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Estado de Minas entrevista/Alice Correa - 33 anos, gestora de marketing na Marcia Morais, presidente em exercício do Instituto Amem

Sangue novo na Amem

Formada em ciências sociais pela UFMG, com especialização em marketing, Alice cresceu no meio da moda. O fascínio pelo universo fashion levou-a à presidência de entidade de classe


04/10/2020 04:00

(foto: Gustavo Marx/divulgação)
(foto: Gustavo Marx/divulgação)
 

"A pandemia tirou todos da sua zona de conforto, obrigando o empreendedor a promover mudanças, melhorias e inovações em todas as dimensões do negócio"

 

“O Prado é um polo de moda vibrante, inovador e singular, que se diferencia pelo design, pelos processos minuciosos e pela variedade de oferta.” Entusiasta do associativismo, Alice Correa, uma jovem de 33 anos, é a nova presidente do Instituto Amem – Associação Mineira das Empresas de Moda, fundada há 10 anos, que hoje representa 88 marcas dos setores de pedidos, pronta entrega e acessórios. Juntas, elas constituem uma força: produzem mais de 3,5 milhões de peças e movimentam cerca de meio bilhão de reais por ano, de acordo com censo realizado pela própria entidade. Formada em ciências sociais pela UFMG, com especialização em marketing na Fundação Dom Cabral, Alice cresceu no meio da moda, já que a mãe, Marcia Morais, criou a grife homônima, especializada em plus size, há mais de 20 anos. O fascínio pelo universo fashion fez com que ela redirecionasse a carreira para trabalhar na empresa familiar, na qual é responsável pela gestão de marketing, com foco na comunicação com o mercado, estratégias comerciais e branding. Alice assume a presidência do Instituto Amem com muitos planos, entre eles continuar apoiando os empresários nesse momento da pandemia e também dar maior visibilidade ao bairro do Prado – onde a maioria das empresas associadas está localizada, criando uma sinergia maior com a economia criativa de Belo Horizonte, o que significa os setores de turismo, gastronomia, cultura, arte e moda.
 
 
Alice, você assume a direção do Instituto Amem em um momento difícil. O que a levou a aceitar o desafio?
Acho que o que mais me motivou foi justamente o fato de estarmos passando por um momento crítico, em que a existência da associação se torna ainda mais importante. Confesso que estava apreensiva, mas tive apoio dos colegas empresários e me senti preparada para o desafio por já participar como diretora e ser uma grande entusiasta do associativismo.

Quais são seus planos?
Uma crise é uma sequência de decisões urgentes e importantes. O empresário se viu em meio a uma série de dilemas, principalmente no que se refere à legislação trabalhista, regime fiscal, gestão financeira e comercial, etc. Ter o controle dos números, projetar cenários, otimizar processos, adaptar estratégia e posicionamento... tudo isso virou grande diferencial competitivo. Nesse sentido, a nova gestão da Amem pretende dar ênfase no empresário e no seu desenvolvimento e amadurecimento em todos os níveis. Dar mais visibilidade à moda mineira e trabalhar melhor a comunicação e divulgação do nosso polo é outra prioridade que temos. Tenho um perfil de gestão mais colaborativo e pretendo construir, em conjunto com os demais diretores, um planejamento estratégico com ações concretas. Somos um time forte, diverso e muito preparado. Na vice-presidência, por exemplo, temos o Marcos Flávio, da Alfazema, que é um empresário muito experiente e engajado.

Que projetos foram realizados por seus antecessores que você pretende continuar?
Eu fazia parte da gestão anterior e, com certeza, ela será nossa referência em vários aspectos. Hoje temos um calendário de lançamentos unificado, treinamentos periódicos, projetos comerciais coletivos, agenda compartilhada, números e pesquisas do nosso setor, parcerias com prestadores de serviço, comunicação direta entre empresários e também com as principais instituições. Todas essas conquistas serão mantidas e aprimoradas.

Como uma empresa se associa ao Instituto Amem? Como ele funciona?
Normalmente, a empresa interessada em se associar faz um primeiro contato por telefone e então nossa diretora-executiva, Debora Magalhães, agenda uma visita pessoalmente para conhecer a marca e apresentar a Amem. Buscamos entender a atuação da marca no mercado de moda em Minas, se existe espírito associativista e se os valores estão alinhados aos nossos. Essa avaliação preliminar é muito importante, pois aquele empresário vai fazer parte de um grupo ativo, que precisa de coesão para funcionar. Após essa conversa informal, o empresário preenche um cadastro no site, que é encaminhado para aprovação da diretoria, seguindo rigorosamente o nosso estatuto. 

Como você avalia a moda ofertada pelos showrooms do Prado?
O Prado é um polo de moda vibrante, inovador e singular, que se diferencia pelo design, pelos processos minuciosos e pela variedade de oferta. A moda mineira é referência no segmento festa, mas temos também grandes marcas em outros segmentos como o jeanswear, casual, tricô, plus size, beachwear e também acessórios finos. Nossa moda tem peso e tradição, é uma vocação natural.

Você não acha que esse trabalho e potencial ficam muito restritos àshistórias do próprio bairro?
Com certeza, temos um pouco de dificuldade em transpor os limites do Prado. O fato de grande parte das marcas ser exclusivamente atacado cria um certo distanciamento do público em geral. A distribuição via multimarcas é um fator que acaba concentrando o esforço de marketing no lojista. Mas isso tem mudado com a entrada de mais marcas no varejo e também com a intensificação da comunicação com o consumidor final, especialmente via redes sociais e influenciadoras.

O que fazer para que o bairro ganhe mais visibilidade?
Esse é um dos nossos maiores desafios. Aposto muito no digital por ser um tipo de comunicação acessível e com grande alcance. Temos a tecnologia e as ferramentas à nossa disposição, precisamos investir de forma estratégica para amplificar a nossa voz. Acredito também que seja necessário criar uma sinergia maior com a economia criativa da cidade – turismo, gastronomia, cultura, arte e moda. São setores que se complementam e se fortalecem, queremos estreitar laços.

A Amem teve que lidar com um problema bem delicado que é o da comissão dos consultores de moda. Conseguiram chegar a um acordo?
Os empresários não consideram a comissão dos consultores de moda um problema delicado. Nós somos parceiros de trabalho e cultivar e valorizar esse relacionamento é muito importante para a Amem. O que ocorreu é que a pandemia impactou severamente o caixa das empresas e ajustar os custos se tornou uma questão de sobrevivência. Como associação, nós trabalhamos com as demandas dos associados e a readequação do percentual de comissão foi uma questão colocada pelos próprios empresários de forma massiva e muito enfática. A diretoria, juntamente  com os empresários, tentou estabelecer uma nova referência de trabalho, mas cada empresa tem livre-arbítrio para praticar o percentual e a política de pagamento que julga mais condizente com a sua realidade.

Com a pandemia, muitas marcas resolveram recorrer às vendas on-line. Esse tipo de comportamento vai alterar a tradicional relação entre compra e venda no Prado?
As empresas de moda mineira têm um modelo de negócios classicamente analógico, mas estão vivendo intensamente a transformação digital. Acredito que esse seja o movimento mais importante no momento. Essa modernização já vinha acontecendo, mas a pandemia tornou tudo muito mais urgente, principalmente no que se refere à comunicação e canais de venda. O que estamos presenciando é um esforço muito grande das marcas para intensificar sua presença on-line. Muitos estão lançando seu e-commerce, entrando em market places e também utilizando as ferramentas de marketing digital para se manter relevantes no mercado e em contato próximo com seus clientes e parceiros. Vejo o on-line como um complemento, uma nova possibilidade, mas a relação clássica de compra e venda vai permanecer decisiva.

Qual a sua formação?
Formei-me em ciências sociais pela UFMG e, mais tarde, cursei uma especialização em marketing na Fundação Dom Cabral. Não me imaginava trabalhando com moda, mas realmente é um universo que me fascina. Ter feito esse redirecionamento de carreira foi a melhor escolha que fiz. A formação em humanas me ajuda muito na vida empresarial, mas estou constantemente em busca de aprimorar meus conhecimentos em gestão e mercado.

Por que resolveu trabalhar no negócio familiar? Qual a sua função?
O que mais me atraiu foi o amor pela moda. Digo que se o negócio da família fosse uma fábrica de parafusos, dificilmente estaria  atuando nela. Aqui na empresa estou à frente do Departamento de Marketing, meu foco é a comunicação com o mercado, estratégias comerciais e branding.

Atuar no negócio familiar é muito comum nos empreendimentos de moda. Quais são os pontos positivos? E os negativos?
No censo que realizamos na Amem, constatamos que 77% das empresas são familiares. Isso significa que são empresas com perfil mais tradicional, que compartilham valores e um senso de lealdade e respeito muito fortes. Um ponto que precisa ser trabalhado é a profissionalização da gestão, mas a existência de certa intimidade significa também menos burocracia e mais agilidade no processo de decisão.

Como a Marcia Morais nasceu? São quanto anos de mercado? É só pronta-entrega?
A Marcia Morais é uma empresa com mais de 20 anos de mercado, que nasceu da vontade da minha mãe em criar moda com design e qualidade para mulheres que, assim como ela, não se encaixavam no padrão de numeração imposto pelo mercado. Ela começou cortando e costurando na sala da nossa casa e vendendo em um estande na Feira Shop. De lá pra cá, passamos pelo Barro Preto e, hoje, temos um showroom de pronta entrega no Prado que é referência no segmento plus size.

Recentemente, a marca passou por um reposicionamento. Qual é o seu status agora?
Sim, nos últimos anos passamos por um processo de rebrand que trouxe mais frescor e modernidade para a marca. A questão da modelagem com ampla oferta de tamanhos sempre foi e será um grande compromisso nosso, mas hoje podemos nos orgulhar de ter um produto de sucesso, não apenas pela disponibilidade de numerações, mas também por ser um item de moda desejado, por ser uma marca que gira dentro das lojas e que cria valor tanto para quem revende quanto para quem usa. Quando pensamos na mulher Marcia Morais, não falamos apenas de uma persona, mas de uma pluralidade de estilos, idades, etnias e tipos físicos. Isso tudo faz parte do nosso posicionamento, a moda como instrumento de expressão, autoestima e libertação.

Ficamos sem duas edições do Minas Trend neste ano atípico. A seu ver, qual a importância do evento e como ele repercute na pronta entrega?
O Minas Trend é uma das semanas de moda mais importantes do país e, sem dúvida, a impossibilidade de realização do salão de negócios do evento deixa um vácuo no mercado. Durante o MT, centenas de compradores e formadores de opinião do Brasil e do exterior desembarcam na cidade, não apenas para realizar seus pedidos para a estação seguinte, mas também para circular pela pronta entrega, esse é um movimento natural. É um evento que impacta o setor de confecção como um todo e tem um potencial turístico e econômico enorme. Penso que a sua reformulação é urgente e deve envolver não apenas a Fiemg e as marcas expositoras, mas também a pronta entrega, representantes do governo estadual e municipal e outros grupos econômicos que possam ter interface com a moda.

Moda é desejo. Desejo de ficar bonita (o), de se mostrar, de ser vista (o) pelos outros. Como o cancelamento dos eventos sociais está abalando a estrutura da moda?
Em um primeiro momento, a sensação era de que o isolamento social significaria uma paralisação no consumo de moda, mas o que percebemos é que os novos hábitos demandaram novos estilos, que significaram novas oportunidades de mercado. As empresas se moveram rapidamente para adaptar suas ofertas, criando as linhas comfy e homewear, que foram um sucesso instantâneo. Tivemos também adaptações do calendário e forma dos lançamentos. Foi a consagração do modelo cápsula, que consiste em lançamentos mais enxutos e comerciais acontecendo com maior frequência.

Aos seus olhos, como será a recuperação do setor?
A recuperação já está acontecendo. Quem atende público mais jovem e antenado e conseguiu fazer as adaptações necessárias está sentindo o mercado aquecido. Para a moda festa e também as marcas de perfil mais tradicional, a retomada será mais lenta e gradual, mas o desejo pela moda se mantém na mente do consumidor. É claro que para retornar ao patamar em que estávamos antes da pandemia precisaremos de bastante tempo. Uma coisa interessante é que a pandemia tirou todos da sua zona de conforto, obrigando o empreendedor a promover mudanças, melhorias e inovações em todas as dimensões do negócio. No longo prazo isso pode significar um mercado mais maduro e profissional.

Você é um ser político no sentido existencial? Tem aptidões de liderança? 
Não me considero uma líder nata, mas uma característica minha, que é muito política, é a capacidade de envolver as pessoas em torno de um objetivo, comunicar e construir pontes. Pretendo usar essa habilidade em prol do mercado de moda, costurando apoios e criando sinergia entre todos os atores.

Algo mais que queria contar ao Caderno Feminino?
O setor de confecção é um dos que mais empregam no estado, especialmente mão de obra feminina. Temos um ótimo relacionamento com todas as entidades do setor e essa proximidade, especialmente junto ao poder público, torna possível que nossas demandas sejam ouvidas. Durante a quarentena, por exemplo, a atuação de membros da associação foi fundamental para que o setor de moda fosse compreendido e contemplado na primeira fase da reabertura. Estamos em período eleitoral e esperamos que os postulantes olhem para o nosso setor com a devida atenção, precisamos criar interlocução com a política. Nesse sentido, estamos de portas abertas para dialogar e contribuir na construção de um mercado de moda ainda mais pujante. 


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