Publicidade

Estado de Minas

Busca por cores

Expert em história do design brasileiro se volta para o universo cromático em nova pesquisa


postado em 04/08/2019 04:08

(foto: Bárbara Dutra/Divulgação Bárbara Dutra/Divulgação Bárbara Dutra/Divulgação )
(foto: Bárbara Dutra/Divulgação Bárbara Dutra/Divulgação Bárbara Dutra/Divulgação )

 

 

 

Para enfrentar uma fase difícil, Ethel Leon mergulhou em livros sobre cores. E assim encontrou uma nova perspectiva do design para explorar. A pesquisadora carioca se diz completamente fascinada pelas histórias por trás do vermelho, do azul e de outras tantas cores que fazem parte do nosso dia a dia e já demonstra interesse em aprofundar os estudos no tema, ainda pouco difundido no Brasil. Ethel esteve esta semana em Belo Horizonte para a segunda edição do curso História cultural das cores – a primeira foi realizada em São Paulo – e falou sobre alguns momentos da sua carreira.

 

A sua formação inicial é em 

comunicação, certo?

Formei-me em teoria da comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Gostava de escrever e imaginava que seria jornalista da área cultural. Sempre fui ligada às artes, sempre li muito, sempre visitei muitos museus com os meus pais. Aliás, me lembro de uma viagem a Belo Horizonte, quando era muito pequena. Não me esqueço de uma foto do meu pai olhando um quadro em algum museu.

 

Como você se envolveu com o design?

No Rio, as escolas de comunicação e desenho industrial tinham uma certa conexão, e eu gostava muito de design gráfico. Na minha carreira em São Paulo, trabalhei em revista de artes plásticas e, a certa altura, fui para uma revista de livros. Lá, tive que fazer uma matéria sobre capas de livros e conheci o João Baptista da Costa Aguiar, que infelizmente faleceu há dois anos. Ele me abriu muito essa área de interesse. Foi o cara que fez toda a programação visual da Companhia das Letras, depois trabalhou para a Prefeitura de São Paulo. Fiquei absolutamente fascinada por ele e comecei a escrever sobre o trabalho dele. E, para escrever, comecei a estudar sozinha. Em São Paulo, havia dois cursos de design, nenhum público. Era casada, tinha filhos, e não tinha como fazer. Depois fui trabalhar em uma revista de arquitetura e design e me envolvi para valer com a área. Até que achei que tinha que sistematizar minhas pesquisas e resolvi fazer mestrado, depois doutorado, na área de história e fundamentos na Universidade de São Paulo (USP). É meio pretensioso falar que sou historiadora, mas ensino sobre história do design europeu, norte-americano, da América Latina. Sei pouquíssimo sobre Japão e Oriente Médio, nada de África. É uma falha da formação no Brasil.

 

Por que você se interessou 

pela história do design?

Acho que tem a ver com a minha formação em humanas. Quando fui fazer o curso de arquitetura, não ia para a área de projetos. Nunca projetei nada, não sei nada de projetos. Hoje em dia, depois de muitos anos de experiência, sei avaliar projetos, mas com muita humildade. Também fiz curso de sociologia.

 

O fato de haver pouca bibliografia nesta área incomoda você?

Lecionei durante 16 anos na Faculdade de Campinas, quatro horas por semana. Eram dois semestres de história geral e um de design do Brasil, e vivia um inferno. Pelo menos 98% da minha bibliografia não era em português. Tinha que traduzir textos, insistir que os alunos lessem em outras línguas. A área da história do design do Brasil ainda é muito pouco desenvolvida.

 

Por que existe esta falha?

Arriscaria dizer que o primeiro curso de design em universidade pública, que foi no Rio, acabou tendo uma concepção maior do fazer, da prática, o que é muito bom, mas havia uma certa falha. Por outro lado, se a gente pensar, a área do design é muito jovem mundialmente, existe sociedade internacional de design dos anos 1980 para cá. Aqui em São Paulo, abriu curso público há 10 anos, é muito pouco tempo. Nas escolas particulares, predominou a concepção mais do projeto e do professor profissional, o que é muito bom, absolutamente não desmereço isso. Tem também a tradição no Brasil, que vem da Bauhaus e da Ulm, que surge depois da Segunda Guerra Mundial, na reconstrução da Alemanha. Essas duas escolas alemãs, que foram muito importantes no Brasil, não tinham história, porque foram formadas naquele momento das vanguardas, de romper com o passado. Não é a visão que tenho. A história é necessária justamente para entender o presente. Sem o passado a gente não se entende, e muito menos planeja o futuro. Tenho um livro sobre a primeira escola de design do Brasil, o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) do Masp, inaugurado em 1951. Essa escola foi formada por italianos e na Itália não tinha curso de design. Fizeram uma escola bem original e lá se estudava história. Depois a Escola Superior de Desenho Industrial no Rio veio com toda essa linhagem, mas a história sempre foi bastante recusada.

 

Foi isso que levou você a escrever tantos livros?

Não, os livros foram acontecendo. Primeiro, uma editora me encomendou 50 verbetes sobre o design brasileiro. No fim, fiz 73. Em seguida, o meu mestrado virou livro. Depois uma universidade me encomendou uma pesquisa em Santa Catarina. Lá teve o famosíssimo laboratório de desenho industrial, LBDI, que reuniu, inclusive, vários mineiros importantes, como Eduardo Barroso e Marcelo de Resende. Era uma história que estava completamente enterrada, os documentos tinham sumido. Depois escrevi um livro sobre Michel Arnoult, um francês que foi dono de uma empresa importante no Brasil, a Mobília Contemporânea. Sempre quis pesquisar a vida dele, que é interessantíssima. Eu e a filha dele inscrevemos o projeto no Itaú Cultural e fomos agraciadas. Escrevi mais da metade, mas chamei outras pessoas para contribuir. É o livro de que mais gosto. Depois disso nem tenho mais vontade de fazer livro nenhum. É um negócio muito problemático, todas as editoras estão em crise, o livro não é distribuído direito, não acham em lugar nenhum. Já me ofereceram para publicar o meu doutorado, mas não quero. Ele está no banco de dados da USP, qualquer um pode ir lá e ler.

 

Você sempre focou no 

design brasileiro?

Pesquisei pouca coisa fora do Brasil. Para escrever o livro do Michel Arnoult, fui buscar os arquivos mais mirabolantes da França, mas me interessava o trabalho dele aqui, o que ele trouxe na mala. Todo o meu trabalho acadêmico é centrado aqui, mas somos um país periférico, nunca fomos isolados no mundo. Brasil é uma invenção do mercantilismo e tem esse nome por causa do pau-brasil, a primeira atividade econômica da colônia Brasil. É o mesmo nome da árvore de onde se extraía um corante tão disputado. Brasileiro era o cara que negociava o vermelho do pau-brasil. Como país inventado pelo mercantilismo e pelo colonialismo, é impossível estudar história do Brasil sem estudar a história do mundo. Acho até que a gente estuda do jeito errado, tinha que estudar pela visão dos índios, que foram os primeiros habitantes dessa terra toda. Mas começamos a estudar a partir do momento em que a Europa aporta aqui.

 

Na sua opinião, qual é o momento mais efervescente do design no Brasil?

Se pensarmos em mobiliário, são os anos pós-Segunda Guerra Mundial até o fim dos anos 1960. Temos uma grande variedade de produção com madeira brasileira, com metal, compensado e uma vivacidade muito grande. Nesse período, também encontramos trabalhos excepcionais em design gráfico, como as capas dos discos da bossa nova. Muitas delas foram feitas em gravadora no Rio, onde trabalhava Cesar Villela. É uma produção visual e gráfica de altíssimo nível, e nem havia tanto recurso. Existem outros períodos com bons trabalhos, mas depende da área. João Baptista da Costa Aguiar, por exemplo, fez muitos cartazes dos anos 1990.

 

Não acha que tendemos a ser 

muito saudosistas?

Talvez você tenha razão. No design, vemos um boom do modernismo, uma coisa maluca. Outro dia, recebi e-mail de uma associação de lojas de São Paulo que vendem móveis modernos. No ano retrasado, me hospedei em Marais, em Paris, e por acaso descobri uma galeria que só vendia móveis modernos brasileiros. Em Nova York tem, na Inglaterra também, acho que é um boom internacional. As pessoas procuram esses móveis pela alta qualidade e pelas madeiras tropicais. Acho que existe mesmo um saudosismo. Falam que no período de JK o Brasil acreditava em si mesmo e no futuro, que tínhamos a esperança de nos tornar uma sociedade mais justa, democrática e industrializada.

 

E o que você acha desse movimento de valorizar móveis antigos?

Acho importante por dois motivos. Primeiro, por sabermos reconhecer o que já fizemos. Temos um problema seriíssimo com memória e história, desprezamos muito isso. Ninguém guarda nada. Você vai escrever sobre a história de uma empresa e não encontra nenhum documento. Acho bom ver as pessoas, de alguma maneira, reverenciando o nosso passado. Por outro lado, tem a questão socioambiental. Há pouco tempo, peguei na casa dos meus pais duas cadeiras de jacarandá dos anos 1950 que estão perfeitas, são lindíssimas, e espero deixá-las de herança para os meus filhos. Acho bom não ficar trocando móvel todo ano. Se o móvel durar, seja física ou simbolicamente, por que jogá-lo fora?

 

Já superamos a cultura da cópia?

Nos últimos anos, vemos uma valorização grande do autoral nos projetos. Uma empresa em Minas que nunca ninguém estudou e que sempre fez isso é a Itatiaia. Ela fazia móveis populares de cozinha, armários de aço, e me lembro de que, há mais de 20 anos, além de ter uma equipe interna de design, contratava consultores externos, inclusive um carioca e um alemão, e atitudes assim eram raras. Esse alemão foi responsável pelo redesenho dos trens na Alemanha. Ano passado, tive contato com a mineira Líder e fiquei maravilhada. Eles mudaram completamente a visão empresarial e estão com uma designer interna, que tem estímulo para projetar coisas novas (aliás, adorei o que ela fez), e também chamam consultores internacionais. Tem também a Alva Design, do Marcelo Alvarenga e da Susana Bastos. Mas temos um enorme problema, que é a nossa desindustrialização. Existe um monte de iniciativas pequenas, mas as fábricas de grande porte são poucas e o parque industrial está minguando. Um designer pequeno que abre uma marcenaria não tem como investir em avanço tecnológico e o fosso que se vai criando entre os países vai ficando maior. Estamos sofrendo drasticamente com esse problema.

 

Você enxerga alguma luz?

Por enquanto, não. Vejo muita gente talentosa, mas esbarrando em problemas estruturais. Talvez não esteja atualizada, mas não tenho visto projetos que avançam. Vejo até retrocesso na área pública. Outro dia vi uma lixeira aqui perto de onde moro que é um escândalo de horrorosa, errada em todos os sentidos. Alguém desenhou, alguém fabricou e isso teve um custo. Não vi ninguém debater isso. Esse é outro problema que temos na área do design, há muito pouco debate público.

 

O que acha de ser considerada 

uma grande incentivadora do 

design brasileiro?

Claro que fico feliz. Tive um aluno arquiteto e designer, reconhecido, que desenhou móveis a partir do que aprendeu no meu curso. Isso para um professor é extraordinário. Fiquei muito contente.

 

Você continua dando aulas?

Hoje em dia dou cursos livres. O curso de design da Faculdade de Campinas fechou, uma tristeza. Era bom, mas com a crise resolveram fechar. Aqui em São Paulo dou curso de história geral, de história do design brasileiro e agora curso das cores.

 

Como surgiu a ideia de falar 

sobre as cores?

Fui atropelada no início do ano, um acidente brutal. Passei por uma cirurgia seriíssima e ainda estou em recuperação. Voltei a andar há pouco tempo, fiquei três meses de cama. Foi muito duro, muito difícil, fiquei muito tempo deitada e resolvi aproveitar para ler. Li como uma louca. Brincava que só queria livros com mais de 500 páginas, porque leio muito rápido. Já tinha a ideia de dar curso de cores, aí, nesse período sabático forçado, resolvi rever a minha bibliografia e percebi que já tinha estofo suficiente para um curso introdutório. Venho estudando este assunto desde 2008. Comprei o primeiro livro na França e não parei mais, fiquei fascinada. Preparei as aulas e dei o primeiro curso em São Paulo. Foi genial. Tive alunos arquitetos e designers, de moda, artes plásticas, foi muito variado.

 

Sobre o quê você fala no curso?

Não é psicologia nem teoria da cor, é história das cores e disso não existe uma imensa bibliografia. Sei de dois historiadores no mundo, um francês e outro norte-americano. É muito fascinante o mundo da cor como símbolo, como prática social, entender as transformações, o que foi o vermelho e o que é hoje. O azul era uma cor completamente desprezada na Grécia antiga e hoje virou a preferida no mundo inteiro. Acho muito interessante tentar descobrir os meandros. Isso passa pela história da moda, da economia, da religião. Acho que vou fazer a minha próxima pesquisa ligada ao assunto cores, tem muito para ser estudado. Dia desses fui estudar o livro de um historiador norte-americano sobre destruição da mata atlântica. Tenho que ir em assuntos diferentes para entender a história das cores.

 

Pensando em futuro, o que você ainda planeja fazer?

Este ano foi muito esquisito por causa do atropelamento, ainda estou em tratamento. Ia dar curso o ano inteiro, ia visitar com um grupo de exposições da Bauhaus na Alemanha, tinha viagem marcada para a bienal de design em Nova York, mas ainda tenho muita dor no pé. Estou em um período instável, mas, se tiver coragem, quero fazer pesquisa de cores ligada a um tema brasileiro. Por exemplo, o pau-brasil. Não a história do pigmento, entender as relações que se deram, mas isso é uma vaguíssima ideia. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade