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Estado de Minas

Flerte com a ioga

Joana Vilela comanda a Manas, marca inspirada na prática da kundalini e no seu estilo de vestir


postado em 04/08/2019 04:08 / atualizado em 05/08/2019 09:12

(foto: marcelo poleze/divulgação)
(foto: marcelo poleze/divulgação)


Fora das grandes feiras ou desfiles, pequenas marcas vão surgindo buscando lugar no concorrido mercado da moda. Basta pesquisar com cuidado para encontrar empreendedoras corajosas que se arriscam abrindo seus negócios, elaborando coleções enxutas, prospectando clientela que se identifique com o produto que estão propondo.
 
Enquanto algumas sucumbem diante das dificuldades, outras conseguem sobreviver às primeiras tentativas, prosperam e seguem em frente. É o caso da Manas, de Joana Vilela, que já está em seu segundo ano. Como tudo tem seu início, o da estilista veio com a kundalini ioga, prática relacionada com algumas regras e simbologias no vestir, entre elas o uso do turbante e o da bandha, espécie de vestido com abertura lateral para permitir conforto e movimentação do corpo.
 
“Entrei para a ioga e me apaixonei completamente. Comecei a observar que muitas das mulheres que praticam a kundalini não usavam as roupas só para fazer as aulas, mas também em acontecimentos urbanos, como os encontros dos alunos, entre outras situações. Notei que ali existia um nicho de mercado”, conta Joana, cuja vida profissional já passou por várias etapas.
 
O que costura todas elas é a veia artística e a intuição, isso valendo para tudo que se refere à área de criação. Durante sete anos, atuou na área de publicidade como designer. Filha de Saul Vilela, arquiteto e artista plástico, deixou o design de lado para seguir os passos do pai. Começou a pintar no estilo abstrato para depois focar no figurativo, particularmente no rosto de mulheres com pescoços alongados, que lembram as pintadas por Amedeo Modigliani. “Desenho mulheres desde a minha adolescência e elas foram surgindo no meu trabalho de forma imperativa. Cheguei a fazer exposições no Espaço A, da Alphorria, e na Arte Basel, em Miami. Mas sempre gostei de moda e cheguei a ela por meio das criações para a kundalini ioga”, revela.
 
A intenção era inventar algo diferente para esse público, que fugisse das vestimentas tradicionais, extrapolando o conceito, mas oferecendo conforto e praticidade por meio da modelagem e da utilização de tecidos de fibras naturais, como o algodão e o linho. “Sou amiga e comadre da Bárbara Maciel, da B.Bouclé, e foi a primeira a quem comuniquei a minha ideia. O objetivo era uma sociedade, daí o nome Manas, simbolizando a nossa amizade. Fizemos juntas a primeira coleção, ela me deu esse impulso inicial, que foi muito importante”, relata.
 
Na segunda coleção, já dentro do caminho solo, ela passou a flertar mais de pertinho com o mercado fashion, se descolando da kundalini para se  inspirar, cada vez mais, no seu próprio estilo de vestir. “Sempre tive dificuldades de encontrar o que queria nas lojas convencionais. Gosto de roupas mais largas, com volumes, bem urbanas, que me ofereçam conforto e bem-estar, que possam ser usadas com tênis e sapatos baixos. E é isso que a marca se tornou”. Outra inspiração de Joana foram as coleções da estilista mineira Sônia Pinto, famosa pelo minimalismo e pela modelagem precisa, de quem Joana é grande admiradora e de quem já foi cliente. 
 
O perfil das clientes e a forma de trabalhar o produto também foram se delineando com o passar do tempo. Segundo o desejo da estilista, a Manas seria autoral, slow fashion, feita na medida para mulheres que curtem peças atemporais, diferenciadas e com qualidade. “Tento ao máximo possível trabalhar com tecidos naturais, embora o custo seja mais elevado, o que interfere no preço das peças, mas minha clientela valoriza esse cuidado. É um público fiel, que sempre me prestigia”, garante. Essas clientes são garimpadas nas feiras voltadas para o kundalini, amigas que amam a proposta, consumidoras que tomam conhecimento da Manas por meio do Instagram. "Existe uma identificação das pessoas", ela resume ao tentar traduzir a    preferência.
 
 
Feeling
 
Fora o linho e o algodão, ela arrisca algumas novidades, como a renda, uma malha de bom caimento, um pelinho em uma peça, que aparecem, agora, na coleção de inverno. Os tons claros predominam na cartela de cores, principalmente o branco e o off white, adotados preferencialmente pelos adeptos da kundalini yoga. Mas, nesta estação, o preto também se tornou uma opção, assim como o mesclado marrom. Na busca por matérias-primas apropriadas, a estilista flerta com a sustentabilidade sempre que é possível, porque esse é um valor importante para a marca. Outro dado: levando em conta o público cativo da ioga, ela evita as estampas, focando nos padrões lisos. “Mas já usei a imagem de uma das mulheres que pinto como motivo de um print, lincando a arte com a roupa, e penso que essa seria uma alternativa interessante para se pensar”.
 
Em todo o processo, que vai da criação ao desenvolvimento do produto, Joana se considera totalmente intuitiva. “Sempre me interessei por moda, mas nunca frequentei uma escola, não tenho nenhuma formação específica. Também não me prendo à tendências. Vou me guiando pelo meu feeeling, por aquilo que gostaria de vestir”, afirma. Ela desenha as coleções, escolhe os tecidos, organiza os modelos e parte para a modelagem. “A pessoa que trabalha para mim é extremamente paciente. Essa etapa é muito importante para a construção da roupa e, muitas vezes, é ali, naquele momento, que vou descobrir o que realmente quero. Como tudo é inventado por mim, a peça-piloto, às vezes, demora a sair para a produção”.
 
O que, segundo ela, não compromete: afinal, o slow fashion tem a vantagem de não se ligar intrinsecamente ao calendário oficial de lançamentos. “Faço duas coleções por ano, verão e inverno, mas sem estar atrelada à data que o mercado estabelece. Sempre fiz tudo na calma e na tranquilidade, no meu timimg. Estou aprendendo”, ressalta. Atualmente, a Manas pode ser encontrada na PS Galeria, na Savassi.  Esta é a primeira experiência de Joana com um ponto de venda, embora já tenha levado sua label para bazares, como a Quermesse da Mary, e para as próprias feiras da kundalini ioga. Até então, toda a produção era comercializada exclusivamente em um showroom, que ela montou na sua casa, para atender no varejo.
O caminho do atacado é passível de ser percorrido, segundo a estilista, mas é muito determinante ainda para uma marca pequena. “Penso que essa é uma trajetória lógica, mas sei que envolve muita infraestrutura, particularmente uma política de preço e distribuição. Não quero que a roupa fique inviável para aquela pessoa que deseja comprar a Manas”. 

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