei por eles e observei que, de todas as peças que expunha em São Paulo, eles eram as mais vendidos. Eu os acho muito chiques”, considera. Quanto à inspiração, a joalheira afirma que vem da observação do que está á sua volta. Um ferro antigo fechado com um cravo, por exemplo, pode ser o gatilho para a elaboração de um brinco. E por aí vai,

Porém existem referências mais específicas, artistas que admira e que mexem com sua sensibilidade.
“Gosto muito dos modernistas, como Art Smith, cujas criações já ganharam  exposição no Museu do Brooklyn, e da artista francesa Claude Lalanne, que criou aquele colar de cobra icônico. Aprecio muito também a Elsa Peretti, famosa pelas suas colaborações com a Tiffany”. Entre as influências, ela considera ainda Vivienne Westwood, que, nos anos 1980, fez coleções radicais em prata antenada com o movimento punk londrino.
 
Cátia Magalhães(foto: Silverio Vitor /divulgação)
Cátia Magalhães (foto: Silverio Vitor /divulgação)
 
 
Para Cátia, seu publico alvo é aquele que se identifica com o seu estilo. “Geralmente, faço uma coleção por ano com um tema específico e vou fazendo acréscimos. Já me inspirei nas sempre-vivas, já olhei para o Calder, para artistas do surrealismo, como Elza Schiaparelli, já fiz colar usando aquele olho surreal do Salvador Dali. Penso que joia não tem estação, tem momentos”, pontua.
Para quem quiser conhecer melhor o trabalho da joalheira, fique de olho: ela frequenta eventos como o Casa 89, a Quermesse da Mary e as peças podem ser encontradas também na loja Fata Morgana. “Ainda não tenho loja online. Uso muito o instagram com entregas via Sedex, o que tem funcionado muito bem”.

Fios tecidos Não há como não identificar as bijoux-joias da Heliana Lages: o crochê tecido em fio de metal - no cobre, na prata e até no ouro - se tornou o cartão de visitas da marca mineira, ganhou o Brasil e se expandiu para o exterior, onde as peças são apreciadas e valorizadas.
 
São quase 30 anos de mercado, várias crises enfrentadas, entre elas a atual epidemia que fez com que a empresa passasse por uma transformação radical em seu formato. A começar pelo fechamento do showroom do bairro do Prado em busca de uma estrutura mais enxuta, na rua Rio de Janeiro, com poucos funcionários, foco nas vendas pela internet, venda direta ao consumidor e exportação.
 
“Estamos resistindo bravamente - confessa Heliana, estilista e dona do negócio -, porque as feiras das quais sempre participamos em Belo Horizonte e em São Paulo foram canceladas”. O fato impactou não só as negociações no mercado interno quanto no externo, já que grande parte da produção da Heliana Lages sempre foi endereçada para o exterior. E vários contatos internacionais, geralmente, são feitos nesses eventos ou por meio de representantes em São Paulo.
 
Para completar, em março de 2019, a marca decidiu ampliar a atuação no mercado de noivas, para o qual já trabalhava, criando tiaras, arranjos para cabelos, buquês, entre outras peças, tanto para as noivas quanto para damas e quem mais se interessasse, mas os casamentos foram adiados. “Enquanto a situação não melhora, vamos tentando outros caminhos e está surgindo um projeto com um joalheiro para uma exportação para os Emirados Árabes, que dá muito valor para o nosso trabalho”, explica a estilista.
 
Para se ter ideia, há peças que gastam até 15 dias para ficarem prontas – primeiro são tecidas, depois vão para os banhos, em seguida vem a montagem e os detalhes finais. Ela reitera que a empresa tem experiência na área, tecendo o crochê no fio de ouro para outras joalherias, entre elas a Anima e a Vinicius Rocha. “O resultado é espetacular”.
 
O desenvolvimento de produtos para outras marcas também tem sido alternativa para vencer a crise pandêmica. Enquanto isto, a nova coleção Nossa Minas está pronta. Trata-se de uma homenagem aos 300 anos de Minas Gerais, com criações que exploram a fé por meio de relicários e santos, as pedras preciosas, as montanhas exuberantes, os traços da arquitetura e até a vegetação do cerrado.
 
Interessante observar que a Heliana Lages sempre teve uma grande preocupação social: sua mão de obra terceirizada inclui cadeirantes e muitas donas de casa, que ajudam no sustento das suas famílias. A história com os deficientes físicos começou na tentativa de ajudar um rapaz vindo do interior, que se acidentou, a arrumar um trabalho.
 
“Escrevi uma cartinha dizendo que precisava de um empregado e que, se ele se interessasse em fazer bijuteria, poderia ensiná-lo. Era uma montagem. Mandei as instruções e, no dia seguinte, recebi quilômetros de emendas de bolinhas. Esse rapaz é muito criativo, colabora comigo até hoje e foi muito inspirador para que eu retomasse meu trabalho depois de passar por alguns problemas pessoais” relata Heliana.
 
A partir daí, teve a ideia de montar uma equipe de paraplégicos e contou isto no programa Brasil das Gerais. No dia seguinte, recebeu vários telefonemas, inclusive o da dona Geni. “Fui até sua casa. Ela sabia fazer tricô e crochê. Perguntei se queria tentar tecer no fio de aço, que é bem fininho. Dali a pouco, ela estava me enviando correntinha, tapetinho, uma série de peças onde era possível acrescentar miçangas, cristal, pedras. E foi assim, há 25 anos, que nasceu o crochê no fio de metal da Heliana Lages, que se tornou nosso carro-chefe”, arremata a estilista.


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