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Estado de Minas

De brincadeira de criança à maison

Prazer de infância que se transformou em negócio e comemora 30 anos de mercado


postado em 06/01/2019 05:06



A empresária belo-horizontina Marília Pitta nasceu com o dom da costura, e é a caçula de uma família de três filhos. Casou-se cedo, teve quatro filhos e só se dedicou ao trabalho depois que a filha mais nova completou dez anos. Sua brincadeira de criança era costurar roupas para a única boneca que teve, que acompanhou toda sua infância e adolescência. Hoje, é proprietária de uma maison que leva seu nome, onde as clientes encontram roupa casual, de festa e até mesmo vestidos de noiva. Marília nunca reclamou de nada, tem como filosofia de vida ver sempre o lado positivo de tudo e ensinou aos filhos que problemas todo mundo têm e sempre tem alguém com uma dificuldade maior que a deles. Seu exemplo é de dinamismo, otimismo e perseverança. Este ano, a grife Marília Pitta completa 30 anos de mercado.

 

Sua família é de Belo Horizonte?
Meus pais se conheceram em Lavras, cidade natal de minha mãe Edith Pitta. Meu pai foi estudar no Colégio Gamon, referência na época, e a conheceu lá. Ele é engenheiro agrônomo e por isso morou muito tempo no interior. Depois de casados vieram para a capital, porque ele foi trabalhar na Camig.

Como foi sua infância?
Normal, tranquila. Eu brincava muito de boneca. Naquela época não existia essa diversidade grande de bonecas como tem hoje, era uma só e ela me acompanhou na infância. Na verdade, gostava de brincar de fazer roupa para ela.

Como assim?
Minha mãe tinha uma máquina de costura, porém não gostava muito de costurar. Naquela época as máquinas eram de pedal, não sei dizer com que idade já costurava na máquina, mas lembro que meus pés não alcançavam o pedal, era a maior dificuldade. Até que um dia minha mãe conseguiu colocar um motorzinho nela, aí foi a maior alegria, estava com a vida feita. Costurava o tempo todo.

O seu lazer era costurar?
Era. Minha brincadeira de criança era costurar, isso me dava o maior prazer e alegria. Lembro que certa vez, nas férias, fomos para a casa de uma tia em São Paulo e lá eu vi, pela primeira vez uma máquina que fazia zigue-zague. Isso para mim foi maravilhoso, era um novo universo cheio de possibilidades que se abria. Todos saiam para passear eu ficava na casa costurando. Sempre pedia um retalho, um pedacinho de pano e costurava roupinhas lindas para a minha boneca com zigue-zague.

Quem te ensinou a costurar?
Ninguém, aprendi sozinha. Simplesmente pensava em um modelo sentava na máquina e fazia. Várias vezes, ainda criança, desenhava uma roupa que eu queria e pedia minha mãe para fazer para mim. Ela achava ruim, na maioria das vezes preferia comprar a roupa pronta, mas naquela época as ofertas eram poucas. Morávamos na Serra e lá tinha uma butique,onde mamãe comprava nossas roupas.. Mas eu gostava mesmo era de ir ao Centro e ver as lojas. Tinha a Guanabara que era loja de departamento, a Sloper que tinha roupas lindas, mas o chique mesmo era a Sibéria, e era meu sonho dourado ter uma roupa de lá, porém não tínhamos condições financeiras para comprar lá. Quando minha mãe não queria fazer o vestido eu mesma fazia.


De onde herdou esse dom para costura?
Meu avô materno era alfaiate. Ele fazia os paletós e minha avó fazia as calças. Mas eles não me ensinaram nada, porque ele morreu quando eu era criança e minha avó quando eu tinha 8 anos. E ela não morava em Belo Horizonte, e quando vinha aqui ficava a casa de minhas tias.

Como a roupa dava certo?
Não sei explicar, mas ficava certinha. Nasci com jeito para o ofício.

Com todo esse dom, não fazia roupa para vender?
Desde a pré-adolescência eu já fazia vestidos para minhas amigas. Elas viam as peças que fazia para mim e pediam para fazer para elas. Casei muito cedo, aso 20 anos, logo depois de me formar no normal no Colégio Izabela Hendrix. Aos 25 já estava com meus quatro filhos. Quando os levava para o colégio as mães dos coleguinhas encomendavam roupas, eu fazia e vendia.

Por que não abriu um negócio?
Com quatro filhos pequenos, em escadinha, não dava tempo para nada. Queria dar presença, me dedicar a eles. Fazia uma ou outra coisa em casa. Só abri minha fábrica quando minha caçula, Raquel, fez 10 anos, com total apoio do meu marido. Por sinal foi ele quem sugeriu, mas desde antes de abrir a fábrica ficava enlouquecida para trabalhar. Lia no jornal sobre as feiras de moda e ficava doida para participar.

E quando abriu a fábrica?
Em outubro de 1989. Já comecei participando de uma feira que a Sarah Vaintraub fazia no Othon Palace. Meu produto principal era camisaria. Fazia camisas de zibeline de seda, com aplicação de renda, detalhes sofisticados. Eram lindas. Vendi muito bem. Participei de muitas feiras aqui e em São Paulo. Minha filha mais velha, a Priscila, começou a me acompanhar aos 13 anos, e está comigo até hoje.

Ela também costura?
Não, mas se precisar, ela faz. É ótima em vendas e também na criação e com isso fazemos uma ótima dobradinha: nós duas no estilo, eu na costura, comandando a turma e ela no atendimento ao cliente. A Raquel também está conosco, mas fica cuidando das coisas administrativas e práticas, mas é nosso braço direito. Quando precisa ela também atende e muito bem.

Como decidiu a abrir a loja?
Estava procurando um espaço para mudar a fábrica e me interessei pelo BHZ Fashion Mall, na Rua Paraíba, onde ficava a maioria das marcas do Grupo Mineiro de Moda. Ronaldo, meu marido – que apesar de seu trabalho é quem cuida do nosso financeiro desde que comecei o negócio – começou a negociação com o proprietário do imóvel e eu dei continuidade. Foi nesse momento que ele questionou porque não abrir uma loja. Isso me instigou e abrimos ali nossa primeira butique. Ficamos lá muitos anos, cheguei a ter duas lojas, uma para ponta de estoque, depois decidi mudar para uma casa e viemos para o atual endereço, há 18 anos, aqui na Bias Fortes, porque eu morava aqui pertinho.

Com a loja, fechou o atacado?
Sim. É muito prazeroso trabalhar com o que se ama, mas este mercado não dá garantia. Os clientes fazem o pedido, não dão nenhum sinal, só pagam com 30, 60 e 90 depois que recebem a mercadoria, e algumas vezes, quando enviávamos a mercadoria, alguns devolviam dizendo que não queriam mais, e tínhamos que absorver o prejuízo. Preferimos fabricar apenas para nossa loja.

Começou com o casual chique. Quando passou para festa?
Minha roupa sempre foi mais trabalhada e chique, e naquela época as pessoas iam para os casamentos de vestido curto,  foi a partir daí que comecei a fazer vestidos mais trabalhados, para casamento. Em seguida, a moda levou as mulheres a usarem vestidos longos e acompanhei a moda, apesar de meus vestidos serem bem atemporais. A maioria dos tecidos e rendas que usamos são importados, mas temos também tecidos nacionais muito bonitos que atendem bem e o preço da roupa fica bem mais em conta. Alguns modelos são eternos, porque caem muito bem na mulher brasileira. Um deles é perfeito para mulheres mais encorpadas, que têm um abdome maior. Ele é seco, com um corte que favorece e emagrece bem. Certa vez, uma cliente veio aqui para fazer o vestido que usaria no casamento de sua filha. Pediu um modelo esvoaçante, bem solto para esconder o corpo. Antes de ela se decidir pedi que experimentasse o tal modelo. Ela ficou surpresa com o resultado. Fizemos na cor que ela queria. Ela ficou tão feliz e agradeceu muito. Isso é gratificante para nós. Nosso casual também mudou bastante. Quando comecei a vida da mulher era outra, hoje, a maioria das mulheres trabalha, tem que estar arrumada, mas com roupas mais práticas, que possam ser lavadas na máquina. Tem também a moda resort que chegou forte. Nosso casual antes era muito delicado, a maioria das peças tinha que ser lavada a seco. Hoje isso é quase inviável. Também temos peças de outras marcas.

O que levou você a entrar no ramo de noivas?
Foi mais ou menos por acaso. Entre esses modelos “eternos”, tínhamos um que era frente única e sobre ele vinha um tecido leve, importado, quase um brocado de dourado e prata. Uma noiva chegou aqui para olhar outra roupa e quando viu o vestido apaixonou e disse que queria se casar com ele. Fizemos uma versão com cauda e ficou lindo. Isso me despertou para este segmento. Além das roupas sob medida também representamos aqui a espanhola La Novia, que está presente nos cinco continentes. Ainda temos modelos deles, mas trabalhamos mais o sob medida.


Já está passando o negócio para as filhas e diminuindo o ritmo?
Não, eu amo trabalhar, amo o que faço, tenho prazer em vir para a loja, em costurar. Venho até quando estou doente. Fazer o que se gosta abastece a gente, em vez de cansar e desgastar, acredito que recarrega as energias. De 2007 a 2014 tive uma loja em São Paulo. Priscila e eu nos desdobrávamos, mas valia muito a pena. Quando minha filha teve seu primeiro filho ela parou de ir para São Paulo e fiquei sobrecarregada. Tinha uma funcionária excelente, mas ela foi trabalhar com a irmã, que estava abrindo um novo negócio. A partir daí ficou inviável e optamos por fechar a loja de lá.

Como é para você, completar 30 anos de marca?
Gratificante, mostra que estamos no caminho certo. Mesmo em meio a uma crise tão grande, conseguimos continuar. Isso demonstra nossa capacidade de criar e driblar os problemas.

A que atribui conseguir driblar a crise?
Ao nosso atendimento, nossa capacidade de perceber o desejo da cliente e propor o que lhe cai melhor. Outro ponto positivo em nosso trabalho é a agilidade com que fazemos uma roupa. Conseguimos fazer um vestido de um dia para o outro, desde que não tenha muito bordado, claro, e com isso conseguimos atender nossa cliente a tempo e a hora.


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