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Estado de Minas

Especial por sua simplicidade

Ela será lembrada como alguém que fez diferença para cada um daqueles que para ali se dirigiram. E de fato não é o que deveria nos bastar?%u201D


postado em 24/02/2019 05:08

 

 

A morte da mãe de uma grande amiga minha completou dois meses semana passada. Ela tinha quase 80 anos e sofria de câncer generalizado, tendo vivido com a doença por muito mais tempo que o esperado pela medicina. Sempre que voltava ao hospital, onde havia feito a cirurgia para remoção de um dos pulmões há cerca de cinco anos, os médicos faziam questão de tirar fotografia ao lado dela, como forma de documentar para uns as peripécias da ciência e para outros os milagres ou a misericórdia de Deus.


Algumas poucas vezes fui escalada para levá-la às seções de quimioterapia o que me deu a oportunidade de ouvir os casos de comadres e compadres que nunca tive a chance de conhecer, mas que valeram para reafirmar o quanto a vida no interior pode ser mais afetiva e descomplicada que na cidade grande. Infelizmente quando ela faleceu eu estava fora e não pude acompanhar o velório, uma verdadeira comemoração da vida e dos laços de amizade.


Ocorrera no interior, na pequena propriedade rural da família próximo a Belo Horizonte. Para lá se dirigiram pessoas de todos os cantos, chegando seja pelas trilhas e caminhos traçados na terra pelos pés de homens e patas dos animais, como por vans que cataram uns e outros que não tinham como ir a pé. Em meio a eles, várias sacolas contendo ingredientes saborosos que em pouco tempo se transformaram em quitutes e guloseimas a serem colocados sobre a mesa onde já estavam as carnes de animais criados ali mesmo no terreiro, preparadas às pressas para alimentar e temperar a boca daqueles que para lá se dirigiram com o objetivo de lembrar as peripécias e a força que aquela mulher desempenhara na localidade nas tantas décadas que ali viveu.


Bem sincronizadas, havia pessoas com tarefas predeterminadas sem a necessidade de alguém que as mandassem fazer. Uma assumiu o café, outra o forno com os biscoitos ou o pernil, outra se preocupou em manter as bilhas d’água cheias. Entravam e saíam da sala principal sem serem percebidas como se tudo aquilo brotasse naturalmente, como em banquetes mitológicos.
Não foi alguém a quem a sociedade ou as mídias chamaram de especial, sua morte não foi noticiada no papel nem na TV e muito menos recebeu coroas de flores. Ela será lembrada como alguém que fez diferença para cada um daqueles que para ali se dirigiram, porque teve um desempenho especial em momentos silenciosos em que cada um deles necessitara. E de fato não é o que deveria nos bastar?


Ao saírem em comboio, primeiro pela estrada, depois pelas ruas da cidade em direção ao cemitério, para traz ficaram algumas pessoas que, preocupadas com o retorno da família, fizeram questão de recolocar os móveis no lugar, lavar as vasilhas e recolher o que restou do momento da despedida. Afinal, nada como um dia atrás do outro para nos atestar que a morte faz parte daquilo que plantamos e colhemos em vida e como tal deve ser vista como um momento especial por sua simplicidade.


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