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Estado de Minas ENTREVISTA/ANTONIO SETIN

"O pior do Brasil é a falta de respeito aos contratos", diz empresário do setor imobiliário

Empresário diz que mercado imobiliário se aquece com segurança dos consumidores


postado em 10/09/2018 06:00 / atualizado em 10/09/2018 08:39

"A pessoa compra um imóvel que está em construção, esse imóvel fica pronto e ela não comparece. Daí, num belo dia, a construtora recebe uma carta de desistência e se vê obrigada a devolver" - Antonio Setin o dinheiro. Esse é o Brasil (foto: Divulgação)

São Paulo – O empresário Antonio Setin, dono da incorporadora Setin, fechará 2018 com vendas de R$ 500 milhões. Embora seja melhor do que o resultado dos últimos dois anos, representa cerca da metade do faturamento de 2014, quando ultrapassou a casa do bilhão.

Segundo ele, além da recessão na economia, o grande vilão das construtoras e incorporadoras foi o crescimento dos chamados distratos, quando o cliente desiste do negócio e recupera quase tudo que pagou.

Em entrevista ao Estado de Minas, Setin analisa a conjuntura econômica, fala sobre o impacto das regras do distrato, que estão mais favoráveis às empresas, e traça um cenário de recuperação para o mercado imobiliário.

 

Alguns indicadores mostram que o setor imobiliário está, gradualmente, se recuperando. O senhor tem essa percepção?
Sim, os brasileiros estão ficando um pouco mais otimistas porque existe uma chance de um candidato mais equilibrado vencer nas urnas. O mercado imobiliário se aquece à medida em que o comprador se sente um pouco mais seguro. Mas, em geral, há ainda muita insegurança.

O crescimento de candidatos pró-mercado não ajuda a reduzir a insegurança?
Sim, a gente sente uma movimentação mais consistente nos estandes de vendas. Tiro por mim, como cidadão, como brasileiro, como consumidor, que hoje me sinto menos assustado do que há 30 ou 60 dias. Existe, sim, uma expectativa mais positiva.

"Todos nós fomos muito machucados pela crise. O desemprego cresceu demais, as empresas passaram a ter margens pequenas ou negativas, não só no nosso setor"



Fatores macroeconômicos, como estabilidade na taxa de desemprego e redução dos juros, têm ajudado?

Não tenho dúvida nenhuma. Quando há uma sensação de que a coisa não vai continuar dando certo, as pessoas não assumem um compromisso de longo prazo, como a compra de um imóvel. Se você vê que seu emprego está em risco, não entra na dívida de um imóvel. Naturalmente, por precaução, guarda dinheiro para uma situação mais arriscada.

Qual é o efeito da política na economia em geral e no setor imobiliário em particular?
O problema é que a economia está muito vinculada à política. Antigamente, a gente olhava pra Brasília, olhava a paisagem e tocava a vida, sem se preocupar muito com a vida no Planalto. Hoje não é mais assim. O que acontece lá assusta – e muito.

Esse ligeiro reaquecimento do mercado imobiliário não é também o reflexo de um cenário de juros baixos, com investidores sacando suas aplicações para investir em imóveis?

Hoje em dia já não é mais assim. O investidor é uma fatia muito pequena no bolo de vendas. A maior parte das vendas é para consumo final, para morar.

Então, imóvel deixou de ser um bom investimento?
Depende do ponto de vista. Hoje é o melhor momento para se comprar imóveis porque eles estão sendo vendidos praticamente no custo. As empresas têm estoques, e precisam fazer girar esses imóveis, fazer novos lançamentos. Essa é a única maneira de fazer a coisa andar. Uma construtora não sobrevive com estoque, mas sim com lançamentos, obras. Atualmente, os preços estão muito acessíveis, as margens das empresas estão muito achatadas. Sem dúvida é um bom momento para comprar.

"Hoje é o melhor momento para se comprar imóveis porque estão praticamente no custo. As empresas têm estoques, e precisam fazer girar esses imóveis, fazer novos lançamentos"



A crise fez o brasileiro ficar mais avesso ao risco?
Com certeza. Todos nós fomos muito machucados pela crise. O desemprego cresceu demais, as empresas passaram a ter margens pequenas ou negativas, não só no nosso setor. Então essa retomada de confiança, de emprego, de margem, é um processo lento, que deixa qualquer um muito preocupado.

O índice de desemprego ainda está muito alto, com mais de 13 milhões de pessoas sem conseguir se colocar no mercado Como isso impacta no setor imobiliário?
Há total afinidade entre esses dois indicadores. Diferentemente de outras décadas, quando o desemprego foi na base da pirâmide, no operário, desta vez pegou todo mundo. Pegou o empresário, o executivo, o operário. As empresas estão combalidas, com enorme dificuldade para contratar.

Por que, mesmo com a queda da Selic, as taxas de juros de financiamentos continuam altas?

Porque um spread bancário de 2 pontos percentuais, que aqui é considerado miserável, lá fora é considerado alto. Além disso, há a questão da estrutura de tributos. Os riscos no Brasil e os tributos forçam os bancos a terem margens superiores no Brasil. Não estou defendendo os bancos, eu pago juros para banco e também acho muito caro. Mas é certo que nossa estrutura tributária, a nossa estrutura de riscos, é incomparável.

A mudança nas regras do distrato pode ajudar o mercado a crescer?

O que o Brasil tem de pior é falta de respeito aos contratos. O distrato exemplifica isso. A pessoa compra um imóvel que está em construção, esse imóvel fica pronto e ela não comparece. Daí, num belo dia, a construtora recebe uma carta de desistência e se vê obrigada a devolver o dinheiro. Esse é o Brasil que se conhece hoje em dia.

Se o cliente não quer o imóvel, não é certo devolver o dinheiro?

Como eu posso produzir um bem que tive de financiar num banco, seguindo regras e prazos, se não tenho garantia que os contratos assinados valem alguma coisa? Nesse aspecto, o Brasil é diferente do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos e da Europa inteira. Aqui o contrato não vale nada. É uma lástima isso.

Qual é o peso dos distratos para o setor imobiliário?
Hoje existem muitas empresas que fracassaram, que estão em recuperação judicial, por causa do fenômeno do distrato. A lei está protegendo pessoas que não têm responsabilidade. E o pior: o Judiciário estava determinando a devolução de valores que superavam em muito o montante que o cliente pagou. É muito grave. Na verdade, trata-se de desequilíbrio que torna o país mais frágil, com falta de respeito com os contratos e com as regras criadas.

Como deveria ser?
Todo contrato de compra e venda de um imóvel deveria ser irrevogável e irretratável. Não poderia ser rompido. No Brasil, com a história do código do consumidor, o imóvel está sendo tratado pelo judiciário de maneira equivocada. Então, o sujeito pode se arrepender, não precisa comprovar nada.

O senhor tem números para exemplificar o impacto dos distratos nos negócios imobiliários?
De cada 10 distratos que eu e meus concorrentes temos, nove são de especuladores. Raramente é de alguém que chega aqui com a carteira de trabalho e diz ‘fui demitido’.

Essa falta de respeito aos contratos prejudica outros setores da economia?
Sem dúvida. É por isso que são tão caros, no Brasil, o pedágio, as taxas de embarque, as tarifas portuárias, as taxas alfandegárias. O desrespeito aos contratos é o grande vilão do país e o maior entrave para o desenvolvimento dos negócios.

As novas regras do distrato sinalizam uma mudança importante para o setor?
O marco regulatório que foi feito para a questão dos distratos é o que o setor conseguiu convencer o governo a fazer, mas trata-se de uma pequena jabuticaba. O correto é fazer com que os contratos sejam respeitados, uma vez que foi feito entre duas partes. Assim como eu faço um contrato com meu cliente, faço também com o banco, com as construtoras, com os fornecedores. Essa regra dos distratos é um remendo, não é coisa de país maduro.

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