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Estado de Minas ENTREVISTA/RACHEL JORDAN - 54 ANOS, CONSULTORA DE IMAGEM E COMPORTAMENTO

"A vida é feita de relacionamentos"

Respeito, empatia, generosidade e escuta ativa são valores decisivos na construção da imagem


postado em 31/05/2020 04:00 / atualizado em 30/05/2020 15:20

(foto: Flavio Teperman/Divulgação)
(foto: Flavio Teperman/Divulgação)


A descoberta de um câncer mudou a vida da artista plástica Rachel Jordan. No processo de retomada da autoestima, ela conheceu o trabalho de consultoria de imagem, que ainda era novidade no Brasil, e mudou de carreira. Curioso é que Rachel parece ter nascido para esta nova profissão. “O consultor de imagem tem que gostar de trabalhar com pessoas e tem que gostar de se comunicar.” Na nossa conversa por telefone, ela não deixa dúvida de que tem essas habilidades. Muito falante, atenciosa, em alguns momentos divertida, ela demonstra o tempo todo estar com um sorriso no rosto. Diz que essa veia comunicativa vem do sangue mineiro de parte da família. Atual presidente da Associação Internacional de Consultores de Imagem (AICI) Brasil, cargo que ocupará até o fim de junho, Rachel se especializou nos Estados Unidos e Inglaterra em regras de comportamento. O seu trabalho consiste em ajudar pessoas e empresas a atingirem seus objetivos através da imagem.
 
Como começa a sua história?
Venho de uma família metade mineira e metade paulista. Sou a caçula de seis irmãos. A criação mineira é muito enraizada em mim, por isso tenho essas veias da comunicação e empatia muito fortes. Acho que mineiro tem muito isso. Sou casada e tenho duas filhas. Graduei-me em artes plásticas e durante 20 anos pintei porcelana, cerâmica e tela acrílica. Em 2004, descobri um câncer de mama. Tinha 39 anos. Foi uma surpresa assustadora, e tive muito medo de não estar presente na vida das minhas filhas, que estavam crescendo. Fiz todo o tratamento e, quando comecei a viver de novo, tive uma reincidência no sacro. Quando você sai de um tratamento quimioterápico, fica com medo de morrer, engata a primeira do carro e vai de novo para a vida. Quando terminou a segunda fase do tratamento, perdi cabelo, fiquei inchada, porque tomei corticoide, e a autoestima vai lá pra baixo. É um novo descobrir, como se olhar no espelho e se reconhecer. Foi quando uma amiga que estava trazendo a consultoria de imagem para o Rio de Janeiro me chamou para fazer o curso. Como isso era em 2010, ninguém sabia o que era consultoria de imagem. Fiz, me apaixonei e mudei de carreira.
 

"Entre 70% a 80% do seu dia você está se relacionando com pessoas que não são seus familiares, seus melhores amigos, com poder aquisitivo, cultura e personalidade diferentes"

 

Em que consiste a consultoria de imagem?
A consultoria de imagem tem três pilares: aparência, comunicação e comportamento. Para a sua imagem ser coerente e consistente, tem que ser única. Por exemplo, não adianta estar superarrumada se o seu comportamento não está atrelado a esta vestimenta. O profissional de consultoria de imagem trabalha com esses três pilares e ajuda pessoas e empresas a atingirem seus objetivos através da imagem construída. Dentro desses três pilares existem várias ramificações. Na aparência, tem construção de dress code (código de vestimenta), montagem de look, análise de cores, limpeza de guarda-roupa, montagem de mala de viagem etc. Já na comunicação, tem comunicação verbal e comunicação não verbal (postura, gesto e expressão facial). Aí vem comportamento. As habilidades sociais estão em altíssima, afinal, a nossa vida é feita de relacionamentos. Vemos as palavras empatia, network, inteligência emocional, isso tudo tem a ver com a capacidade comportamental, saber se relacionar com o outro. Entre 70% a 80% do seu dia você está se relacionando com pessoas que não são seus familiares, seus melhores amigos, com poder aquisitivo, cultura e personalidade diferentes. Então, como fazer para se relacionar? Incutindo nos relacionamentos respeito, atenção, escuta ativa.
 
Como a roupa influencia na nossa imagem?
A primeira impressão é a que fica e você tem segundos para causar uma boa primeira impressão. Pode até ser que aconteça num segundo momento, mas o outro tem que dar a oportunidade a você. Falo a seguinte frase: você quer passar pela vida das pessoas deixando uma impressão positiva, quer que as pessoas se lembrem de você. A nossa roupa transmite mensagens. Quando você está de chinelo, short e camiseta de malha, o seu cérebro recebe a mensagem e a sua postura fica mais informal. A partir do momento em que coloca salto alto, vestido justo e arruma o cabelo, seu comportamento muda. O homem também vai ficar diferente se usar terno ou roupa ca- sual. Quando você, profissional, atinge um nível hierárquico bacana, tem que estar com uma roupa que transmita suas competências e atributos. Tem uma frase que diz: vista-se para o cargo que quer atingir. Nesse caso, é preciso analisar a empresa onde trabalha, cargo que ocupa, tipo de agenda naquele dia. Se você é diretor de uma startup, não combina usar terno e gravata. Também ajudo pessoa física a construir o seu armário. Roupa traz autenticidade, pode transmitir criatividade, sobriedade, acessibilidade ou distanciamento. Se a pessoa tem um estilo mais criativo, a roupa dela vai ser com mais combinações de cores, estampas, acessórios mais ousados, sapatos de modelo diferente. Quando você vê uma mulher com vestido cinza, sapato clássico, joia menor, bolsa com linhas mais retas, pode criar distanciamento.

Você se especializou em comportamento. Por quê?
Vindo de uma família tradicional, sempre tive enraizados valores de respeito, generosidade, de ter um relacionamento bom com o outro. Quando fiz a formação, percebi o quão vazio estava o comportamento. Mal ou bem, a tecnologia veio para facilitar a nossa vida, mas tirou a fala como principal meio de comunicação entre as pessoas. Virou um texto, e texto é frio, mesmo com emoticon. As pessoas estavam muito individualistas. Você entra no elevador e ninguém dá bom-dia, todo mundo está no celular. Todos nós sabemos a importância dos relacionamentos, mas, com a correria do dia a dia, fomos deixando passar. Fui estudar nos Estados Unidos, numa escola chamada The Protocol School of Washington, voltada para etiqueta profissional e protocolos internacionais, e voltei ao Brasil apostando neste lado do comportamento, que para mim é importantíssimo. Depois fui para Londres estudar na Europrotocol e me aprimorei em etiqueta e protocolos, focando no lado europeu. Hoje, vemos que muitos empresas preferem contratar quem tem habilidade social do que capacidade técnica. Não é que não precisa ter capacidade técnica, mas, entre uma pessoa que sabe mexer em determinado software e outra que sabe se relacionar bem, gosta de ajudar os outros, é empática e vai agregar, uma empresa de informática vai preferir contratar a primeira. Depois paga um curso do software.

De que forma a consultoria de imagem ajuda na construção do comportamento?
Ao falar sobre a importância da empatia, networking, inteligência emocional, etiqueta profissional, escuta ativa, ajudar o colega, questões que no nosso dia a dia não percebemos que são tão importantes. Etiqueta é respeito, saber se relacionar. Não temos visto a importância de entender a diversidade? Isso é comportamento, escutar o outro, mesmo que ele não tenha a mesma opinião. O líder de antigamente só mandava, hoje o líder é visto como mentor, exemplo para a equipe. Ele coopera, dá o nome de quem teve a ideia. Tudo isso é habilidade pessoal.

O que são protocolos internacionais?
São as regras de comportamento, só que internacionais. Muitas empresas enviam (ou enviavam) seus funcionários para fechar negócios em outros países, então é preciso entender a cultura do país para onde está viajando, como é a linguagem corporal, que tipo de presente pode-se dar. Também dou aula de etiqueta à mesa, já que muitos negócios são fechados em refeições. Nesse contexto, é importante saber se vestir. Falam que dress code vai acabar, mas não penso assim, porque roupa transmite mensagem de credibilidade, de capacitação, de modernidade. Hoje em dia, vemos executivos na Quinta Avenida, em Nova York, ou na Avenida Paulista, em São Paulo, só com blazer e calça. Quando vão falar com um cliente mais formal, colocam a gravata, que é o que traz mais formalidade. Essa informalidade depende do tipo de trabalho. Uma mulher que trabalha em escritório de direito não precisa mais usar um terninho sem graça, com linhas retas. Hoje, vemos cada peça maravilhosa, com uma pegada mais contemporânea, mas as cores continuam mais sóbrias, não tem decote, não tem tanta estampa.

O que você leva das artes para a consultoria de imagem?
As cores, o lado lúdico, poder expressar seus sentimentos. Quando você pinta um quadro, expressa suas emoções, da mesma forma quando constrói sua imagem e mostra quem você é através dela.

Como a pandemia a impactou?
Acredite se quiser, sou a pessoa que gosta de ver o lado bom do lado ruim, então fico radiante que aprendi a fazer feijão usando panela de pressão. Fora que as minhas meninas (as filhas de 28 e 26 anos) vieram para o Brasil – uma mora nos Estados Unidos e a outra na Inglaterra – e estão comigo em casa. Em relação ao trabalho, a minha agenda do primeiro semestre estava lotada, iria para Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Goiânia. Aliás, a minha vida era a ponte aérea. A sede da Aici fica em São Paulo e eu moro no Rio. Não segui com o curso de comportamento, porque ele é fundamentalmente presencial, falo de relacionamento, há dinâmicas e é importante estar junto aos alunos. Mas o de dress code profissional consegui trazer para o on-line. Para mim foi muito positivo o isolamento no sentido de que comecei a abrir outras frentes de trabalho. Tinha só um curso on-line, o Fazendo as pazes com a mesa, de etiqueta à mesa. A pessoa entra no site e assiste na hora em que quiser. Durante a quarentena, o workshop de dress code é ao vivo, são duas tardes. Também criei outro curso, que está em uma plataforma virtual, que é o de atendimento. Comecei a escrever para uma revista on-line como colunista, então estou trabalhando muito.

No contexto de home office, o que devemos observar sobre o nosso comportamento?
É sempre bom lembrar que não é porque você está em casa que não está trabalhando. Não é fácil, filho em casa, animal de estimação, marido ou mulher, só que para a empresa você continua sendo aquele profissional que dedica horas ao trabalho. É muito importante se vestir de forma adequada pelo menos do tronco pra cima, estar com o cabelo penteado, barba feita, como se estivesse indo ao traba- lho. Isso ajuda na rotina, muita gente fica de pijama o dia inteiro e não se anima. Preste atenção na sua aparência, nunca se sabe se alguém vai chamar por você durante o horário de trabalho. Se, numa videoconferência de trabalho, a criança gritou, o marido chamou, o cachorro latiu, pode até fechar o vídeo, mas depois deixe aberto. Se fosse reunião presencial, você estaria sendo visto. Use fone de ouvido, ele abafa o som externo. Procure sentar-se em um ambiente um pouco mais arrumado, não vá se sentar na cozinha com a panela de pressão funcionando. Se você vai participar da videoconferência com celular, apoie-o, não o deixe balançando na mão, isso incomoda. Preste atenção também na pontualidade.

Como se comunicar usando máscara de proteção?
A expressão facial é a nossa primeira impressão, é o que traz acessibilidade, por isso falamos que um sorriso no rosto abre portas. Quando esta parte do rosto fica tampada, o contato visual é ainda mais importante e a linguagem corporal pode ajudar no diálogo. A máscara abafa o som, então, quem fala muito baixo é inibido, tem que fazer um esforço maior para a voz sair. Vamos ter que nos adaptar a estas questões. Acho que a máscara vai virar um item fashionista, feita para combinar com o look.

Em que consiste o trabalho da Aici?
Como a nossa profissão ainda não é reconhecida, a associação ajuda o consultor a ter mais força, promove networking, atualização de mercado, muito conhecimento, fazemos muitos eventos, ela traz essa sustentação para todos os profissionais do ramo. Somos o maior capítulo da Aici do mundo.

Na sua opinião, a profissão de consultor de imagem tende a crescer?
Acho que sim. Por exemplo, estamos vendo uma necessidade muito grande de falar sobre assuntos como sustentabilidade, então o consultor de imagem ajuda seus clientes a ter um guarda-roupa que realmente funcione, otimizado, a comprar só o necessário. Podemos ajudar o cliente a entender o que é upcycling, o que é reciclagem. Até no mercado de varejo, as empresas precisam se reconectar com o cliente. O cliente vai pensar muito antes de comprar. Neste momento de isolamento, as pessoas deram valor à vida. Não que não dessem antes, mas isso estava esquecido. Valores foram resgatados. 

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