Publicidade

Estado de Minas ARTE MANUAL

Projeto leva capacitação a grupo de bordadeiras do Vale da Serra da Moeda

Objetivo é desenvolver técnicas, gestão e gerar uma renda extra para estas mulheres


postado em 13/10/2019 04:00 / atualizado em 11/10/2019 15:59

O grupo se encontra na sede que alugou para organizar o maquinário e facilitar a produção(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
O grupo se encontra na sede que alugou para organizar o maquinário e facilitar a produção (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Uma arquiteta que quer retribuir a acolhida da sua família. Um carioca que roda o mundo trabalhando com artesãos. Uma aposentada que criou uma opção de lazer para quem trabalha no condomínio onde ela mora. O encontro destes três personagens promete transformar a vida dos moradores do povoado de Córrego Ferreira, no Vale da Serra da Moeda. Juntos, eles participam de um projeto de capacitação para a comunidade, que começou em abril com um grupo de bordadeiras. O objetivo é desenvolver técnicas, noções de gestão, vendas e gerar uma renda extra para estas mulheres.
 
A história da arquiteta Nao Ishii Yuasa com a região é antiga. A família dela, de origem japonesa, habitou uma fazenda ao pé da Serra da Moeda por quase 40 anos. A avó, descrita como uma pessoa muito cativante, formou um grupo de cerâmica e até hoje influencia os artistas de lá, que continuam a usar a técnica japonesa de queima. A mãe fazia queijos e embutidos, enquanto o pai, engenheiro, construiu ponte e levou a piscicultura para a região. “Eles foram introduzindo muitas novidades na região e criaram uma relação muito forte com a comunidade”, aponta.
 
No momento, as mulheres bordam uma colcha com desenhos inspirados na Festa do Congado(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
No momento, as mulheres bordam uma colcha com desenhos inspirados na Festa do Congado (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 
 
Nao foi morar cedo em São Paulo, mas, como filha única, teve que voltar para assumir a fazenda quando o pai faleceu, há oito anos. Logo ela percebeu que seria inviável continuar com a criação de gado, pois era difícil encontrar mão de obra, e optou por fazer um loteamento. Mas não poderia ser um projeto qualquer. Antes mesmo de colocar os terrenos à venda, ela decidiu investir na capacitação de quem faz trabalhos manuais na comunidade para que se beneficiem do novo empreendimento. “É um jeito moderno de resgatar a história dos meus pais e avós e retribuir à comunidade a acolhida deles.”
 
Mercedes Maia sonha em ganhar dinheiro com o bordado(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Mercedes Maia sonha em ganhar dinheiro com o bordado (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 
 
Não fazia sentido, para Nao, criar um museu. A vontade dela era pensar em um projeto tão dinâmico como foi a relação da sua família com a comunidade, e que deixasse uma herança para os moradores. Como sempre gostou de trabalhos manuais (ela já teve joalheria e hoje transfere o mesmo significado da joia para objetos de decoração), a arquiteta voltou seu olhar para os artesãos, a começar pelas bordadeiras. “Quero dar novas oportunidades para estas mulheres, porque é muito triste ter como única opção a faxina. Pela arte, a pessoa tem o trabalho reconhecido e ganha autoconfiança”,
destaca.
 
Renato Imbroisi foi o escolhido para conduzir o projeto na Serra da Moeda. Ele é carioca, mas tem um pé fincado em Minas. Há quase 35 anos, se instalou em Muquém, distrito de Carvalhos, no Sul de Minas, onde desenvolve um trabalho contínuo com artesãos locais. Hoje se orgulha de já ter participado de mais de 200 projetos em todos os estados brasileiros capacitando de rendeiras a escultores. Também atua em países africanos, como Moçambique e São Tomé e Príncipe (foi inicialmente contratado pela mulher de Nelson Mandela para dirigir uma escola de artes e oficios).
 
Desde abril, já foram três encontros com as bordadeiras. O primeiro desafio foi ajudar estas mulheres a encontrar uma identidade para os seus riscos. O caminho ficou claro quando Renato participou da Festa do Congado, no fim de setembro: seguir a tradição. “Quero que elas tragam o colorido, a alegria e principalmente a força de organização da festa para os bordados.” O professor e sua equipe também ensinam todas a desenhar e costurar. “Temos que mostrar desenhos autorais, porque cada uma tem um olhar, um traço, um colorido. Isso é valorizar o artesão que vira criador.”
 
Com sua experiência em capacitar artesãos, o carioca Renato Imbroisi ajuda a dar identidade ao trabalho das Meninas do Vale Paraopeba(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Com sua experiência em capacitar artesãos, o carioca Renato Imbroisi ajuda a dar identidade ao trabalho das Meninas do Vale Paraopeba (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 
 
O próximo passo é estudar como aumentar a produtividade das bordadeiras, já que Renato quer lançar a primeira coleção em abril do ano que vem, com uma linha têxtil completa, incluindo colchas, toalhas de mesa, jogos americanos, guardanapos e bolsas.
 
A inspiração para os primeiros trabalhos vem dos mosaicos com restos de azulejos que o carioca viu em muitas casas da comunidade. Os retalhos de tecidos, que já se juntam em algumas peças, acabam tendo um significado forte. “Pensei na ideia de juntar os cacos e unir as histórias”, destaca Renato. Apesar da distância, os moradores de Córrego Ferreira também sofreram os impactos do rompimento da barragem de Brumadinho e querem mostrar para o mundo que a cidade não se resume à mineração.

O grupo Meninas do Vale Paraopeba se formou há dois anos por iniciativa de Ângela Vidigal. A aposentada trabalhou durante muito tempo com educação e arte e, quando se mudou para o Retiro do Chalé, sentiu falta de alguma atividade para entreter quem trabalha nos condomínios. “A região se beneficiou muito dos condomínios, só que as mulheres não tinham nenhuma opção de lazer”, aponta. A iniciativa começou como um encontro para bater papo, trocar receitas, ouvir música, dançar, depois o bordado foi ganhando força entre as participantes.

CONGADO Inicialmente, as mulheres se encontravam na sede dos congadeiros. Por isso, surgiu a ideia de fazer uma toalha para enfeitar o altar no dia da festa, realizada uma vez por ano, o que uniu de vez o grupo. Em azul e branco, a toalha tinha vários bordados com personagens, instrumentos musicais, flores e outros símbolos da Festa do Congado, uma das mais importantes da região. “É um processo longo, que já dura seis meses, mas vai continuar, porque promove o encontro da identidade e da autoria. Quando a mulher borda um congadeiro, sente que seu trabalho tem mais significado”, diz Ângela.
 
Se antes as bordadeiras copiavam modelos de revistas, agora elas fazem os seus próprios desenhos e aproveitam para contar um pouco da sua história e mostrar as riquezas da região. Ângela acrescenta que o grupo tem aprendido novas técnicas, que enriquecem bastante o trabalho, como o bordado de fita, que deixa as capas de almofadas muito mais coloridas.
 
Bordar elementos do Congado faz muito mais sentido para Mercedes Maia, mais conhecida como Nega. Há pouco mais de um, ela assumiu o posto de Rainha Conga, no lugar da tia, e se sente muito feliz de homenagear a festa usando as linhas. “Acho muito bom mostrar o Congado. Ainda não aprendi a desenhar, mas tenho vontade”, diz a bordadeira, que capricha nos contornos dos instrumentos musicais, entre eles patangome e caixa. Em pouco tempo, ela aprendeu novos pontos e um pouco de crochê. Nega também trabalha como quitandeira, mas, se der para ganhar dinheiro com o bordado, ela vai agradecer.
 
O grupo começou com 20 mulheres e agora já são 30. Juntas, elas alugaram uma casa para organizar o maquinário e facilitar a produção. Ângela conta que, no início, todas estranharam, porque até então era um trabalho descompromissado. Agora elas cumprem horários e metas, mas sempre com um sorriso no rosto. A possibilidade de ter o esforço reconhecido enche o grupo de alegria e motivação. “Somos muito gratas a esta oportunidade que caiu do céu. A maioria das mulheres continuam como faxineiras, mas estão vendo uma perspectiva de renda extra”, comemora a fundadora.
 
Com duração de dois anos, o projeto de capacitação das bordadeiras está só no começo. Renato Imbroisi adianta alguns planos, como bordar desenhos característicos das cerâmicas da avó de Nao, Toshiko Ishii, e fazer as roupas do rei e da rainha do Congado para a festa do ano que vem. Outro desejo é bordar mantos para saltos de parapente, o que seria um voo (literal e simbólico) dos bordados da região. “É uma realização quando consigo passar conhecimento, tirar a criatividade de cada uma e deixar um legado”, comenta o carioca, que também ajuda na parte de gestão e vendas.

Nao Ishii Yuasa acrescenta: “A ideia é que seja sustentável. Que, quando formos embora, elas continuem com o trabalho e se tornem independentes”, avisa a arquiteta, que tem vontade de capacitar outros grupos, envolvidos, por exemplo, com gastronomia, instrumentos musicais, cestaria e cerâmica.


Publicidade