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Estado de Minas CONJUNTURA

Saiba quais são os desafios do ministro Paulo Guedes para 2020

Especialistas ouvidos pelo Estado de Minas apontam os problemas a serem enfrentados pelo governo e como esses fatores podem desafiar a pasta da Economia este ano


postado em 19/01/2020 04:00 / atualizado em 19/01/2020 08:10

Reduzir as longas filas de procura por emprego no país depende da recuperação de vários setores da economia(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Reduzir as longas filas de procura por emprego no país depende da recuperação de vários setores da economia (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

A gestão do ministro da Economia, Paulo Guedes, completou um ano apontada como ponto forte do governo de Jair Bolsonaro. O mercado financeiro ficou otimista com a aprovação da reforma da Previdência e o encaminhamento de outras propostas do governo ao Congresso. Porém, alguns indicadores econômicos indicam que o ministro tem grandes desafios a enfrentar em 2020. 

O Estado de Minas ouviu três especialistas sobre os cinco calcanhares de aquiles que Guedes terá de atacar: alto desemprego, baixo nível de investimento, modesta produtividade da indústria, câmbio volátil, e uma balança comercial acanhada. Eles falam sobre como esses fatores podem desafiar a pasta do superministro neste ano.
 
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação do terceiro trimestre de 2019 foi de 11,8%, retrato de 12,5 milhões de pessoas desempregadas. O índice caiu em relação ao segundo trimestre do ano, quando havia registrado 12,3%.

Parte da redução, no entanto, se explica pela elevada informalidade do emprego, que atingiu 41,4% da população ocupada no período, o maior nível da série histórica.
 
A avaliação dos especialistas é de que a redução efetiva do desemprego ainda vai demorar, já que depende da recuperação de vários setores da economia. Para o professor José Roberto Savoia, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), o estrago da crise econômica foi profundo. “Nos últimos cinco anos, tivemos 25 mil indústrias fechando. O número é assustador. O desemprego não vai aliviar no ritmo que a gente gostaria”, explica. O professor ainda explica que a informalidade é comum quando se sai de uma recessão.
 
De acordo com o analista econômico e consultor Miguel Daoud, o emprego só vai se recuperar quando for beneficiado em um ciclo virtuoso da economia. Para isso, é necessário que o país tenha crescimento real, que depende de investimento. Segundo Daoud, para não ter expansão curta, o chamado voo de galinha, é necessário que a relação entre o volume de investimentos e o PIB (o Produto Interno Bruto, a soma da produção de bens e serviços do país) seja de pelo menos 24%. “Por isso que os especialistas estão dizendo que o desemprego não cai para um dígito até 2024”, diz.

INVESTIMENTOS


Apesar de festejado pelo mercado financeiro, Guedes não conseguiu impedir que os investimentos recuassem. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o dinheiro investido no país – medido pelo indicador Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – mingou 1% em novembro de 2019 frente a outubro. Se comparado com o mesmo período de 2018, a queda foi de 1,8%.
 
Já a taxa de investimento nominal, que é obtida a partir da relação entre o FBCF e o PIB trimestral, ficou em 16,26% no terceiro trimestre de 2019. Enquanto isso, o recorde da série histórica, apurado em 2010, foi de 21,53%. De acordo com estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), a taxa de investimento do terceiro trimestre do ano passado foi a menor dos últimos 50 anos.
 
Para José Roberto Savoia, o rumo que a gestão do ministro Paulo Guedes tem tomado até aqui levou o Brasil a ser bem-visto no mercado internacional novamente. “Existe uma atenção muito grande de empresas e grupos estrangeiros para investir no país. Muitos recursos devem vir neste ano”, afirma. Na avaliação do professor, isso se explica pela gestão responsável que o governo tem feito das contas públicas. “Este ano, o governo tem que fazer mais do mesmo”, diz.


'Tarefa hercúlea'


Como explica o professor Antonio Carlos Porto Gonçalves, da Escola de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV),  os fatores econômicos estão interligados. “O governo não atua nesses fatores, mas em outros que o afetam”, destaca.

Ele analisa que o governo foi bem-sucedido até agora em retomar a confiança do investidor ao equilibrar as contas públicas. “Para o investidor, não pode ser um país onde o governo pode quebrar.” Porém, para Gonçalves, manter as contas em ordem e atrair o investidor não será fácil. “É uma tarefa hercúlea”, conclui.

Miguel Daoud aponta a aprovação de pelo menos três das reformas propostas pelo governo – a administrativa, a tributária e a chamada PEC do Pacto Federativo – como fundamentais para a recuperação do investimento no Brasil. 
 
O analista considera a reforma tributária importantíssima, até para aliviar os custos de contratação no país e possibilitar a retomada do emprego.
 
No entanto, defende que, antes disso, o governo precisa focar na reforma federativa. “Você não começa a construir a casa pelo telhado. O ministro vai ter que se virar para conciliar”, diz. Na avaliação de Daoud, o governo está tentando buscar a via do investimento, mas ainda não conseguiu.
 
Gestão do superministro é apontada como o ponto forte do governo Bolsonaro(foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil %u2013 18/12/19)
Gestão do superministro é apontada como o ponto forte do governo Bolsonaro (foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil %u2013 18/12/19)
 

Elevador ou escada

 
As vulnerabilidades da indústria, traduzidas na baixa produtividade, também vão exigir mais do ministro Paulo Guedes neste ano. Pesquisa do IBGE mostra que a produtividade industrial está caindo. A Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgada pelo instituto, registrou índice de 87 pontos em novembro, abaixo do recorde de maio de 2011, de 105 pontos. Os especialistas apontam que as indústrias precisam ocupar toda a capacidade produtiva antes de poder investir e contratar e assim impulsionar o crescimento econômico.
 
José Roberto Savoia, da FEA/USP, afirma que a tônica da produtividade desta década que se inicia é o domínio de tecnologias como automação e inteligência artificial, que serão as chaves para o setor. Na opinião de Savoia, o mais importante papel que o governo pode fazer é financiar a atualização tecnológica das empresas por meio dos bancos públicos, como o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Se nós desenvolvermos mais a capacidade produtiva vamos produzir efeitos benéficos em cadeia. Para que nossa indústria possa permanecer competitiva, a tecnologia é um elemento crítico”, afirma.
 
A avaliação de Miguel Daoud é parecida. “O crescimento da indústria hoje depende muito de qualificação e tecnologia”, diz. Para o analista, o governo pode ajudar nesse processo investindo em educação. “Precisamos de um plano emergencial de qualificação. A tecnologia sobe pelo elevador, e a qualificação pela escada”, afirma. Ele destaca que a indústria faz parte de uma engrenagem econômica, e não é possível aumentar a produção sem atuar no todo.

Dólar incerto

As questões de economia internacional também devem desafiar Guedes em 2020. No ano passado, o real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram diante do dólar. Segundo o Banco Central, a moeda norte- americana se valorizou em 11,29% frente a brasileira, de janeiro a novembro de 2019. Por um lado, esse contexto no câmbio pode levar à inflação no mercado interno, já que os produtores gastam mais para importar insumos e precisam repassar os custos para o consumidor.

Por outro, o dólar mais caro beneficia as exportações, já que quanto mais alto o dólar, mais a empresa exportadora receberá pelo produto que vende.
 
O professor José Roberto Savoia defende que deixar o câmbio mais solto é uma decisão do ministro Paulo Guedes. “O governo até certo ponto consentiu com o dólar valorizado. O nosso nível normal é por volta de R$ 4”, explica. Por isso, ele acredita que segurar o dólar não deve ser uma preocupação tão grande da área econômica do governo em 2020.
 
De fato, Guedes já afirmou que as flutuações no câmbio não devem ser motivo de preocupação e que a moeda do Brasil é forte. Em novembro, numa entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington, o ministro argumentou que quando o juro da economia está baixo, o ponto de equilíbrio do câmbio é mais alto. “Temos um câmbio flutuante, então ele flutua. Às vezes ele está um pouco acima, por exemplo, quando o juro desce, aí ele sobe um pouco”, disse na ocasião.
 
Porém, as intervenções do Banco Central para tentar conter uma alta acentuada do dólar não deixaram de ocorrer em 2019. “Foram pautadas por vender reservas, o que ajuda a reduzir a dívida interna”, afirma José Roberto Savoia. Apesar de avaliar que o câmbio ficou um pouco acima do desejado, o professor diz que as mudanças de preço do dólar foram rápidas, mas não persistentes. “Ao manter esse quadro, nossa economia passa a ter mais investimentos”, diz.
 
Miguel Daoud avalia que tentar segurar o câmbio será difícil este ano, devido ao cenário adverso da economia mundial e da incerteza sobre a tramitação das reformas propostas pelo governo. O analista afirma que a valorização da moeda americana se explica pelo fluxo de dólares para fora do país. “Havia expectativa muito grande do ministro de que a queda da taxa de juros fosse levar os investidores para a atividade. Isso não se confirmou. Os investidores estão deixando o Brasil”, afirma. Daoud pensa que, apesar de improvável, a alta contínua do dólar pode “abortar” a queda dos juros implementada pelo governo até agora. (FQ)


A força do Brasil no exterior sempre foi a agropecuária e a expectativa é de que as exportações continuem crescendo este ano(foto: ANPr/ SINDIAVIPAR/Divulgação)
A força do Brasil no exterior sempre foi a agropecuária e a expectativa é de que as exportações continuem crescendo este ano (foto: ANPr/ SINDIAVIPAR/Divulgação)

Saber vender o Brasil 

 
Outro desafio que 2020 pode trazer para Guedes é reforçar o desempenho da balança comercial. Segundo pesquisa do Banco Central com mais de 100 instituições financeiras, a expectativa dos analistas de bancos e corretoras é de nova queda do saldo comercial em 2020, com a previsão de superávit de US$ 39,4 bilhões.

Em 2019, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 46,674 bilhões, 19,6% abaixo do valor de 2018, de US$ 58,033 bilhões. Esse desempenho foi o pior desde 2015. A crise econômica na Argentina, um dos principais parceiros do Brasil, bem como a guerra comercial entre Estados Unidos e China são fatores que ajudam a entender essa queda.

Quando o resultado do ano passado foi divulgado, o Ministério da Economia afirmou que a retração se explicava pela queda nas importações e nas exportações e que o objetivo da agenda comercial é aumentar a corrente de comércio. “Não há grande exportador que não seja grande importador. Saldo comercial não é métrica relevante do desempenho comercial de um país.”
 
Miguel Daoud avalia que o primeiro passo para um acordo comercial entre os EUA e a China, anunciado na última semana, pode prejudicar o saldo comercial brasileiro. Isso porque o acordo entre as duas potências prevê que a China privilegie os produtos agrícolas dos EUA, e a força do Brasil no comércio exterior sempre foi a agropecuária.
 
Além disso, o analista explica que a tendência de os produtos brasileiros ficarem mais atrativos no exterior com a alta do dólar não está se confirmando, já que isso está impactando nos custos de produção. Já o professor José Roberto Savoia entende que 2020 tem o potencial para ser um ano melhor para o Brasil no comércio internacional. "A China fechou o ano com crescimento em torno de 6%. Tem vigor para continuar crescendo em 2020 e vai demandar produtos brasileiros, como grãos, minério e carne”, afirma.

Porém, ele aponta que ainda há muito a ser feito para reforçar o desempenho da balança comercial. O professor acredita que o país tem muito o que melhorar na logística e no escoamento da produção, e deve buscar baratear o custo na exportação. “Quantidade para exportar nós teremos”, diz.
 
A recomendação de Savoia para Paulo Guedes é se tornar um vendedor da “marca Brasil” no exterior. “Nossa diplomacia vai ter um papel importante. Reduzir o ruído com os parceiros internacionais e buscar acordos comerciais”, diz. De qualquer forma, o professor avalia que não será uma tarefa fácil, sendo que o resultado não depende apenas do Brasil. “Vai precisar de empenho, mas também de sorte”, conclui.

* Estagiário sob supervisão da subeditora Marta Vieira 


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