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Estado de Minas EMPREGO

Mercado fisga profissionais criativos

Em tempos de crise, equipe enxuta e profissional multifuncional, a criatividade no ambiente de trabalho é uma exigência. Dom que pode ser treinado


postado em 18/05/2018 16:31 / atualizado em 18/05/2018 17:11

(foto: Marc Garrido i Puig/Freeimages)
(foto: Marc Garrido i Puig/Freeimages)

 
Ainda há quem pense que para ser criativo só nascendo. Um dom. Não é. Ou melhor, tanto pode ser uma característica nata quanto é possível desenvolver a criatividade para aplicá-la, não só em sua atividade laboral, como na vida. É o que o mercado denominou de mindset, ou seja, conjunto de atitudes mentais que influencia diretamente o comportamento e o pensamento de cada um e que podem ser adquiridas e treinadas. Para pensar fora da caixa é necessário base, repertório e conhecimento, não só da área de formação e atuação, quanto informações gerais que ajudam a ampliar a visão.

Jacqueline Rezende, CEO da Sias Educação e Consultoria, consultora em RH, planejamento estratégico, personal coach e mestre em administração, afirma que a criatividade tem se tornado uma disciplina discutida com mais frequência seja nas salas de reunião das empresas ou nas mesas de refeições em casa. “Cada vez mais pensamos, no nosso dia a dia, como podemos ser mais criativos em um mundo competitivo e extremamente mutável.”

Para Jacqueline Rezende, a cultura da criatividade ainda é limitada porque achamos que ser criativo é reinventar a roda, e não é. “Você pode ser uma pessoa criativa buscando e ampliando horizontes cada vez mais intensos e com resultados na melhoria dos processos, das ideias dos trabalhos executados pelas pessoas e nas rotinas das tarefas diárias. Muitas vezes, o que precisamos são gatilhos mentais que cabem, por exemplo, dentro das empresas em qualquer lugar.”

A consultora destaca que o método Scamper de criatividade é uma ferramenta para estimular e usar esses tais gatilhos mentais. Jacqueline Rezende explica que ele foi desenvolvido pelo americano Bob Eberle para melhorar a criatividade e o desenvolvimento de ideias criativas. “O método foi elaborado pelo autor em meados do século 20, publicado em seu livro de mesmo nome. Basicamente, é uma lista de verificação de perguntas onde novas ideias são criadas. Ele é muito usado para repensar o problema ou criar nova oportunidade de negócio. Também podemos aplicar o método para modificar o projeto de um produto, serviço ou processo ou mesmo usá-lo para área do pensamento.”

Jacqueline Rezende diz que, conforme o autor, o método Scamper é aplicado, principalmente, para melhorar um processo de produto, no desenvolvimento de um serviço novo ou existente, seja ele próprio ou concorrente. “O método é muito útil para abrir a mente para novas maneiras de se concentrar no problema e, com isso, mudar toda a nossa capacidade criativa ou pelo menos dar asas a ela.”

Diretora da Sias Educação e Consultoria, Jacqueline Rezende diz que a cultura da criatividade ainda é limitada
 
CULTURA 
 
Jacqueline Rezende, da Sias Consultoria, diz que a cultura da criatividade ainda é limitada(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Jacqueline Rezende, da Sias Consultoria, diz que a cultura da criatividade ainda é limitada (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Para Jacqueline Rezende, cada vez mais é necessário mudar e construir uma cultura criativa nas empresas para acompanharmos os processos de globalização: “Uma cultura criativa é mais do que simplesmente se divertir no local de trabalho, trazer ideias ou decorar uma mesa. Essas coisas podem contribuir, mas o verdadeiro poder para restaurar o processo criativo está na mente. É uma questão de mudar como você pensa e de trabalhar para remover obstáculos que estão no caminho de sua criatividade natural”.

Jacqueline Rezende lembra que trabalhar a criatividade não é fácil. É trabalhoso para uma pessoa e ainda mais se ela trabalha em grupo ou em uma empresa com colegas criativos: “Mentalidades são difíceis de mudar e é complicado se desfazer de hábitos. Mas, com o tempo, mudanças positivas podem ocorrer. O ideal é exercitar e seguir a intuição”.

Para a consultora de RH, a criatividade é um recurso precioso que precisa ser estimulado. “Isso significa que não se pode simplesmente deixar pra lá e esperar que não acabe. É necessário um cultivo cuidadoso e o ambiente certo para que continue a fluir, assim como um esforço concentrado para ter a certeza de que nada fique no caminho do processo criativo. Se não tiver essa atenção, correrá o risco de deixar sua criatividade à demanda do acaso, situação preocupante para qualquer profissional criativo.”

Criatividade, portanto, precisa ser alimentada, aguçada, desafiada. Jacqueline Rezende enfatiza que “tenha sucesso e descobrirá que sua imaginação não tem limites. O cérebro é um espaço pouco explorado e lá mora nossa criatividade”. Para os gestores, a mestre em administração deixa um recado: “Não podemos ocultar que muitos minam a criatividade dos profissionais em vez de estimular e isso é um prejuízo e uma torneira do desperdício para sua empresa. Portanto, deve ser um compromisso do gestor proteger a criatividade de cada funcionário. Desde o que senta em uma mesa para trabalhar, aquele que está na linha de produção, nos serviços gerais, na gestão, na estratégia... Não existe limite nem cargo, criatividade se encaixa em qualquer cenário”.
 
 
MENTE CRIATIVA 

Os sete gatilhos mentais, conforme Bob Eberle e o método Scamper, que pode e deve ser usado sempre que a mente criativa não surgir de forma efetiva:

Substituir: é o processo com a intenção de determinar o que é que pode ser usado como substituto daquele pensamento. Essa questão a equipe precisa analisar no sentido de que deverão ser colocados alguns pontos, de modo a averiguar que produto ou serviço pode ser substituto de um produto ou serviços já existente. A ideia consiste na substituição.

Combinar: investiga como é que a ideia pode ser combinada com outro fato para gerar algo novo, pois ao combinar objetos e ideias, podemos desenvolver novos produtos ou serviços.

Adaptar: saber como se pode adaptar uma ideia existente ou a ideia de outra pessoa. Nesse sentido, é importante questionar “que outra ideia isto sugere?” ou “o que posso copiar para adaptar à minha ideia?”.

Minimizar, tornar maior, modificar: foca na hipótese da ideia poder ser modificada, minimizada ou maximizada. Assim, a partir de uma ideia já existente, tenta-se atribuir uma nova utilização, efetuando uma modificação a qualquer nível (forma, dimensão, peso, tempo, frequência, velocidade, entre outros). A questão a ser colocada nesta fase é “de que forma o produto ou serviço pode ser modificado, aumentado e/ou reduzindo?”

Pensar em outros usos: nesta etapa, pretende-se encontrar usos alternativos para ideias existentes, isto é, “a ideia pode ser usada em outros mercados?” De que forma? Por vezes é necessário reutilizar o produto, dando-lhe outra utilidade completamente diferente.

Eliminar: é o processo da eliminação, redução ou adição de novos ingredientes, componentes, partes  de produção ou serviços, de modo a alterar uma ideia. Pensamento na eliminação de várias partes ou características do produto ou serviço, de forma a solucionar alguns problemas.

Reverter, rearranjar: consiste em reverter o produto ou o serviço de modo a criar uma outra ideia. A inversão da sequência em que as tarefas estão sendo executadas ou a conversão do espaço na possibilidade de criação de um novo conceito ou a chamada de exploração de novas possibilidades no tempo e no espaço.
 
 
PALAVRA DE ESPECIALISTA
 
Ana Lisboa, coach master, assegura que a criatividade é um diferencial competitivo (foto: Arquivo Pessoal)
Ana Lisboa, coach master, assegura que a criatividade é um diferencial competitivo (foto: Arquivo Pessoal)
 
Ana Lisboa, master coach para alta performance e consultora de RH

“A criatividade pode ser sim um diferencial competitivo no mercado de trabalho. Pessoas são contratadas normalmente por seus diferenciais e a criatividade ou a capacidade de resolver problemas é um grande ponto a favor de quem consegue utilizar essa característica e principalmente expô-la em um processo seletivo. As grandes ferramentas detectoras de criatividade são as temidas dinâmicas de grupo. Segundo a vasta literatura sobre o tema, a criatividade é sim, para todos. Algumas pessoas se desenvolvem em ambientes naturalmente criativos e, por isso, têm mais facilidade em lidar com essa característica. Mas é possível para todas as pessoas usar o lado criativo do cérebro para encontrar saídas inusitadas e eficientes. Se você, leitor, considera-se pouco criativo, passe a estimular, mesmo que por brincadeira, essa sua habilidade. Pode ser pensando em saídas diferentes para os mesmos problemas, fazendo as mesmas coisas de forma diferente e principalmente (e essa pode ser a mais difícil), deixando de criticar aquelas respostas estúpidas que normalmente ilustram as conversas entre amigos. Lá pode estar uma fonte inesgotável de criatividade que precisa contar apenas com um pouco menos de censura para se manifestar.” 
 
 
Em todo lugar  
 
 
(foto: Maxime Perron Caissy/Freeimages)
(foto: Maxime Perron Caissy/Freeimages)
Criatividade é a habilidade de gerar ideias não convencionais, fora da caixa, longe da zona de conforto. Todas as pessoas são criativas? Faz parte da natureza humana? Tiago Petreca, consultor, palestrante e comandante da Kuratore, empresa de treinamentos e desenvolvimento humano, enfatiza que essa questão pode ser abordada por meio de diversos pontos de vista: “Parto do prisma dos modelos mentais para pensar a criatividade. Sendo que modelo mental é o conjunto de variáveis que definem a maneira como vemos o mundo, a nossa forma particular de abordar os eventos que nos ocorrem. Isso explica porque há tantas opiniões diversas sobre a mesma coisa. Parte importante de nossos modelos mentais são o sistema de crenças e valores que carregamos. Se acredito que ser criativo é privilégio somente daqueles que assim nasceram e se eu não me vejo como um desses ‘abençoados’, eu mesmo limitarei minha criatividade. Todos somos criativos sim, o que muda é o grau de criatividade, a razão pela qual seremos criativos e o resultado desejado. Geralmente pensamos nos criativos como aqueles no mundo da arte, da culinária, das invenções em geral e mais recentemente, no empreendedorismo. Mas a criatividade está em todo lugar. Há que se ter olhos para ver”.

Portanto, não desanime, nem desespere. Você é criativo e, melhor, pode treinar. O primeiro passo é rever sua crença sobre a criatividade, revisar o que ela significa para você e de que forma quer que a criatividade lhe ajude. Um treinamento importante para alimentar a criatividade como um todo é ampliar seu repertório, isso é, conhecer mais assuntos diferentes, saber sobre temas que podem até ser opostos a princípio, como matemática e artes plásticas. “Se você pensa somente de um jeito e estuda somente um tema, você poderá ser bom, um expert, mas suas ideias estarão limitadas a isso apenas, e mesmo assim grandes ideias podem aparecer. Parece paradoxal, não? Mas assim somos como seres humanos, um pouco paradoxais, e isso nos torna especiais, principalmente no que tange à criatividade.”

Outro ponto importante, destaca Tiago Petreca, é a capacidade de observar, notar coisas novas naquilo que é comum. “Nosso cérebro acaba criando como que um cenário conhecido e assim perdemos os detalhes da estrada. Temos que aprender a perceber a flores, as nuances, os detalhes, os aromas, aquilo que está bem na nossa frente e não estamos vendo. Penso ser riquíssimo para a criatividade deixar a mente ‘vagar’. Precisamos pensar sobre nossos problemas, sobre as questões com as quais estamos lidando, mas temos de deixar a mente trabalhar um pouco sozinha, sem que nossa razão esteja no comando o tempo todo.”

Tiago Petreca levanta algumas questões: para que você quer ser criativo? Para salvar seu emprego? Para conseguir um emprego? Para dar uma boa solução à empresa? Para vender melhor? “O mercado sempre foi competitivo, hoje é mais devido à hiperconectividade. Tudo está mais rápido e demanda por soluções, mas se não tivermos claro qual o problema que enfrentamos, dificilmente seremos criativos. Criatividade não significa ideias mirabolantes, podem ser coisas simples. Lembro de uma foto que vi de um vendedor de milho. Na foto havia uma placa com os preços: R$ 1,50 o milho e R$ 2 o milho com fio dental. Incrível, absolutamente criativo e simples.”

DESEJO 
Tiago Petreca, dono da Kuratore, afirma que todos somos criativos, o que muda é o grau de criatividade, que está em todo lugar(foto: Rafael Margem/Divulgação)
Tiago Petreca, dono da Kuratore, afirma que todos somos criativos, o que muda é o grau de criatividade, que está em todo lugar (foto: Rafael Margem/Divulgação)

O consultor garante que a criatividade está em qualquer lugar, do CEO ao faxineiro. “É a secretária que propõe nova forma de fazer uma planilha, o porteiro que recebe as pessoas com sorriso e gentileza marcantes ou o faxineiro que percebeu que poderia limpar um banheiro com metade do desinfetante que a empresa usava. Lembro de um amigo que trabalhou em uma multinacional. Lá fizeram um concurso no qual o colaborador seria premiado caso ajudasse a economizar dinheiro. Um de seus colegas de trabalho notou que durante o almoço as pessoas pegavam um pão francês para comer e muitos deixavam parte deste pão em seus pratos, que ia direto para o lixo. Sua sugestão? Corte o pão em fatias em vez de deixá-lo inteiro. Ele ganhou um prêmio: um percentual do que ele ajudou a economizar. Simples, criativo e resultado de alguém que parou para observar, perceber o que ninguém mais estava enxergando, embora estivesse na cara de todo mundo.”

Para Tiago Petreca, a curiosidade é um turbo para o motor da criatividade. “Mas apenas ser curioso sem buscar soluções e executá-las, sem entender o problema a ser resolvido, fará da pessoa apenas um curioso, mas não um criativo.” É importante nesse mundo dos criativos experimentar, se desafiar: “Quem cria também aprende, pois se criou algo novo, provavelmente, vai errar e o erro é parte da experimentação e fundamental para aprender. O modelo das startups, tão difundido atualmente, que tem seu pivô no Vale do Silício, usa uma máxima: erre rápido e barato. Errar custa, então se vai tentar algo novo, que seja com baixo investimento e de forma rápida. Mas há um segredo aqui. Tem que aprender no processo, errar por errar, mesmo que custe pouco, será custo apenas e isso impacta o resultado de uma empresa. Quanto a existir espaço para o erro, depende de onde você está. Saiba o contexto no qual está inserido e entenda as regras do jogo. Não existe mundo perfeito, ele está em constante evolução e necessita de pessoas criativas”.

Serviço:
 
Livro: Mindset – A nova psicologia do sucesso
Autora: Carol S. Dweck
Tradução: S. Duarte
Editora: Objetiva
Páginas: 312
Livro: R$ 44,90
E-book: R$ 29,90 
 
 EM TRÊS PASSOS
 
Como desenvolver a criatividade:

1 Buscar solução para o que chamamos de problema. Isso é fundamental, pois a maneira como “rotulamos” as circunstâncias que se apresentam determina a forma como tentaremos resolvê-la. Tudo começa e termina em nós mesmos.

2 É importante a forma como olhamos para o mundo. Esse olhar é filtrado por “óculos” compostos por uma série de variáveis como nossa cultura, experiências, onde e com quem convivemos e, finalmente, nosso conjunto de valores e crenças.

3 A busca pelo estado de presença. Você já notou como as crianças têm um poder de criar, de inventar que muitas vezes nos surpreende? Elas têm menos travas, menos bloqueios, menos “se” e “não”. A ingenuidade de uma criança lhe dá o poder de criar melhor que nós, adultos. Mas, como não podemos voltar no tempo, precisamos saber usar o tempo que temos para, de fato, nos tornarmos mais criativos.
 
PARA LER... 

A psicóloga Carol S. Dweck, estudiosa e professora de psicologia da Universidade de Stanford, nos EUA, explica que nosso mindset mostra o nosso modo otimista ou pessimista de enxergar diversas situações da vida e de como se portar diante delas. Seu livro Mindset se tornou bestseller, um clássico da psicologia, lançado em 2014. Ao longo de décadas de pesquisa, ele provou que mindset é crucial para o sucesso. Dweck revela de forma brilhante como o sucesso pode ser alcançado pela maneira como lidamos com nossos objetivos. O mindset não é um mero traço de personalidade, é a explicação do por quê somos otimistas ou pessimistas, bem-sucedidos ou não. Ele define nossa relação com o trabalho e com as pessoas e a maneira como educamos nossos filhos. É um fator decisivo para que todo o nosso potencial seja explorado.

1 – Mindset fixa: são aqueles que acreditam que o talento e a capacidade são definidos à partida e não se alteram ao longo da vida. Esse é o caminho para a estagnação e a desmotivação. Pensam que suas qualidades são imutáveis.

2 – Mindset progressiva (de crescimento): nessa atitude mental estão as pessoas que pensam que o talento pode ser desenvolvido, com tempo e persistência. Acreditam que é possível cultivar suas qualidades primordiais por meio do esforço e que cada um é capaz de se modificar e se desenvolver por meio da experiência. É o caminho da oportunidade e do sucesso. Pensamento que pode ser fomentado em qualquer altura da vida, potenciando a autoestima, a motivação e a capacidade de concentração, gerando resiliência e paixão pela aprendizagem — a base dos grandes feitos em todas as áreas.
 
 
 

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