O vandalismo atravessou o samba, e a tarde de festa do carnaval de São Paulo terminou com cenas que nada lembram a alegria dos luxuosos desfiles no Anhembi. Uma confusão interrompeu a leitura das notas dos dois últimos jurados das agremiações paulistas e o que se viu em seguida foram lições de desarmonia dentro e fora do sambódromo. O problema começou quando um homem, identificado por imagens da TV como integrante da Império de Casa Verde, segunda das 14 escolas do Grupo Especial, invadiu a área onde estavam os jurados, agrediu o locutor com um chute e rasgou os papéis com as notas. No fim da noite, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo declarou a Mocidade Alegre, que liderava a classificação parcial, campeã. Camisa Verde e Branco e Pérola Negra foram rebaixadas.
A cena surpreendeu a comissão julgadora, que deixou o local protegida por seguranças contratados pela organização. Com a leitura dos votos interrompida e poucos policiais militares no isolamento do local, torcedores da Gaviões da Fiel, escola do Corinthians, e outras escolas na arquibancada começaram a jogar cadeiras perto da grade de proteção, que separava o público dos organizadores. O grupo derrubou as grades e invadiu a área restrita. Papéis com as notas das escolas de samba deixados sobre a mesa foram arremessados para o alto e rasgados.
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A apuração já havia começado com clima tenso, depois de um atraso de mais de 20 minutos. Representantes de cada escola foram convocados para uma reunião a porta fechadas, em que foi informada uma troca de jurados. Segundo a liga das escolas, jurados dos quesitos samba-enredo e mestre-sala e porta-bandeira passaram mal durante os desfiles e foram substituídos por suplentes. A troca é prevista no regulamento do carnaval, que já havia alterado o sistema de pontuação deste ano, permitindo qualquer tipo de fração decimal, o que acirrou a competição.
QUEBRADEIRA
Depois de deixarem o Anhembi, os torcedores iniciaram um quebra-quebra do lado de foram, na Marginal Tietê. Placas que separavam a via do sambódromo foram depredadas e arrancadas pelo grupo. Os vândalos chegaram a atear fogo a carros alegóricos que estavam na área da dispersão. Pelo menos duas alegorias da Pérola Negra foram completamente destruídas no incêndio. Acompanhados pela Polícia Militar, um grupo da Gaviões da Fiel seguiu a pé para a quadra da escola, localizada a cerca de dois quilômetros do Anhembi. O regulamento diz que será eliminada da disputa, e expulsa da liga, a escola que tiver qualquer integrante ou dirigente com comportamento inadequado, seja na concentração, dispersão, durante o desfile ou na apuração.
Detidos alegam combinação de resultados
Cinco pessoas foram presas até o início da noite de ontem, segundo o delegado da Deatur (delegacia do turista), Oswaldo Nico Gonçalves, entre elas Tiago Tadeu Faria, de 29 anos, da Império de Casa Verde, e Cauê Santos Ferreira, de 20, da Gaviões da Fiel. Outras três pessoas foram detidas, mas não tiveram os nomes divulgados. Os dois serão indiciados sob suspeita de dano ao patrimônio público, e a polícia ainda avalia um indiciamento por suspeita de furto, já que cédulas de votação dos jurados desapareceram.
O delegado afirmou que Tiago Faria é o homem que invadiu a área onde as notas eram lidas, agrediu o locutor e rasgou as notas. A polícia disse que ele faz parte da diretoria da agremiação, mas o vice-presidente da Império de Casa Verde, Paulo Ferreira, negou. “Ele nem estava na mesa com a gente.” A escola estava em 11º lugar até a interrupção, e não seria rebaixada para o Grupo de Acesso, a segunda divisão do carnaval. Ele disse ser contra a apuração do carnaval em local aberto e que, para ele, as notas deveriam ser divulgadas em teatro fechado, com a presença da imprensa e da diretoria das escolas. “Isso aqui tem de acabar. Tem três torcidas de futebol envolvidas, isso não dá certo.”
Tiago Faria e Cauê Santos Ferreira, presos ontem na confusão que interrompeu a apuração do título do carnaval de São Paulo, afirmaram em depoimento que havia “um acordo de cavalheiros” para que nenhuma escola saísse campeã ontem. A troca de dois jurados teria motivado o arranjo, que envolveria 13 escolas e apenas a “campeã”, que seria beneficiada pela troca, não teria participado do acordo, na versão dos presos. Eles não disseram qual seria essa escola. A Mocidade Alegre estava na frente, muito próxima do título, quando a leitura dos votos foi interrompida.
