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Estado de Minas CARREIRA

A importância da vulnerabilidade na entrevista de emprego

A cultura do sucesso fica evidente durante os processos seletivos, quando a glamorização do sucesso é exaltada. Todos são condicionados a esconder as fraquezas, seja dos colegas, liderança e gestores


postado em 08/08/2019 11:40 / atualizado em 08/08/2019 11:40

A empatia do recrutador é fundamental durante o processo de entrevista para o candidato se mostrar como é (foto: Amy Hirschi/Unsplash)
A empatia do recrutador é fundamental durante o processo de entrevista para o candidato se mostrar como é (foto: Amy Hirschi/Unsplash)


Aprender com os erros parece ter se tornado um discurso comum nas palestras motivacionais, nas capas de revista e nos aconselhamentos de carreira. "Se por um lado estamos quase cultuando o erro para aprender fazendo, por outro, ainda somos condicionados a ver nossos fracassos, vulnerabilidades e pontos de melhoria como uma fraqueza que deve ser escondida dos colegas de trabalho, liderança e gestores. Continuamos presos na glamorização do sucesso, onde dar certo ainda é o único caminho possível, principalmente quando o assunto é carreira", o alerta é de Dalton Morishita, headhunter na Trend Recruitment, graduado em administração de empresas com especialização em business pela Australian Professional Skills Institute.

Para Dalton Morishita, vivemos em uma sociedade na qual o sucesso é a meta e é fácil perceber a maneira como glorifica-se as coisas boas e mascara-se os acontecimentos negativos. "Abra sua rede social, qualquer uma delas, nenhum dos seus amigos (e nem você), quando vai postar fotos de sua última viagem, escolhe os momentos em que algo deu errado. Pelo contrário, externalizamos apenas aquilo que é glorioso, fazemos uma edição dos melhores momentos, ou pior, sorrimos para a foto mesmo quando a festa está entediante."

Cultura do sucesso


Conforme o headhunter, a cultura do sucesso fica ainda mais evidente durante os processos seletivos. "Os profissionais que estão buscando uma recolocação contam suas histórias e cases de maneira heroica e quase nunca vemos um profissional realmente expondo suas fraquezas e vulnerabilidades. Eu entendo. Esse é um momento delicado e a pessoa acredita que, ao expor seus erros e fracassos, ela será desclassificada do processo."

Dalton Morishita diz que vivemos em uma sociedade na qual o sucesso é a meta e mascara-se os acontecimentos negativos(foto: Arquivo Pessoal )
Dalton Morishita diz que vivemos em uma sociedade na qual o sucesso é a meta e mascara-se os acontecimentos negativos (foto: Arquivo Pessoal )
Nesse sentido, reconhece Dalton Morishita, até o fracasso só é aceitável quando "no fim" tudo dá certo. "Contar as derrotas faz parte da jornada do herói, mas os profissionais só se expõem dessa maneira quando ele cumpre o arco completo e vence, superando os obstáculos. No entanto, a vulnerabilidade é o único caminho possível para que o candidato se mostre verdadeiramente e consiga se expor, mostrando quem ele realmente é e não quem ele acredita que precisa ser."

Dalton Morishita conta que a pesquisadora norteamericana Brené Brown dedicou mais de 20 anos de pesquisa e coleta de dados para entender como as pessoas se relacionam, se conectam e em quais momentos da interação essas conexões são reais e profundas. "O resultado da pesquisa mostra que, somente após você se expor de maneira real, com todas as suas imperfeições, sucessos e fracassos, é possível criar vínculos de confiança e construir um relacionamento humano verdadeiro."

A entrevista não é só um palco para performar e brilhar

 

O processo seletivo, a entrevista principalmente, enfatiza Dalton Morishita, é um lugar de relacionamento humano. "O recrutador senta na mesa com o candidato para conhecer a pessoa que está ali, e esse processo se torna muito difícil quando, do outro lado, o candidato está tentando mascarar e esconder seus erros e suas vulnerabilidades. Precisamos descontruir a ideia de que a entrevista é um palco onde o candidato precisa performar e brilhar. Ela, na verdade, é um canal de relacionamento para nos conhecermos."

Para o headhunter, é papel do recrutador encontrar esse ponto de contato, unir as habilidades técnicas ao perfil de comportamento e personalidade. "Bons recrutadores são empáticos com o candidato e entendem que exige coragem e autoconhecimento para se expor verdadeiramente."

Dalton Morishita garante que manter o candidato confortável é uma premissa básica dos processos seletivos na Trend Recruitment. "Como parte de nossa cultura, temos como um de nossos valores mais essenciais "sermos humanos", no sentido de que valorizamos as pessoas em todas as fases dos nossos processos e as acolhemos com humanidade e respeito. Outra premissa básica que assumimos é ajudar o profissional. Sempre durante a entrevista, se o candidato faz algo que não é muito legal, apostamos em feedbacks construtivos, mostrando pra ele o quanto aquela postura, atitude e fala podem ser interpretadas de maneira errada. Às vezes, é difícil ouvir um feedback, mas precisamos aprender a ressignificar esses momentos como uma oportunidade de melhoria e não como uma crítica a quem nós somos."

Mudar o mindset em relação aos erros e fracassos de carreira não é uma tarefa fácil, avisa Dalton Morishita. "O erro é desconfortável e frustrante, mas a vulnerabilidade é o caminho para sermos autênticos. É preciso olhar sob uma nova perspectiva, observando como esses momentos os transformam como pessoa, o quanto se aprende sobre si mesmo, sobre seu trabalho ou sobre como fazer melhor da próxima vez."

 

Coragem para ser quem realmente é

 

Dalton Morishita recomenda não descartar os fatores o fizeram a chegar em determinado estágio e tudo o que viveu e o moldou como pessoa. "É muito importante ouvirmos esse lado humano dos candidatos durante a entrevista e até observar como eles constroem a narrativa dessa história. Gostamos muito quando vemos que os profissionais são capazes de rir sobre determinados fracassos e que acolheram determinados momentos com humildade e como aprendizados importantes."

O headhunter confessa que só se encontrou profissionalmente aos 31 anos. "Meus objetivos, sonhos para a carreira e mesmo a minha motivação são dedicadas a metas que eu não sonhava em ter quando comecei minha jornada profissional. Minha dica para os profissionais que estiverem buscando uma recolocação é para que sejam autênticos, entreguem-se para o processo. Se a vaga for sua em termos de habilidades técnicas e comportamentais, mostrar-se de maneira verdadeira é o melhor caminho para conseguir esse emprego. Assuma isso para além da entrevista de emprego. Tenha coragem para ser quem você realmente é."


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