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Estado de Minas entrevista/Pedro Lázaro Rodrigues - 52 anos, arquiteto e urbanista e engenheiro civil com pós-graduação em filosofia

Arquitetura com afeto

"O Minas Trend foi muito relevante para o meu crescimento como indivíduo e como profissional"


20/09/2020 04:00

(foto: adriana vasconcelos/divulgação)
(foto: adriana vasconcelos/divulgação)


Quando estreou, há 20 anos, em uma mostra de decoração e arquitetura de Belo Horizonte, Pedro Lázaro chamou a atenção com uma galeria concebida para um corredor comprido da Casa do Conde, no qual se destacavam uma sequência de cadeiras vazadas em um das laterais, lembrando esculturas em ritmo ordenado. Assim, flertando com o inusitado e com o consistente, o arquiteto, nascido em Pedro Leopoldo, construiu uma carreira de prestígio. Seu escritório, no Bairro Sion, tem uma carteira de clientes diversificada tanto na área residencial quanto comercial, passando pela cenografia, concepção de exposições e outras experiências de sucesso. Com o passar do tempo, Pedro Lázaro foi refinando sua linguagem e repertório sedimentados pelo capital cultural. Mesclando tradição, cultura e tecnologia, sem perder de vista a contemporaneidade, ele constrói cenários personalizados para morar ou para valorizar produtos comerciais. Cria imagens poéticas que ficam no imaginário, como a do ipê, referência do cerrado, no cenário do desfile de abertura do Minas Trend, o maior salão de negócios do Brasil, do qual foi diretor criativo por várias edições. Mas é nas mostras decorativas que o arquiteto revela sua melhor faceta em ambientes preciosos, nos quais se juntam memórias e modernidade e cada objeto é ressignificado.Leitor voraz, colecionador, premiado, Pedro Lázaro acredita no bem coletivo e sonha em 
poder projetar, um dia, um espaço voltado para as artes, conhecimento e desenvolvimento humano. Entre os muitos projetos para o próximo ano, ele está desenhando, junto com o fotógrafo Jomar Bragança, o primeiro volume de uma série de cinco livros sobre seu trabalho.
 
 
Como está a performance do seu escritório durante esta pandemia?
No início da pandemia, era o momento em que os novos projetos, normalmente, começariam a ser fechados, o que não aconteceu pelas incertezas que ela trouxe. Mas isso já está se reorganizando e os novos trabalhos estão sendo negociados e fechados. Hoje, trabalhamos on-line com apenas duas pessoas no  escritório para organizar os processos de junção de todo o material produzido fora.

Quantos projetos você está tocando atualmente? Conta com uma equipe antenada para levá-los adiante?
Hoje, temos nove projetos em andamento no escritório, como casas, apartamentos, retrofits residenciais, além de direção de arte e fotografia, organização de exposições para o próximo ano, como a do Empório Leveza, e o primeiro volume da minha série de cinco livros, que está sendo desenhado dentro do escritório junto com o fotógrafo Jomar Bragança. Tenho o maior orgulho da minha equipe. Comprometimento e capacidade em nível muito elevado. Sem eles não chegaria a lugar algum.
 
Você investiu muito em São Paulo, participando de eventos importantes na cidade. Conseguiu desbravar esse círculo fechado que é a capital paulista?
O objetivo não foi desbravar a capital paulista apenas, foi estar em um lugar onde se dialoga com todo o Brasil e com o mundo. São Paulo me recebeu muitíssimo bem e hoje já estamos trabalhando por lá de forma satisfatória. Terminei há pouco o apartamento de Etel Carmona e estou negociando outros projetos por lá. A filial do escritório estava sendo organizada e com a pandemia deixei para o próximo ano. Mas o escritório daqui continuará aberto e minha residência oficial também se manterá por aqui. 

Entre seus projetos comerciais destacaria algum mais importante? 
Todos foram muito importantes, mas o projeto do showroom da Mary Design abriu portas inesperadas. Foi um sucesso que trouxe vários outros trabalhos incríveis, além de prêmios de reconhecimento no Brasil e no exterior. A loja da Mabel Magalhães também foi um momento muito especial, pois além de ter conhecido Cláudia Magalhães, possibilitou um novo formato de pensar o espaço comercial.

Tem projetos no exterior?
Sim. Em Nova York, Miami, Milão, Cingapura e Hong Kong.

O cliente que contrata seus serviços está 
em busca de quais atributos? Minimalismo com capital cultural?
Não entendo meu trabalho como minimalista, digo que o caracterizaria como essencialista. Seria esse essencialismo com muito capital cultural, além de trabalhar com afinco a busca do reconhecimento do espaço gerado pelo cliente. Tradição, cultura e tecnologia aplicadas ao bem viver individual, no sentido de que cada cliente tem sua identidade e receberá um trabalho feito especialmente para ele.
 
E pessoalmente, como é o seu estilo de viver/morar?
Curto muito ficar em casa, moro em um apartamento que tem uma linda praça e as montanhas da Serra do Curral à minha frente. Sou um leitor nato, então espaços para isso não me faltam. Sou descontraído e gosto de receber meus amigos dessa forma. É um espaço repleto de obras de arte da minha coleção, que começou inconscientemente aos 19 anos.

Você continua elaborando grandes projetos cenográficos, como os que assinava para a Fiat?
Até o ano passado sim, mas em função da pandemia esses projetos cessaram. Espero continuar fazendo-os, pois acho uma delícia as possibilidades produtivas desse ramo.
Como alimenta seu repertório cultural e quem são seus gurus na arquitetura?
A leitura é a minha maior aliada. Sou um cara analítico e me envolvo com o universo imaginário que a leitura me proporciona e os espaços onde as ações se desenvolvem vão se materializando. A arte contemporânea também é uma grande fonte, repleta de sentimentos tipicamente humanos, que me emociona muito. As viagens e o convívio com novas culturas também. Meus gurus são os arquitetos modernistas brasileiros e internacionais e o holandês Rem Koolhaas.

Qual é a sua relação com a moda?
Sempre tive uma relação muito forte com tudo que tem o design como prática. A moda sempre me fascinou por entendê-la como linguagem, como maneira de comunicação muito abrangente. Acho os criadores genuínos de moda grandes contadores de histórias e é o movimento produtivo no âmbito do design que mais reflete o tempo instantâneo, talvez pela sua agilidade.

Como chegou ao Minas Trend?
Através de um convite de Marta Machado, que não conhecia, mas ela já tinha tido contato com meu trabalho. E a partir de 2011, em todas as edições fui contratado a partir de licitações públicas. Marilu Sette Câmara conduzia o evento com maestria e com ela aprendi muito e lhe sou grato eternamente.

O que significou ser diretor artístico do maior salão de negócios do Brasil?
Significou tempos de muita felicidade. Era feliz e sabia! Os temas me permitiam um discurso através dos espaços gerados, das ações que eu propunha vinha um avanço na compreensão do real significado de moda. Um trabalho contínuo, pois terminava um e já estava pensando no próximo. Conheci pessoas sensacionais e, de repente, estava gerindo mais de 500 delas trabalhando unidas e de forma muito na- tural. Foi uma época muito relevante para o meu crescimento como indivíduo e como profissional.

Você começou criando o projeto expográfico e ganhou espaço responsabilizando-se até pelo line up dos desfiles. Como aconteceu esse avanço?
Acredito que tinha uma relação tão forte com o evento e seu conteúdo e possibilidades que, em meu convívio diário com Marilu e Henrique, isso ficou muito claro. Além disso, sempre pesquisei moda como matéria-prima para possibilidades arquitetônicas . Então, este meu conhecimento foi sendo percebido e, de repente, eu estava responsável por todo o conteúdo do Minas Trend, mas sempre com o apoio dos meus queridos parceiros da Fiemg, que já o produziam há um bom tempo .

Por que resolveu sair do Minas Trend?
Acredito que tudo é um ciclo e este já estava fechado .

O que a moda ensinou a você?
A moda me apresentou um universo de guerreiros, pois produzir moda no Brasil não é simples. Guerreiros esses que, por ideal e vocação, dedicam toda a sua energia para algo em que realmente acreditam. Ela também me ensinou na prática o valor do trabalho visando ao bem coletivo, pois o Minas Trend desenvolve toda a cadeia produtiva da moda. E, ao entrar intimamente no universo de nossas marcas, pude perceber o império criativo que somos, mas que ainda precisa de muito incentivo para se viabilizar como tal. Minas rima com moda.

Vamos falar do seu começo. O que almejava quando iniciou sua carreira? Conseguiu?
Sinceramente, eu almejava ser feliz fazendo o que gosto. Nunca imaginava que seria em tal escala. Consegui realizações infinitamente maiores que jamais imaginava.

Seu maior cartão de visitas foram as mostras de decoração?
Sim! Pela Casa Cor consegui gerar atmosferas para o público e perceber as minhas propostas. É de uma relevância ímpar, não só para os profissionais, mas para o desenvolvimento da cadeia produtiva e para a formação da cultura da arquitetura e do design de interiores de forma democrática, que antes era restrita.

Quem acreditou em você lhe deu uma chance antes de você ocupar o lugar que ocupa hoje na arquitetura?
As minhas primeiras chances vieram da minha própria família e amigos próximos. Vitória e Marcelo me pediram um projeto para a casa deles, em Pedro Leopoldo. Outra pessoa importantíssima foi a querida amiga Lucilene Bogado, designer de interiores, que me convidou para fazer projetos juntos e me apresentou clientes muito importantes para o meu começo. Aloizio Meirelles, grande amigo também, sempre me deu apoio e confiança fundamentais nesse início de carreira. Tânia Gontijo me deu um apoio inestimável na minha chegada a Belo Horizonte.

O que ainda não fez que gostaria de fazer na sua profissão?
Um espaço voltado para as artes, ao conhecimento e ao desenvolvimento humano.

O que você faz quando não está trabalhando?
Leio, cozinho, converso com amigos, leio, leio, leio, visito e pesquiso arte e arquitetura, desenho e corro.

Um conselho para quem está se iniciando no mercado.
Quando estamos começando, as dúvidas e incertezas são infinitas. Acredito que o melhor a fazer é voltarmos para nós mesmos e entender a nossa essência. Nesse momento os caminhos se elucidam!

Uma frase ou palavra que resuma a sua filosofia de vida.
Sobre o viver, acredito no bem coletivo! À medida que o todo se desenvolve instantaneamente, eu me desenvolvo de forma natural. Mas sempre com base em pensamentos humanistas. 


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