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Felicidade no palco

Longe da televisão, jornalista se envolve com o teatro e comemora novo momento da carreira


postado em 28/04/2019 05:08

(foto: João Caldas/Divulgação)
(foto: João Caldas/Divulgação)


Marília Gabriela anda sumida da televisão. O motivo não poderia ser mais justo: cansou de ser jornalista e apresentadora. No momento, ela escolheu se dedicar ao teatro e vibra com o rumo da sua vida. Gabi, como gosta de ser chamada, tem viajado o Brasil com a peça Casa de Boneca – Parte 2, em que interpreta a protagonista Nora Helmer, uma mulher que, séculos atrás, já tinha traços feministas. A personagem abandona casa e família em busca de identidade e retorna anos depois para oficializar o divórcio. A atriz, que, mesmo no palco, não deixa de ser jornalista, está em Belo Horizonte neste fim de semana e revela para o Caderno Feminino & Masculino o que pensa sobre assuntos que vão de casamento a fake news.


Como você define este momento da sua carreira?
Me defino como atriz, que é a carreira que estou seguindo agora. A partir do ano 2000, fiz teatro, novelas, minisséries. Esta é a minha sétima peça. Para um prazo como esse, realmente diria que não foram muitas peças, mas foram suficientes para me manter ativa e interessada.

Você continua longe da TV por opção?

Cansei da vida de jornalista. Não sei por quanto tempo, mas a princípio cansei. Fazia aquilo há muito tempo e fui me cansando. Em 2010, tinha três programas de entrevistas em três emissoras diferentes, e isso cobrava de mim tempo integral e dedicação absoluta. Estava ficando irritada com reunião de pauta, discussão sobre lista de convidados, isso e aquilo. Só tinha prazer no fim, na hora em que sentava e entrevistava alguém, mas o entorno virou uma irritação, então estava na hora de parar. Demorei para parar, porque estava preocupava com o pessoal que trabalhava comigo, mas avisei que estava muito cansada e, depois de dois anos, achei que todo mundo poderia se virar sozinho. Parei e comecei a me dedicar à carreira de atriz. Foi algo que me interessou absolutamente nesse período. Estou nessa fase de me dedicar completamente ao teatro. Essa é a minha escolha no momento.

O que você leva do jornalismo para o teatro?

É um outro tipo de exigência, mas acho que muito, muitíssimo do que aprendi, do que me treinei para ser jornalista e entrevistadora, carreguei para o teatro. Depois de tanto treinar, leio e ouço muito bem as pessoas, e no teatro você exerce isso. Ouve os atores com quem contracena, o diretor, o autor, você mesmo. Nesse processo de autoentendimento, por mais distância e olhar profissional que coloque, você está sempre lá, somos todos os personagens em cena. Também ouço muito bem a plateia. O ator em cena tem sempre que ouvir a plateia e isso pode trazer grande satisfação ou preocupação.

Você se descobriu mais feliz no palco?
Não mais feliz. Era muito feliz entrevistando pessoas, aquele mergulho no jornalismo me fez muito feliz, e hoje estou feliz como atriz.

Como o texto de Casa de Boneca – Parte 2 surgiu na sua vida?
Casa de Boneca – Parte 2 é um espetáculo pelo qual me apaixonei sem nem assistir. Depois de ler o texto, fui ver a peça nos Estados Unidos e confirmei: é isso mesmo, meu faro não falhou. Quando consegui comprar os direitos, me associei a uma produtora, a primeira que tive perto. Fernanda Signorini era quem produzia a peça de Gerald Thomas e hoje é minha parceira no teatro.

O que mais tocou você nessa história?
Primeiro, Nora Helmer é uma personagem marcante. Me lembro do texto de Henrik Ibsen e da respiração suspensa quando aquela mulher sai de casa e deixa tudo para trás, inclusive os filhos, para conseguir um lugar ao sol, ser alguém na vida. Quando vi que um jovem autor americano tinha dado vida a essa mulher de maneira absolutamente inesperada, voltando para casa 15 anos depois, falei: meu Deus, sempre quis saber o que tinha acontecido com ela. Outro ponto muito interessante é que, apesar dos pesares, essa corajosa mulher foi criada por um homem, Ibsen, e continuou sendo repensada por outro homem, Lucas Hnath, quem deu futuro a Nora. Isso me soa como uma esperança no ar. Acho bonito que dois homens sensíveis tenham construído uma personagem tão forte e com tanto desejo de liberdade. E você sabe de outra coisa interessante? Essa peça só conseguiu ser montada porque um homem investiu nela. Tive um mecenas que se ofereceu, nunca lhe solicitei patrocínio, que foi o Aguinaldo Silva.

De que forma essa história impacta o público?
A peça traz o julgamento de Nora, e não poupa nas falas do marido, da filha, uma jovem mulher, e da babá, que foi quem criou esses filhos que ela deixou para ir buscar uma identidade. A peça traz todo mundo coberto de razão e todo mundo sem razão. Mostra que há escolhas na vida e você paga por elas. Casa de Boneca – Parte 2 me põe diante de mim mesma, da minha história e diante de plateia que torço sempre para que tenha muitas mulheres e que elas se enxerguem e sejam espertas para se libertar. Me comove agora saber que há mulheres que se abalam com essa história. Sei de senhoras que ao final foram ao banheiro, choraram, enxugaram as lágrimas, deram as mãos aos maridos e voltaram para casa. Sei também de vários marmanjos que choraram vendo a última fala de Nora, que é um discurso de liberdade, de autoconhecimento, de silêncio para conseguir se ouvir. Não há como não se envolver. No mínimo, sentar e discutir. Um amigo disse uma coisa que jamais esquecerei: essa é a primeira peça em que ninguém usa o celular. É tudo tão envolvente que essa 1h30min passa de forma absolutamente dinâmica.

O tema da peça ainda é muito atual, não?
É um assunto tão lindo e tão importante e infelizmente tão atual, apesar de a peça se passar em 1879. O mundo mudou consideravelmente, mas não o suficiente. Estamos ainda em plena luta para conseguir respeito, igualdade e existência plena. Estamos enfrentando feminicídios, nossa existência continua muito injustiçada. Acho que, quanto mais acessíveis esses discursos, mais podem ser eficazes. Gosto de pensar que talvez tenha ajudado algumas pessoas, homens e mulheres, por menor que seja o número, colocando essa peça em cena.

O que a Nora Helmer tem de parecido com você?
Enxergo a coragem, a culpa, a irreverência, a doçura. Sou uma pessoa surpreendentemente doce, apesar de ser um ser humano meio destrambelhado, desengonçado e às vezes ríspido. Então, me enxergo nela em vários momentos da peça.

Como você enxerga hoje o casamento?
Tive a idade que tinha que ter para ser casada por três vezes. Fui feliz enquanto durou, mas acabou, acabou. No dia seguinte, nem falo mais sobre o assunto. A idade traz algum beneficio. Tenho uma cama deliciosa, ela é grande, gosto de lençóis bem branquinhos e tenho um edredom rechonchudo. Acordei uma manhã dessas e estava entrando luminosidade pela janela, fiquei deitada ali e passei a mão naquele redondinho do edredom e pensei: meu Deus, por que coloquei homem aqui algum dia na minha vida? Coloquei vários, mas não me arrependo. Naqueles momentos em que fiz isso, estava fazendo com convicção e prazer, mas não me casaria de novo. Se tivesse a chance de nascer velha – como o personagem do livro O curioso caso de Benjamin Button, de Francis Scott Fitzgerald, aproveitar a vida e, depois que cumprisse todos os compromissos, me casasse, talvez seria interessante.

Envelhecer é um problema para você?
Não é um problema porque não tenho um espírito muito responsável. Mantenho uma irresponsabilidade saudável, encaro a vida com muito bom humor, gosto muito de rir, de estar com muitos amigos, sou muito debochada, não me levo a sério, então a minha cabeça continua em ordem. Para a minha idade, o meu físico é privilegiado. Devo ter um DNA bastante forte. Na minha família, todo mundo morre de doenças pavorosas, mas, enquanto vivem, têm pernas ótimas. Acho que estou sujeita a ter uma doença gravíssima a qualquer momento, mas estou até agora inteira. Outro dia ouvi uma coisa engraçada de uma pessoa: odeio quando falam que envelhecer é lindo. Particularmente, tenho muita antipatia disso. Não tem nada de atraente em envelhecer, mas precisamos envelhecer com dignidade, diminuir os problemas físicos. De resto, não penso muito no assunto. Nesses ensaios da peça, andei fazendo malabarismos que talvez não devesse e estou com um problemazinho na lombar. Tenho feito fisioterapia e acupuntura e tenho que me lembrar de me alongar para tudo ficar no lugar.

Como você cuida da sua saúde?

Fiz ginástica e balé durante muitos anos, ioga até estragar os joelhos. Aí, para me recuperar disso, fui aconselhada a fazer pilates. Comecei em 2005 e nunca mais parei. Um mês depois me olhei no espelho, vi a minha postura, e decidi que era isso que faria na minha vida. Faço pilates de segunda a sexta e complementação aeróbica duas vezes por semana. Há uns 10 anos cuido da alimentação e agora alcancei equilíbrio, com hábitos saudáveis, então não me queixo. Tenho saúde para valer.

O que você pensa sobre o feminismo de hoje?
Tem um lado muito conservador, mas os movimentos tendem para o excesso quando existe muita contraposição. Lá atrás, o feminismo nasceu radical, as mulheres iam para as ruas e queimavam sutiãs. Na minha opinião, o movimento está renascendo hoje. Ele veio forte, mas daqui a pouco vai encontrar o equilíbrio. Desta vez, estamos lidando com algo que não existia, que é a internet. O que acontece hoje contra uma mulher na Índia, África, Estados Unidos ou Brasil se espalha pelo mundo inteiro. As mulheres agora se identificam umas com as outras, se sentem mais fortes e agora temos noção da proporção injusta de existência digna na sociedade. Não sou contra movimentos radicais.

Como você, como jornalista, tem lidado com redes sociais e fake news?
Ando horrorizada com o que temos vivido ultimamente. Estou um pouco aturdida. Não pensei que em 2019, aos 70 anos, pudesse me aturdir diante dos acontecimentos e suas consequências. Estou um pouco assustada, mas o que está aí é para se pensar.

Você se envolve em discussões?
Não gosto. As discussões ficaram tão burras e radicais, não há nuances, não há diálogo, você é apedrejado ou incensado, e não acho que deve ser dessa forma. Entrevistei tanta gente, tive que concordar e discordar tão minuciosamente de cada pessoa que sou treinada para ouvir todos os lados, mas o que estou vendo não tem nada disso. É um pega pra capar. Estamos vivendo tempos de intolerância inacreditável. Espero que isso não gere mais violência.

Como anda o seu lado cantora?
Que coincidência você me fazer essa pergunta. Fui convidada esta semana para participar de um programa de TV para cantar e disse não. Parei de treinar. Fiz aulas de canto em 2014, 2015 e cheguei a pensar em gravar um disco, me entusiasmei. Música é uma linguagem universal. Você pode cantar em esperanto ou seja lá o quê for que vai ser traduzido em qualquer país pelo sentimento e musicalidade. É uma pena que não tenho cantado ultimamente. Agora estou só atuando.

O que você achou da atriz que vai interpretar você no cinema? (o filme Hebe – A Estrela do Brasil estreia em dia 15 de agosto)
Tenho paixão pela Fabi Gugli, ela é uma puta atriz. Aliás, estou com um time maravilhoso, que eu mesma escolhi, a começar pelo Luciano Chirolli, ator que sempre admirei. Quando vi a peça na Broadway, ao lado do meu filho Theodoro, falei: é ele. A Clarissa Kiste, que faz a minha filha, estudou com o Theodoro e é amiga da família. Depois me deram três nomes para fazer a babá e escolhi a Eliana Guttman, que é parceira e amiga. A Clarissa teve que sair para fazer um filme, como já estava combinado, desde o início, então teria que ser substituída por um mês e uma semana. Dei o berro e falei que queria a Fabi Gigli. Antes de tudo isso, ela viu a peça e amou. Nesse período, ela fez a minha filha e ficou muito bem. Um belo dia, abro a internet e vejo uma foto dela ao lado da minha numa notícia contando que ela ia me interpretar no filme da Hebe. Foi uma coincidência brutal, são os deuses conspirando a favor.

Quais são os seus planos?
Acabei de dar uma fugida e fui a Nova York ver o que está se passando no universo do teatro rico, digamos. Além disso, comprei os textos de algumas peças para ler. É evidente que me interesso por vários deles, mas, por enquanto, decidi esticar a vida útil de Casa de Boneca, inclusive para dar mais chance para as pessoas conhecerem, embora seja muito difícil viajar com um espetáculo desses. Neste momento, as perspectivas não são as melhores. Enquanto não houver uma definição da vida cultural do país, acho difícil pensar em uma próxima montagem. Viemos a Minas com o espetáculo comprado. Isso é uma alegria, mas é raríssimo. Se não conseguir esse tipo de parceria, vai ser muito difícil.

O que você ainda tem vontade de fazer na vida?
Queria ter sido bailarina. Não sei se mentiam para mim quando diziam na família que eu era muito grande e não podia ser bailarina. Acho que a gente era pobre mesmo e os meus pais não podiam pagar por isso. Mas continuo sonhando. Esse sonho está aqui, intacto.


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