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Estado de Minas

Homenagem simbólica

Arquiteto mineiro participa do Festival Internacional de Jardins na França com a instalação Piro-paisagem, uma analogia à destruição do cerrado brasileiro


postado em 21/06/2020 04:00

A mostra é realizada no Chateau de Chaumont(foto: divulgação)
A mostra é realizada no Chateau de Chaumont (foto: divulgação)
Imagine galhos de árvores do cerrado brasileiro atravessando cerca de 9 mil quilômetros em uma longa viagem Brasil-França para comporem um jardim em um castelo francês. O autor da ideia é o mineiro Carlos M Teixeira, reconhecido pelos projetos autorais demandados pelo escritório de arquitetura que comanda, o Vazio S/A, entre eles participações em concursos, exposições, publicação de livros e pesquisas.

Essa inquietação, que faz parte do espírito e do trabalho do arquiteto e equipe, tem gerado experiências com níveis de intelectualidade expressivas no Brasil e lá fora. Há cerca de dois anos e meio, por exemplo, Carlos foi convidado para participar da Bienal de Arquitetura da China, na cidade de Shenzhen, com intervenção no bairro de Natou, oportunidade em que criou um playground em um prédio abandonado.

Formado pela UFMG, fascinado pelos vazios urbanos, tal interesse surgiu quando ele fazia mestrado em Londres e escreveu um ensaio sobre a representação das periferias urbanas vista pelo olhar de alguns fotógrafos do século 20. Passo seguinte, foi a publicação do livro História do Vazio em Belo Horizonte, pela editora Cosac Naify, em 1999. O arquiteto é autor de outros três livros alusivos ao tema e resultados de uma pesquisa constante.

Agora, o desafio aconteceu na França. A empreitada é resultado da seleção de um concurso em que a proposta era conceber um projeto para o Festival Internacional de Jardins de Domaine de Chaumont-sur-Loire. “Chaumont é “o laboratório mundial no âmbito dos jardins e da criação paisagística contemporânea” e acontece nas dependências de um castelo construído há 500 anos, no Vale do Loire, uma região no interior da França tombada pela Unesco e conhecida por seus esplêndidos castelos renascentistas”, explica Carlos.
Piro-Paisagem é um arranjo de galhos podados e troncos queimados coletados no sopé da Serra da Moeda(foto: Eric Sander)
Piro-Paisagem é um arranjo de galhos podados e troncos queimados coletados no sopé da Serra da Moeda (foto: Eric Sander)

Para a mostra com reputação internacional, o Vazio S/A propôs a Piro-Paisagem – Paysage de Feu, em francês –, cuja novidade é a utilização de galhos de árvores do cerrado. Nasceu a partir do tema do festival neste ano, o retorno à mãe-terra, e é uma espécie de denúncia simbólica em torno da destruição e queimadas de bioma tão relevante.

Em março, o material  chegou ao destino ficando à espera das obras, no pátio de manobras do castelo. Segundo Carlos, como programado, sua equipe deveria estar em Chaumont nessa época para acompanhar o processo de construção, porque a abertura oficial estava programada para o início de abril. Porém, com o advento do coranavírus, tudo indicava que ela seria adiada para o ano que vem.“Ficamos espantados quando recebemos a notícia que a produção montou nosso jardim, meio que na surdina, para, em seguida, no dia 16 de maio, anunciar a inauguração do evento".

Surpreendido, o mineiro alega que houve uma discrepância na montagem realizada sem supervisão e à revelia dos responsáveis. "Estavam previstas três visitas ao local e só estive lá em janeiro para conhecê-lo. Eles nos deixaram sem informações, veio a pandemia e, de repente, ficamos sabendo que tudo estava pronto. Na nossa concepção, os galhos das árvores estariam presos em um cabo, como se flutuassem. Alguns deles eram muito grandes, com até dois metros, e teriam que ser cortados para obter esse efeito. A produção francesa não observou esse detalhe e permitiu que eles tocassem ou se apoiassem no chão”, pontua.

Os galhos das árvores fizeram uma longa viagem Brasil-França(foto: Eric Sander)
Os galhos das árvores fizeram uma longa viagem Brasil-França (foto: Eric Sander)
Pesquisa

 Para se compreender melhor o projeto, resultado de uma pesquisa apurada, é preciso se deter em algumas informações que o nortearam: o cerrado é a maior formação ecológica do Brasil, uma savana tropical que se espalha pelas áreas mais centrais do Brasil e possui aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros quadrados. Possui cerca de um terço da biodiversidade brasileira, 5% de flora e fauna mundiais, além de ser o nascedouro de águas que formam as três grandes bacias hidrográficas do país: do Araguaia/Tocantins, do São Francisco e do Paraná/Paraguai.

“Infelizmente, por ser uma savana tropical vista apenas como o bioma da vegetação pobre e como reserva de expansão de áreas agrícolas, ele é desamparado em termos de proteção legal. Diferentemente da Amazônia e da Mata Atlântica, não é configurado como “patrimônio” na Constituição Federal, apesar da sua biodiversidade ser considerada uma das 25 mais ricas do planeta e, em termos de savana, ser a mais rica”, explica o arquiteto. O fato é que, segundo ele, enquanto nos últimos meses os olhos do mundo se voltaram para as queimadas da Amazônia, o cerrado continua sendo destruído para virar soja e pasto sem qualquer repercussão nacional ou internacional.

O jardim Piro-Paisagem transmite uma mensagem bem simbólica. Envolve um arranjo de galhos podados e troncos queimados coletados em uma área protegida no sopé da Serra da Moeda, em Minas Gerais, local bem próximo a casa que o arquiteto possui no condomínio Santuário da Moeda, área de cerrado. O projeto expõe os galhos em linha, qual animais abatidos pendurados em um frigorífico, e funciona como um “jardim botânico póstumo” de espécies encontradiças nos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia.

“Em princípio, é um jardim morto feito de plantas expostas de cabeça para baixo. Além de referência óbvia aos abatedouros, outra conotação do jardim é que o cerrado é um bioma de árvores muito maiores que os galhos. São plantas adaptadas à regiões mais secas, capazes de alcançar lençóis freáticos muito baixos e, por isso, plantas mais terrestres do que aéreas”, diz Carlos.

O encantamento do arquiteto pelo tema vem de longa data, a começar pela sua curiosidade por Brasília, cidade que, assim como Belo Horizonte, não incorporou esse bioma na sua paisagem urbana. “Penso que Brasília e Belo Horizonte são cidades que guardam semelhanças, ambas foram planejadas em meio ao cerrado e tiveram essa paisagem original excluída”. Por outro lado, confessa que sempre se sentiu atraído pela vegetação mais humilde, ruderal, como os capins encontrados em lotes vagos, que nascem de forma espontânea. Isto, de certa forma, remete à sua fascinação pelos vazios, assunto largamente estudado e explorado por ele. “Sinto que, agora, o cerrado vem se tornando objeto de interesse de um grupo de pessoas, o que já é um começo”, pondera.

Detalhe do projeto realizado para o festival
Detalhe do projeto realizado para o festival
Retorno à terra mãe 

Com relação à temática do evento, a organização foi buscar Gaia, a Mãe Terra – que personifica a terra fértil, universalmente reverenciada na antiguidade grega – para estabelecer o paralelo com o mundo globalizado, cujas sociedades contemporâneas focaram seu desenvolvimento exponencial  no “crescimento”.  Como resultado, os vínculos com essa figura de proteção e nutrição foram tristemente enfraquecidos apesar dela, além de seu poder simbólico e mitológico, continuar sendo uma comunidade autorreguladora de todos os seres que a compõe, os quais devem ser protegidos sem distinção.

Por outro lado, o jardim, lugar de reflexão e respeito por todas as harmonias misteriosas, torna-se um microcosmo refletindo o macrocosmo, a expressão de uma vida também harmoniosa. Por analogia, a Terra é um jardim e qualquer jardim deve ser uma lição sobre como deveria ser a relação entre plantas, homens e mulheres, particularmente em uma época em que o planeta está sendo desconfigurado trazendo perigo para a humanidade: esta é base sobre a qual se apoia o festival francês, que vai até novembro.


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