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Estado de Minas EDUCAÇÃO NA PANDEMIA

Seu filho aprende? Estudos mostram impacto das aulas on-line no ensino

Universidades confirmam o que famílias e professores percebem na prática: ensino remoto afetou aprendizado. Há grupos que inclusive regrediram


17/05/2021 06:00 - atualizado 17/05/2021 07:08

De todas as atividades propostas, o professor Juvenal Gomes afirma que 30% dos alunos não enviam as respostas(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
De todas as atividades propostas, o professor Juvenal Gomes afirma que 30% dos alunos não enviam as respostas (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
 
Se o retorno às aulas presenciais em Minas e em outras partes do país divide opiniões, as condições impostas pela pandemia de COVID-19 à educação trouxeram uma espécie de consenso entre pesquisadores, pais e até estudantes: adotado e adaptado às pressas, o ensino remoto trouxe defasagem no aprendizado.

Implantadas como medida emergencial, as aulas mediadas pelas telas de computador e do celular não deram conta de suprir as interações presenciais entre alunos e professores na escola. E pesquisas já confirmam o que as famílias intuíam.

Uma das que medem os impactos do ensino remoto sobre a aprendizagem foi feita pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF).

Outra, intitulada “Infância e pandemia na Região Metropolitana de Belo Horizonte”, foi desenvolvida por pesquisadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Infantil e Infância (Nepei) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG).

Na pesquisa do CAEd, foram avaliados cerca de 7 mil estudantes para cada ano analisado – 5º e 9º anos do ensino fundamental e 3º do nível médio –, nos conteúdos de língua portuguesa e matemática de escolas da rede pública de São Paulo.

Os testes foram aplicados presencialmente e elaborados de acordo com o currículo estadual e a Base Nacional Comum Curricular. Os resultados não foram muito animadores.

A professora Lina Kátia, coordenadora do CAEd e do estudo, afirma que a pesquisa foi feita em São Paulo, mas traz indicadores que podem ser considerados em outros estados, inclusive Minas Gerais.

Foi comparado o início das séries em 2021 com o final das respectivas séries em 2019. Um dos resultados mais preocupantes foi que os alunos do 5º ano precisariam recuperar habilidades do 4º ano.

“Os resultados mostraram que estudantes iniciaram a 5ª série com habilidades da 3ª. O problema maior está com a matemática. O efeito escola na disciplina é visível, ou seja, a presença do professor na educação matemática é um ponto muito relevante”, afirma Lina Kátia de Oliveira.

A defasagem maior dos alunos foi em relação aos conteúdos da disciplina. “Eles estão no 5º ano resolvendo problemas muito elementares de adição e subtração. Não resolvem problemas que envolvam multiplicação ou divisão. A solução de problemas numéricos envolvendo as quatro operações está verdadeiramente comprometida”, diz a professora.

Além disso, afirma, os estudantes revelam não conhecer formas geométricas, não fazem comparações em dados acrescentados a gráficos e tabelas, que são habilidades básicas que deveriam ter na 5ª série, para prosseguir com sucesso nos estudos. “A defasagem é muito grande”, avalia Lina Kátia.

O déficit não é atribuído apenas às aulas remotas, mas também ao conjunto de ações que envolveu a pandemia até que secretarias e escolas se organizassem, produzissem materiais e os fizessem chegar aos alunos. “Durante um tempo, as aulas remotas não chegavam às crianças e, quando chegam hoje, esse meio de aprendizagem ainda é desigual”, diz.

A pesquisadora lembra que o aprendizado do aluno depende de diversos fatores, como o fato de ter ou não computador e o nível de escolaridade dos pais. Mas avalia que, apesar das dificuldades e disparidades, no caso de Minas Gerais, a Secretaria de Estado de Educação tem feito “excelente trabalho”.

Distrações em casa


A dona de casa Lene Denilson diz que o principal desafio é fazer o filho David, de 11 anos, se manter concentrado durante toda a aula (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
A dona de casa Lene Denilson diz que o principal desafio é fazer o filho David, de 11 anos, se manter concentrado durante toda a aula (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
Pesam no resultado também características individuais. A dona de casa Lene Denilson percebeu que o filho David, de 11 anos,  não se adaptou ao formato de aulas remotas, que disputam a atenção com concorrentes atrativos.

“Em casa é mais complicado. Ele não quer estudar, tem que ficar no pé. É televisão, é internet, computador, celular, tudo isso complica. Na escola seria bem melhor”, acredita. Na avaliação dela, o maior prejuízo no aprendizado tem sido em língua portuguesa. “Ele não quer ler nada, mesmo que a gente fique no pé.”

O professor Juvenal Gomes, da rede estadual de ensino em Minas, destaca que a interação é desafiadora, pela dificuldade de ter a percepção exata do que está ocorrendo com o estudante do outro lado da tela.

“O professor pode estar dando aula super empolgado, mas não sabe como a interação está ocorrendo. No ensino remoto, um mundo está se passando na vida do estudante. Na situação remota, o professor não tem como perceber.”

“A principal dificuldade que observei nos alunos é a falta de autonomia. Já era um desafio no ambiente presencial, mas no ambiente virtual isso se potencializou. Muitos estudantes se viram perdidos quando perceberam que eram os principais atores a usar as ferramentas para ter acesso ao professor de forma remota”, afirma, destacando também a dificuldade de acesso e do uso da internet.

De todas as atividades propostas, Juvenal afirma que 30% dos alunos não enviam as respostas. Diante dessas situações, o professor lembra que o aprendizado transcende a relação aluno e escola, buscando destacar o papel fundamental da família. 

A boa notícia é que, para o educador, os prejuízos que vieram como consequência do momento não são irreparáveis – apesar do atraso no processo.



“Com minha professora, aprendo me divertindo”


Pesquisa do Nepei da FAE/UFMG: foram ouvidas 2.200 crianças de escolas públicas e privados da Região Metropolitana de BH (clique para ampliar)(foto: Arte EM)
Pesquisa do Nepei da FAE/UFMG: foram ouvidas 2.200 crianças de escolas públicas e privados da Região Metropolitana de BH (clique para ampliar) (foto: Arte EM)

“Não consigo aprender tanto, pois é bem difícil me concentrar ou não me entediar nas aulas on-line. E é ruim ficar longe dos amigos.” A declaração, dada aos pesquisadores da FAE/UFMG, é de uma estudante de 10 anos. Outra menina ouvida, de 9, fala da falta das aulas presenciais: “Sinto falta de estudos com a minha professora, porque com ela eu aprendo me divertindo”.

A pesquisa da FAE foi feita entre junho e julho do ano passado. Foram entrevistados 2.200 alunos com idades entre 8 e 12 anos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Naquele momento, os estudantes já estavam preocupados com o ensino remoto e com o retorno às aulas presenciais. 

A pesquisadora que coordenou o trabalho, Isabel de Oliveira e Silva, diz que se a pesquisa for repetida agora os resultados podem ser mais preocupantes. A pesquisa demonstrou que as crianças consideram a escola fundamental no aprendizado.

 “Uma coisa muito importante que colocaram é que a aprendizagem delas depende desse ambiente, desse contato. Eu aprendo melhor estando junto a meus colegas”, afirma Isabel de Oliveira. 
As escolas podem optar somente por reposição de conteúdo, mas a pesquisa demonstra que é necessário mais.

Nos contextos urbanos, a escola é um espaço de encontro. “A escola organiza a vida das crianças, o horário de acordar, o horário de alimentação. A própria escola é fundamental para assegurar a nutrição de grupos importantes da sociedade, das crianças que dependem da alimentação escolar.”

Além da rotina, o ambiente supre com os conhecimentos curriculares e a socialização. “As crianças demonstraram o medo de não terem os conhecimentos necessários, de terem dificuldade na continuidade dos estudos”, acrescenta.

O impacto do ensino remoto no aprendizado se dá por diferentes fatores. O primeiro é que o modelo não é considerado adequado para essa faixa etária. 

Outro aspecto importante é que as escolas tiveram que improvisar para iniciar as aulas a distância. “Por mais bem equipadas que fossem, tiveram um tempo muito curto de reorganizar o ensino. O recurso on-line pode ajudar na aprendizagem da criança, mas, com o isolamento social, passou a ser a única forma.”

A pesquisadora lembra que não há métodos elaborados para o ensino remoto para crianças do nível infantil “justamente por não ser adequado”. Ela reforça que o modelo de aulas on-line é emergencial: “Temos uma situação que não é adequada em si e não estávamos preparados, naquele momento, e ainda não estamos, para adaptar, criar situações menos inadequadas”.

As crianças reclamaram para os pesquisadores que as aulas on-line eram muito longas. “Há estudos que comprovam que a exposição à tela por períodos mais longos, além de não ser efetiva para aprendizagem, vai prejudicar. Vai produzir mais cansaço, mais dor de cabeça, dificuldade visual, uma série de coisas que ocorrem durante essa interação por meio das telas. A gente não pode ter a mesma organização do tempo. O professor não pode transpor métodos e os períodos do modo presencial para o remoto. E isso vem acontecendo”, alerta.


Dificuldades extras na época da alfabetização


Paula entrou no ensino remoto na alfabetização. A mãe dela, Cristiana Tabaral, reconhece a necessidade, mas distância se revelou um obstáculo(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Paula entrou no ensino remoto na alfabetização. A mãe dela, Cristiana Tabaral, reconhece a necessidade, mas distância se revelou um obstáculo (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Paulinha, de 8 anos, como outras crianças da faixa etária, quer ser notada pela professora durante as aulas, mesmo que remotas. “Ela fica muito ansiosa durante a aula. Às vezes, não presta atenção na professora. Quer que a professora a perceba, que responda às perguntas dela. Se a professora pede para esperar um pouco, ela fica nervosa, e isso prejudicou o aprendizado”, revela a mãe, a terapeuta ocupacional Cristiana Caldas Martins Chagas Tabaral.

A menina está no terceiro ano do ensino fundamental e começou a ter aulas remotas  no segundo, na fase de alfabetização. 

Apesar de todo o apoio dos pais e da estrutura da escola privada, a mãe entende que o modelo do ensino remoto traz prejuízos ao aprendizado da filha. “Na época de alfabetização, a criança precisa de um contato mais próximo com a professora. Pela internet, a educadora não tem essa oportunidade. E a Paulinha sentiu muito isso”, afirma

A mãe credita ao isolamento social e ao ensino on-line impactos no desenvolvimento físico e emocional. As lições de matemática, por exemplo, ficaram mais difíceis.

A menina precisa aprender a fazer as contas e agrupamentos nas aulas remotas. No modo presencial, o conteúdo seria repassado em atividades mais concretas.

O grau de dificuldade para avançar em leitura e interpretação de texto também fica mais complicado pela tela, em vez dos livros, avalia Cristiana. 

Os conteúdos de ciência, história e geografia, da mesma forma, estão muito abstratos para a menina, que tem o primeiro contato com as disciplinas.

O ambiente de casa, às vezes, permite que Paulinha se distraia mais do que ocorreria no espaço da escola. 

“Está muito difícil para ela entender, se concentrar e prestar atenção. Às vezes, entro no quarto e ela, em vez de assistir à aula, está brincando”, preocupa-se. Outro problema é a dificuldade de usar o computador. “Não tem a caneta e o lápis para escrever.”

Quando as aulas presenciais forem retomadas, será necessário que a escola ofereça um reforço, acredita Cristiana, que tem ela mesma “dado aulas” para a filha. 

“O que ensino para ela é o que está ficando.” Mas a mãe lembra que teve que lidar com a falta de concentração, estabelecer a rotina e dividir o acompanhamento da filha, o trabalho de casa e o estudo no curso de direito.

No entanto, Cristiana reconhece que é melhor que as crianças tenham aulas remotas, neste momento, para evitar que haja uma defasagem ainda maior no ensino. 

Diz também que é uma forma de a filha manter contato com outras crianças de sua idade. “A Paulinha está interagindo com os colegas e tem atividades para fazer”, afirma.


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