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Estado de Minas

Em Minas, escolas particulares também estão abaixo da meta de desempenho

Resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2017 mostram que a ineficiência na educação no país é generalizada. Em Minas, redes pública e privada ficaram abaixo da meta de aprendizado


postado em 10/09/2018 06:00 / atualizado em 10/09/2018 07:23

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

Os principais indicadores do ensino básico escancararam, nos últimos dias, a fragilidade e a ineficiência da educação no país. Nas salas de aula, português e matemática, simplesmente, não estão sendo aprendidos. O mais recente desses diagnósticos, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2017, divulgado na semana passada, mostra um caminho imenso ainda a ser percorrido para se atingir patamares minimamente aceitáveis. Se no resultado nacional os números são trágicos, mais catastróficos ainda são os individuais. Em Minas Gerais, nenhuma rede, seja pública ou privada, atingiu a meta de desempenho proposta para o ano.

O Ideb é uma iniciativa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), para medir o desempenho do sistema educacional brasileiro a partir da combinação entre a proficiência obtida pelos estudantes no Sistema de Avaliação Básica (Saeb) e a taxa de aprovação, indicador que tem influência na progressão dos estudantes entre etapas/anos na educação básica. Ele tem uma escala que vai de 0 a 10 – quanto mais alta a nota, melhor é o desempenho – e é medido a cada dois anos. Em cada edição, um alvo é estabelecido. Há uma meta nacional e também uma individual, por meio da qual cada estado, município, rede de ensino e até mesmo as escolas traçam um parâmetro, que é pactuado com o governo federal para ser cumprido no período e que leva em conta vários pontos, como características regionais e o histórico do diagnóstico.

Os resultados de 2017 ecoam um aprendizado pífio em português e matemática. No Ideb e no Saeb, a história se repete: os estudantes vão bem nos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano), derrapam nos finais (6º ao 9º ano) e culminam na grande tragédia que se tornou o ensino médio do Brasil, conforme palavras do próprio ministro da Educação, Rossieli Soares.

SUPERAÇÃO Nos anos iniciais, Minas Gerais vem superando as metas ao longo dos últimos anos, chegando a 2017 com 0,3 ponto acima do estabelecido. O Ideb total do estado (todas as redes de ensino) ficou em 6,5 – a projeção era de 6,2. Em Belo Horizonte, a meta vem sendo cumprida desde 2009. No ano passado, o índice foi de 6,3 – 0,2 ponto acima da projeção feita pela rede municipal (veja arte). Nos anos finais, o cenário muda. O Ideb do estado ficou muito abaixo do pretendido. A meta era de 5,2 e o alcançado foi 4,7.

Na comparação entre rede pública e as escolas privadas, o desastre é semelhante: a primeira ficou 0,5 ponto abaixo do estabelecido (4,5 contra 5) e a outra, 0,4 ponto a menos (7 contra 7,4). Em BH, as metas para os anos finais foram alcançadas até 2013. Em 2015 e 2017, a rede da Prefeitura não conseguiu o feito. Nesta edição do Ideb, ficou 0,2 ponto atrás da meta e na anterior, 0,1 ponto.

No ensino médio, o vão entre o resultado pretendido e o conquistado se amplia. O Ideb total do estado é de 3,9, frente a uma meta de 5,1. Na rede particular, o índice é de 6,3 para uma meta de 7,1 e na rede estadual, a diferença ultrapassa um ponto (Ideb de 3,6 e meta de 4,8). Não há dados para a rede municipal, pois o nível médio é de responsabilidade dos estados.

Outro parâmetro escancara a discrepância. Nos anos iniciais do fundamental, dos 753 municípios mineiros com meta calculada para 2017, 629 (83,5%) alcançaram o índice estabelecido. Minas Gerais é o segundo estado com o maior percentual, atrás apenas do Ceará (99,5%).

Já nos anos finais, a proporção despenca: apenas 21,6% das 847 cidades com meta calculada para esta edição (183) cumpriram o parâmetro pactuado. No ensino médio, a situação é para lá de crítica. O Ideb dos municípios foram analisados em quatro faixas diferentes – até 3,1; de 3,2 a 4,1; 4,2 a 5,1; e 5,2 ou mais. Quase 80% alcançaram pontuações que não chegam nem perto da meta nacional para o ensino médio (4,7).

DESAFIOS “Os avanços nos anos iniciais para todas as redes são muito altos. Os desafios surgem a partir dos anos finais, mas o maior deles é o ensino médio. E são desafios que vão se acumulando: de estrutura física das escolas, de formação adequada de professores, entre outros. Um conjunto de fatores faz com que quando se chega ao ensino médio eles sejam tão grandes e, assim, haja muito mais dificuldade para avançar”, afirma a coordenadora de Implementação do Itaú Social, Sonia Dias. Ela lembra ainda que do 6º ao 9º ano há um agravante: são períodos de grande retenção.

"NOTÍCIA TRÁGICA" As metas nacionais do Ideb também não são motivo de comemoração. Depois de três edições consecutivas sem alteração, o índice do ensino médio avançou apenas 0,1 ponto em 2017. De 3,7 em 2015, atingiu 3,8 em 2017 – a meta estabelecida para 2017 é de 4,7. “Foi um crescimento inexpressivo. Estamos muito distantes das metas propostas. É mais uma notícia trágica para o ensino médio do Brasil”, disse o ministro da Educação Rossieli Soares, durante a divulgação dos resultados. Em Minas, houve crescimento de 0,2 ponto, saindo de 3,7 em 2015 para 3,9 este ano. Os resultados do Ideb mostram que, apesar de o país ter melhorado seu desempenho nos anos finais do ensino fundamental, alcançando, em 2017, um índice igual a 4,7, a meta proposta, de 5, não foi atingida. O país segue melhorando seu desempenho nos anos iniciais do ensino fundamental, alcançando em 2017, um índice igual a 5,8. A meta proposta foi superada em 0,3 ponto.

Corrida contra as deficiências


Enquanto a taxa de reprovação nos anos iniciais do ensino fundamental é de apenas 2,6% em Minas Gerais, nos finais ela sobe e chega a 12,4% no 9º período. Na 1ª série do nível médio, salta para 28%. “As dificuldades do fundamental 2 vão se acumulando e, no 9º ano, a decisão de ir ou não para o ensino médio se coloca para muitos jovens, que não pensam em continuar por causa de deficiências que enfrentam ao longo do percurso escolar. Isso mostra que, para se ter resultado no ensino médio é preciso trabalhar em todos os níveis, mas, principalmente, o fundamental 2”, diz  a coordenadora de Implementação do Itaú Social, Sônia Dias.

A Secretaria de Estado de Educação afirmou, por meio de nota, que vem trabalhando para melhorar a qualidade de todos os níveis de ensino. Informou que, desde 2015, cerca de 55 mil jovens que estavam fora da escola retornaram aos estudos e que, nos últimos três anos, fez campanhas para levar de volta à sala de aula o estudante do ensino médio. Entre elas,  a Virada da Educação, com o objetivo de reverter a  evasão escolar. “Em 2015, cerca de 14% dos estudantes de 15 a 17 anos estavam fora da escola e 40% desses estudantes apresentavam distorção idade/série”, diz a nota.

Entre as medidas tomadas para a melhoria da qualidade, a SEE citou a abertura de turmas do nível médio no horário noturno; a criação da Rede de Educação Profissional, que ofereceu mais de 44 mil vagas em 34 cursos, e a oferta do Ensino Médio em Tempo Integral, hoje em 79 escolas. Na melhoria da aprendizagem, o destaque é para o Acompanhamento Pedagógico Diferenciado (APD), que investiu na ajuda específica a estudantes com maior dificuldade em leitura e escrita.

A Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte informou, também por meio de nota, que “os resultados do Ideb mostram que a rede apresentou avanços”. Acrescentou que são promovidas diversas ações, projetos e programas que abrangem o universo de conhecimento da educação infantil e do ensino fundamental. Leituras em Conexão e Gincana de Matemática são algumas das iniciativas relacionadas ao ensino de matemática e língua portuguesa. “Além disso, a secretaria investe na formação continuada dos profissionais”, concluiu o texto.

O Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG) foi procurado para comentar os resultados na rede, mas não deu retorno.

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