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Estado de Minas ENTREVISTA/ JOÃO CARLOS COSTA BREGA - PRESIDENTE DA WHIRLPOOL AMÉRICA LATINA

'A polarização é ridícula, míope e rasa', diz presidente da Whirlpool

Executivo critica clima de embate visto no Brasil e defende a redução do papel do Estado


postado em 26/08/2019 06:00 / atualizado em 26/08/2019 08:01

(foto: Divulgação/Whirlpool)
(foto: Divulgação/Whirlpool)
 

São Paulo – João Carlos Costa Brega, presidente da operação latino-americana da Whirlpool, fabricante de eletrodomésticos que detém as marcas Brastemp, Consul e KitchenAid, acredita que o pior momento da economia brasileira está ficando para trás e que o país está fazendo a lição de casa desde o governo do ex-presidente Michel Temer (PMDB), com o avanço das reformas trabalhista e da Previdência.
 
Agora, o executivo está otimista com a reforma tributária, tendo inclusive participado de discussões sobre o tema. Para Brega, atualmente não há uma proposta perfeita sobre a mesa e, por isso, será preciso convergir para um modelo que ele chama de “Frankstein”, juntando o que há de melhor nos projetos apresentados até agora.
 
Defensor da redução do papel do Estado, o presidente da Whirlpool diz que o governo deve se ater a garantir boa qualidade de serviço nas áreas da educação, saúde e segurança, e que as agências reguladoras tenham o papel de fiscalizar o funcionamento das atividades privadas.

Para o executivo, elas deverão ganhar mais relevância à medida que o governo avançar com o programa de privatizações. Brega diz se incomodar com o clima de embate visto no Brasil. “Essa polarização é ridícula, míope e rasa. Mas ela acontece porque é a forma de sobrevivência de cada um dos lados.”

A situação da economia é delicada. Você vê chance de melhora?

Atualmente, o nosso setor está com o mesmo nível de produção de 2008. Olha o potencial que nós temos para crescer. Não existe uma bala de prata. Precisamos atacar o tamanho do Estado, fazer as reformas estruturais. Isso vai melhorar o ambiente de negócios. Já passamos por algumas mudanças, por exemplo na legislação trabalhista. Agora, o foco é a reforma tributária. O Estado deve garantir segurança, saúde e educação, esse é seu papel. Não tem de ser dono dos Correios, de empresa de petróleo. Cabe às agências reguladoras a fiscalização de como a economia vai funcionar. Infelizmente, elas foram desvirtuadas com o passar do tempo. Mas com o plano de privatizações que o governo está colocando agora, elas terão um papel fundamental.

Como chegamos até aqui?

No final de 2015, quando veio a crise, já deu para ver que entraríamos em recessão pelos fundos. Aí, veio o governo Temer e começou fazer algumas mudanças importantes. Não avalio a pessoa, mas o que o que foi feito pelo governo naquele momento. Mesmo com as mudanças, sabíamos que o país andaria de lado e que a melhora só aconteceria se as reformas fossem feitas. Do ponto de vista econômico, a fotografia mostrava um país com uma inflação galopante e tecnicamente em recessão. O governo implementou o teto de gastos e atualizou a legislação trabalhista. Antes da eleição, tínhamos muito mais receio por não saber o que iria acontecer. Só havia uma certeza: de que não adiantaria o voo de galinha, ou seja, apenas estimular o consumo como foi feito outras vezes.

Como a matriz, nos Estados Unidos, tem reagido à situação brasileira?

A Whirlpool, uma empresa centenária, está no Brasil há mais de 60 anos. Estamos acostumados com a volatilidade. Essa não foi a primeira crise, nem a última. O Brasil continua a ser um mercado muito importante para a companhia. Somos o segundo maior mercado, atrás apenas dos Estados Unidos.

Como a baixa atividade da economia afetou a companhia?

O mercado brasileiro se caracteriza pelas compras de reposição e as planejadas. A crise afetou a planejada, por isso estamos vivendo hoje do mercado de reposição. As pessoas compram quando o aparelho quebra e não tem mais jeito. Mas tem havido uma recuperação. Neste quarto trimestre já veremos crescimento sobre o quarto trimestre do ano passado. Nossa expectativa é de um crescimento de dois dígitos em número de unidades comercializadas.

Apesar de apontar para uma recuperação, não há uma sensação nas ruas de que as pessoas estão adiando suas compras?

Não é a percepção que tenho, também não é o que dizem os revendedores e os nossos pares. As vendas pararam de cair e há indícios de uma recuperação. Um sinal disso é a retomada das transações imobiliárias, principalmente no residencial. Com as reformas, teremos de quatro a cinco anos de um belo crescimento, sem inflação de oferta. Atualmente, estamos com uma capacidade ociosa em nossas unidades, que varia de 20% a 25%. Nossa previsão é que em cinco anos a utilização suba para 90% a 95%.

A imprevisibilidade do câmbio nos últimos meses chega a prejudicar os negócios?

Estamos em um mercado cada vez mais globalizado, com um sistema de troca baseado em moedas. Não foi só o real que se desvalorizou ou apenas a bolsa brasileira que caiu. O que está acontecendo agora é muito diferente dos efeitos que vimos no mercado com o vazamento dos áudios do Joesley Batista (da JBS), por exemplo.

A Reforma Tributária vai avançar?

Sinto uma grande evolução nas discussões sobre o tema. Hoje, há interesse e sabe-se da necessidade que a reforma tem para a economia do país. Ninguém tem uma varinha mágica que vai resolver o problema como um todo. Mas o fato é que pioramos e precisamos sair dessa situação. Em 1988, a carga tributária do país era de 23%. Hoje, é 37%. Algo precisa ser feito. Temos uma burocracia que foi construída ao longo de 30 anos, não é fácil desarmá-la. Acho que um bom começo é dar consciência para a sociedade, do cidadão às empresas, sobre a importância da oportunidade que temos agora.

Qual é a sua opinião sobre as propostas colocadas sobre a mesa?

Pelo que vimos das propostas apresentadas até agora, não há um modelo perfeito, por isso vai ter de ser um “Frankstein”, juntando as melhores ideias de cada projeto. O importante é saber qual é a abrangência dessa reforma, a sua incidência e como será a transição para as novas regras. Não concordo, por exemplo, com o fim das desonerações. O governo precisa ter uma política de incentivo, não dá para simplesmente quebrar um contrato. Fala-se muito da Zona Franca de Manaus, mas ela representa apenas 8% das desonerações. Dependendo da forma como a reforma tributária for feita, pode levar a uma judicialização, o que é muito ruim. Os direitos adquiridos devem ser respeitados.
 
Não existe um risco de aumentar a sonegação à medida que as regras para a tributação forem mais rigorosas, frustrando os planos de arrecadação?

Hoje, a informalidade chega a 40% da economia. Dependendo da forma como os tributos forem cobrados, não tem como sonegar. Não se vive mais sem os bancos, mesmo aqueles que são informais. É preciso comprar matéria-prima, vender produtos, não tem como fazer isso fora do sistema financeiro. O que não dá é continuar como está, com as empresas gastando 2.600 horas para estarem adequadas à governança exigida na área tributária. Algo precisa ser feito. Segundo o site da Receita Federal, 60% da arrecadação da Pessoa Jurídica vem de 0,01% das empresas. Isso mostra quão injusta é a legislação. A pessoa física é inocente até que se prove o contrário. Já a PJ, ao sofrer uma autuação, não tem como discutir, vai ter de arcar com um depósito judicial. Olha outro exemplo de necessidade de mudança. Sou 200% a favor do Simples, mas do jeito que ele é hoje funciona como um desestímulo ao crescimento das empresas, porque se elas faturarem acima do que prevê a regra, ficam fora do Simples, pagam muito mais imposto e o negócio se torna inviável. É uma solução boa, mas sem visão de longo prazo.

Mas e o Refis, ao qual tantas empresas recorrem, deve continuar?

Hoje, há tantas coisas urgentes que eu não colocaria o Refis ou a revisão do Simples neste primeiro momento da reforma, não são prioridades.

Qual é a sua avaliação sobre esse início de governo?

O que eu vejo é muita manchete de jornal, mas a gente não sabe o que foi falado de fato. O fato é que esse é um governo eleito legitimamente. Não vejo nada que o desabone até agora. Não faço juízo de valor da pessoa. O fato é que o ministro Paulo Guedes tem uma equipe excelente. Tem muita coisa boa sendo feita, mas não vejo nada muito positivo sobre essas medidas. Por exemplo, no caso da liberação dos R$ 500 do FGTS, da mudança das regras no setor de gás ou no caso da BR Distribuidora. O governo padece de comunicação. Isso é uma arte e precisa ser melhorado.

Essa polarização política o incomoda?

Ninguém deve ser tratado como inimigo porque diverge. O inimigo é o crime, o nível de saúde que temos no Brasil, isso sim. Essa polarização é ridícula, míope e rasa. Mas ela acontece porque é a forma de sobrevivência de cada um dos lados.


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