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Estado de Minas ENTREVISTA/ADRIANA VIDAL - 40 ANOS, CONSULTORA DE FLORESCIMENTO DE PESSOAS E NEGóCIOS

Certezas envelhecem

"O otimismo é uma das emoções de futuro mais importantes, pois ela emerge quando situações desafiadoras aparecem"


postado em 15/03/2020 04:00 / atualizado em 13/03/2020 14:28

(foto: márcio rodrigues/divulgação)
(foto: márcio rodrigues/divulgação)


Palavras como felicidade, bem-estar e pertencimento ganham cada vez mais importância no dicionário das corporações antenadas. Apoiada na teoria do florescimento humano, desenvolvida pelo psicólogo estadunidense Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, a facilitadora Adriana Vidal criou a Flourish – Inteligência de Pessoas, empresa que promove na próxima quarta-feira (18) o evento Future-se: certezas envelhecem, no Luminis Urban Play. Será um dia inteiro dedicado a trocas e aprendizados com especialistas escolhidos a dedo. “O encontro trará conceitos de futurismo e tendências, com cases de modelos de negócios inteligentes e coerente com os drivers  atuais do comportamento humano”, explica Adriana. Durante 15 anos ela atuou na área comercial da DTA, liderando times de vendas com resultados positivos. “Os colaboradores tinham forte senso de pertencimento, esse é o principal fator de engajamento”, pontua.
 

"O curso mais popular na Universidade de Yale hoje é o de Felicidade e bem-estar! Isso mostra como estamos buscando mais respostas e satisfação pessoal"

 
 
 
Você veio da área comercial da DTA. O que a levou a montar uma empresa voltada para a área de inteligência em pessoas?
 Sou totalmente relacional. Tenho fascínio pelos drivers do comportamento humano e seus desdobramentos: motivações, consumo e relacionamentos. Na DTA, durante 15 anos, liderei times de venda que apresentavam resultados porque tinham forte senso de pertencimento. Esse é o principal fator de engajamento, deveria ser o foco das empresas que querem colaboradores criativos, proativos e de alta performance. E como conseguir isso? Com uma liderança aberta para escuta ativa. Não há como motivar, capacitar e nem mesmo reconhecer as pessoas sem conhecer os sonhos e dores de cada um.  E foi a partir dessa prática que decidi seguir minha essência de facilitadora (palavra que me define em inventários de perfil), despertando protagonismo, destravando potenciais e envolvendo pessoas em suas paixões.

Como é o trabalho da Flourish?
Começamos sempre com um diagnóstico, momento de escuta.  A segunda etapa do nosso trabalho busca expansão de consciência do colaborador, trabalhando autoconhecimento (com ferramentas) e entendimento do por quê ele faz o que faz. Uma pesquisa mundial realizada em mais de 150 países pelo Instituto Gallup mostrou que apenas 20% das pessoas gostam do que fazem. Nosso desenvolvimento passa por provocar as pessoas para que elas descubram suas luzes e, a partir disso, possam se concentrar em fazer mais daquilo que, naturalmente, fazem melhor. Nessa hora, temos gente feliz, motivada, engajada e dando resultado. Essa consciência é fundamental para aumentarmos resultados, o que todas as organizações querem. Repito diariamente para os meus clientes: são as pessoas que dão vida às estratégias. Precisamos de reconhecimento, mas não falo de elogios, falo de nos reconhecermos naquilo que fazemos, já dizia Cortella. As etapas seguintes do nosso trabalho são fundamentadas em métodos, técnicas e ferramentas para melhoria de processos, controles e resultados.

Como tem sido quebrar a tradição que diz que os problemas pessoais dos funcionários não devem interferir no trabalho?
Não sou eu quem acha, são estudos, pesquisas e testes em todo o mundo comprovando que somos seres integrais. No livro O fator bem-estar, Tom Rath traz nossas cinco áreas de florescimento: carreira, social, saúde, comunitária, e financeira. Vamos pensar em um momento da sua vida em que realizou algo muito desejado, em que se sentiu realmente bom, capaz e pleno. Como você estava do ponto de vista físico? Não estava doente, certamente. Como você estava do ponto de vista emocional? Não imagino que estava triste e em desesperança. Nosso funcionamento otimizado, quando estamos realmente realizando todo o nosso potencial, não é divisível entre pessoal e profissional. Por isso tantas empresas vêm se preocupando com os desafios que seus colaboradores vivem fora do ambiente empresarial. A Natura, por exemplo, tem berçários em algumas de suas sedes para que os pais (pai inclusive) possam deixar seus filhos de até 4 anos. O Grupo Boticário tem as salas Nutriz para que as colaboradoras lactantes possam fazer a retirada do leite e armazenamento, evitando o desconforto do peito cheio, empedramento e interrupção precoce do leite materno na alimentação do bebê. Em geral, companhias têm retorno positivo, com maior engajamento, ambientes menos estressantes, maior lucro e melhor imagem.

Como emoções positivas repercutem na performance dos colaboradores de uma empresa?
O exemplo que sempre dou vem da Metlife, uma das maiores empresas do mundo na área de seguros, presente em mais de 60 países. No final dos anos 1980, eles atentaram para o fato de que metade dos vendedores desistiam no primeiro ano e apenas um de cada cinco permanecia até o quarto ano. Diante da perda de US$ 75 milhões por ano em contratação, eles inovaram na forma de buscar colaboradores. Deixaram de lado o modelo-padrão, de CV, experiência e habilidades técnicas. Decidiram contratar pessoas que tinham o otimismo como estilo explanatório. No primeiro ano, esse novo time já tinha vendido 21% a mais que o time convencional e, no segundo ano, 57% a mais. A partir de então, a Metlife mudou seus procedimento de contratação, elegendo pessoas que tinham alto nível de esperança e otimismo, mesmo que deixassem a desejar nos quesitos técnicos. Isso porque o otimismo é uma das emoções de futuro mais importantes, pois ela emerge quando situações desafiadoras aparecem. O pessimista generaliza e paralisa. O otimista enxerga a transitoriedade dos problemas e age na direção do fim naquela fase ruim, que ele sempre enxerga como temporária.

O que é a teoria do florescimento? Quando surgiu?
 A teoria do florescimento tem como pilar o funcionamento positivo do ser humano, considerando cinco aspectos no acróstico PERMA, criado por Martin Seligman, o pai da psicologia positiva: emoções positivas, engajamento, relacionamento, significado, e realização.  É um conceito novo que, dentro da psicologia positiva, busca ressaltar o que nos leva à vida plena e realizada. Esse novo braço da psicologia estuda a felicidade, a excelência e o funcionamento otimizado do ser humano. O curso mais popular na Universidade de Yale hoje é o de Felicidade e bem-estar! Isso mostra como estamos buscando mais respostas e satisfação pessoal.

Esse conceito já é aplicado nos Estados Unidos, que tem uma legislação de trabalho bem rígida. Quais são as empresas que o adotam?
Na National Retail Federation (NRF) deste ano,  rea- lizado em janeiro, em Nova York, escutamos inúmeros cases de organizações já focando em florescimento humano. Stacy Siegal, vice-presidente da American Eagle (AE) nos Estados Unidos, contou que trabalhar na AE é prazeroso, pois eles conduzem o relacionamento com os colaboradores de forma única, como se fossem coproprietários e apoiam todos os estágios da vida de cada um. Se estou na faculdade, se acabei de ter bebê ou se preciso de algo específico, serei ouvida e atendida. A GIG Economy nos Estados Unidos já é uma tendência forte que funciona bem e traz benefícios para todos. Já no Brasil, nossa legislação trabalhista dificulta essa flexibilidade, que é necessária para aumentar níveis de florescimento.

Facebook e Google podem ser consideradas exemplos dessa filosofia? Ao que consta, os próprios projetos arquitetônicos dessas companhias vão na contramão dos demais.
É muito além de espaços divertidos, mesas de pingue-pongue e pufes coloridos. Esse conceito de startups com ambientes divertidos visa promover criatividade e qualidade de vida. Acontece que, se a cultura da empresa não estiver alinhada a isso, coloca-se em evidência o principal fator de desengajamento de times: incoerência. O grande trunfo das companhias inovadoras é ouvir, valorizar, reconhecer e impulsionar os profissionais. Quer promover felicidade? Comece por uma narrativa coerente com as práticas.
 
E no Brasil?
Aqui sempre trago a Reserva, o melhor exemplo. Rony Meisler sabe como ninguém levar florescimento aos seus colaboradores por meio de uma cultura forte, que é praticada no dia a dia e transmitida aos consumidores. A marca responde e agradece, com plano de dobrar sua rede própria até 2023, chegando a 160 lojas próprias.

Empresas pequenas também podem adotar esse conceito?
Implantar conceito de felicidade, cuidar, empoderar, engajar e incentivar pessoas independe do tamanho da sua empresa. Todos querem resultado, mas não dá apenas para cobrar. No ganha-ganha, as empresas oferecem para receber. Eu defendo a “zona de conforto”, que é muito diferente da “zona de comodidade”. Essa última é sobre parar no tempo e no espaço. Zona de conforto é o que precisamos para performar: segurança, coerência, salário justo, ambiente de bons relacionamentos, autonomia e tantos outros fatores que, com certeza, promovem florescimento. Ofereça conforto ao seu time.

Como materializar sensações de felicidade e bem-estar entre os funcionários de qualquer companhia?
Primeira coisa: conscientizando as pessoas de que elas são as responsáveis por dar vida às estratégias. Não adianta o melhor produto, preço e serviço se não temos gente engajada com o propósito da empresa. Na sequência, trabalhar o pertencimento, dar autonomia e envolver o time com escuta ativa, reconhecimento e desenvolvimento constantes.

O que é um colaborador feliz levando-se em conta que o salário sempre é um elemento importante nessa questão?
Estudos atuais já vêm comprovando que existem muitos outros fatores mais importantes do que a remuneração. Isso porque o que nos mobiliza e nos faz agir é nossa motivação interna. Não somos robôs e respondemos de forma previsível aos estímulos externos, mesmo financeiros. A nossa equação da motivação carrega inúmeras outras variáveis. Vejo o dinheiro como algo que reduz a tristeza, a partir do momento em que precisamos ter algumas necessidades básicas atendidas. A partir daí, precisamos considerar o pertencimento, as possiblidades de crescer dentro da empresa, o ter voz, a convergência de valores pessoais com a cultura da organização etc. 

Cite alguns exemplos de como os ambientes de trabalho poderiam ser mais produtivos a partir do seu ponto de vista.
O início é sempre o autoconhecimento. A gente precisa conhecer a luz e os talentos de cada um. Com isso fica fácil alocar a pessoa certa na função certa. E não falo de trabalhar com o que gosto, estou falando de algo mais profundo, é sobre o que fazer com o que vai de encontro à minha essência e perfil. Como posso trabalhar com vendas se não gosto de me relacionar e conversar? Outra estratégia de que gosto muito é a de job rotation, para que todos compreendam os desafios de cada área e função, além de valorizar os talentos dos outros colegas. Claro que isso precisa ser aplicado com muita técnica e cuidado.

Você também trabalha com mentoria no varejo. Como isso acontece?
Minha experiência sempre foi junto a lojistas multimarcas, trabalhei com mil pontos de venda do Brasil. Realidades diferentes, com demandas e anseios completamente divergentes. Na mentoria, implementamos processos, indicadores de resultado, treinamento do time de vendas, VM, análise do mix de compras, introdução de conceitos para atração de público adequado e até mesmo avaliação das estratégias de venda on e off-line.

O que tem visto de interessante nesse ponto em suas viagens internacionais?
As lojas viraram PDD, pontos de diversão. A equipe é preparada e consciente de que nem toda interação gera transação naquele momento. A venda tem que ser construída. A gente planta a semente, cuida, rega e espera florescer.

Como será o próximo curso da Flourish?
Será um evento sensacional, na próxima quarta, 18 de março. Ele se chama “Future-se: certezas envelhecem”. Inspirado no conceito having fun e no mercado americano, o objetivo desse encontro é trazer respostas, preencher lacunas com conceitos aplicáveis e consistentes. Além disso, teremos um painel incrível com três empresários mineiros que estão na contramão da crise: Vander Martins, da marca de moda feminina Skazi; Fernando Duran, da Avantgarde Motors; e Lucas Silva, da Garra Pneus. As palestras, na parte da manhã, ficarão com Ricardo Guinâncio, Fabrizzio Topper e Eduardo Mota, com pesquisa atual e inédita sobre os drivers do comportamento de consumo.

Por que a escolha de uma casa de festas infantis para abrigar o curso? 
Essa escolha vai de encontro às experiências sublimes e inéditas que vivenciamos no mercado americano durante a NRF 2020. Novas gerações de consumo e seus comportamentos têm direcionado as estratégias dos negócios, que vêm se reinventando em conceitos de bem-estar, diversão e alegria. A ideia é promover, na prática, uma jornada de aprendizado e entretenimento. Além disso, usaremos os brinquedos para trabalhar as habilidades interpessoais (softskills), tão necessárias como diferenciais competitivos ultimamente.

Como se efetuou a escolha dos palestrantes?
Quis trazer conteúdo convergente, mas de especialistas em diferentes áreas. Então teremos futurismo, inovação, comportamento e talento. Sairemos com respostas para tantas dúvidas nessa era que estou chamando de Humanológica. Mais informações no nosso site – www.flourish.com.br.  Os ingressos estão à venda no Sympla. 


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