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Estado de Minas ENTREVISTA

Debashis Ghosh: Crise impulsionou o Brasil dos negócios na era 4.0

Especialista em inovação afirma que recessão deu gás à eficiência e ao potencial do país


postado em 23/07/2018 06:00 / atualizado em 23/07/2018 07:59

 

Debashis Ghosh, presidente da Tata Consultancy Service (TCS), falou ao EM sobre inovações digitais(foto: Divulgação)
Debashis Ghosh, presidente da Tata Consultancy Service (TCS), falou ao EM sobre inovações digitais (foto: Divulgação)

São Paulo – O indiano Debashis Ghosh é considerado um dos maiores especialistas globais do chamado “business 4.0”. A expressão define, basicamente, uma série de medidas que empresas e indústrias têm adotado em suas operações para serem mais digitais, mais integradas e mais eficientes em todos os seus processos.

Ghosh, formado pelo Instituto Indiano de Tecnologia (Kharagpur) e pela Harvard Business School, duas instituições acadêmicas que lideram o conhecimento sobre inovação, está à frente de uma divisão de negócios que tem ajudado empresas de energia, pesquisas científicas e manufatura a se adaptarem às novas demandas globais.

No ano passado, a TCS, comandada por ele, faturou mais de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 9,6 bilhões), elevação de quase 13% sobre o ano anterior.

Em entrevista aos Diários Associados, Ghosh fala sobre a importância de as empresas estarem prontas para as mudanças da economia, que ocorrem a uma velocidade jamais vista na história, e analisou a situação do Brasil nesse contexto.

 

Existe uma tendência de colocar a expressão “4.0” para definir tudo o que é novo. Então, o que “business 4.0” difere do conceito de “indústria 4.0”?
O business 4.0 é algo mais abrangente. Trata-se de uma estrutura de liderança de pensamento. É um modo pelo qual o negócio deve ser executado nessa nova era da economia. Existem algumas características comportamentais e algumas características tecnológicas. Então, o business 4.0 é muito mais do que apenas a indústria 4.0, que só está no contexto da manufatura. O business 4.0 fala diretamente da transformação digital em produtos, operações e modelos de negócios.

O senhor está falando também de características comportamentais?
Sim. Existem aspectos, como evitar riscos ou antecipar perdas inevitáveis, com os quais a grande maioria dos empresários tradicionais não sabe como lidar.

Que aspectos são esses?

Há muitos deles, mas é possível reduzi-los a alguns conceitos básicos. Saber agir na hora certa, com uma visão ampla do negócio, é uma característica comportamental essencial da nova era. Ao promover uma transformação digital na empresa, é preciso olhar para três perspectivas: produtos digitais, operações digitais e transformação de modelos de negócios digitais. Ter essa visão não é fácil, mesmo para empresários e profissionais experimentados. Exige foco e vontade para mudar.

O senhor poderia dar exemplos bem-sucedidos de negócios “business 4.0”?

Um modelo de negócio de varejo como a Amazon, ou o modelo de negócio de transporte do Uber, ou o modelo de acomodação, como o Airbnb. Esses são bons exemplos que estão transformando não apenas o setor em que atuam, mas influenciando o comportamento das pessoas. Para alcançar esse novo tipo de negócio você precisa de tecnologia, inteligência, agilidade, automatização e nuvem. Só assim é possível transformar, digamos, uma empresa que há décadas produz carros tradicionais evoluindo para companhia que fabrica carros autônomos.

O Brasil tem avançado nessa área? Em que estágio o país se encontra dentro do conceito de business 4.0?

Com base nas reuniões que tivemos com todos os nossos clientes, acredito que o Brasil está bem preparado para adotar os conceitos envolvidos no modelo business 4.0. Acho que os empresários brasileiros só não implementam essas inovações de forma mais rápida porque não sabem como fazer. Estão procurando por ajuda e apoio de empresas que possam os encorajar. Esse é o nosso papel. É aí que nós entramos.

A recente recessão no Brasil prejudicou de alguma forma a ampliação do conceito business 4.0?
Muito pelo contrário. A recessão brasileira impulsionou a agenda de transformação e a eficiência da indústria do país. É nos momentos de grandes desafios que a inovação pode – e faz – a diferença. Historicamente, em períodos de grande instabilidade e retração econômica, a demanda por empresas de consultoria como a nossa dispara. Somos demandados a ajudar a aperfeiçoar os processos de produção e de gestão. À medida que progredimos na transformação digital, observamos uma redução significativa de recursos e de custos, com aumento da produtividade, da qualidade e da experiência do cliente. Essa é, na verdade, a essência do business 4.0: agilidade na execução, inteligência nos processos, automação e cloud (computação em nuvem).

Mas o Brasil está preparado para esse novo cenário? Há tantos entraves no país, da burocracia excessiva à falta de regulamentação em diversas áreas, que nem sempre as empresas consideram fácil inovar.
Escutei de todos os clientes que conheci no Brasil que eles estão prontos para abraçar essa transformação, não apenas pelos benefícios econômicos, mas também para alcançar vantagem competitiva na economia global. Todo mundo está muito aberto e ávido por isso. Quem não estiver disposto a mudar, enfrentará sérios problemas no futuro.

Falar em integração, automação e digitalização dos negócios já não é uma temática defasada? Quem não fez isso não perdeu o bonde da história e ficou irremediavelmente para trás?
A questão é que a maioria das empresas ainda não mudou seus processos. Os empresários começaram a falar sobre digitalização há muito pouco tempo, e em contextos muito específicos. Só agora o digital está se tornando mais holístico.

Que países se tornaram referência em business 4.0?

Existem vários exemplos para diferentes setores, em diferentes mercados, em diferentes fases de transformação. Se você vê alguns dos negócios da nova era, é claro que muitos deles têm suas raízes nos Estados Unidos, mas a Europa está adotando muito rapidamente as filosofias do business 4.0. Acredito que os europeus estão, atualmente, adotando o conceito ainda mais rapidamente do que os americanos. Já os mercados emergentes estão um pouco atrás, embora estejam abertos para realmente adotar o business 4.0.

Qual tem sido o maior obstáculo para sua implementação, especialmente em um país como o Brasil?
O maior obstáculo é sempre a mentalidade. Os empresários, antes de adotar qualquer mudança, precisam ser convencidos de que é possível fazer essa mudança. No Brasil, as empresas estão, cada vez mais, dispostas a adotar a mentalidade de mudança.

Na prática, em termos de produtividade e aumento de faturamento, o que muda com o business 4.0?
Em produtividade, há um ganho imediato de 5% a 10% para as empresas, o que já é muito. Mas a questão é que existe mudança exponencial no valor dos produtos. No longo prazo, os ganhos são ainda maiores.

Em quanto tempo o Brasil conseguirá se igualar aos principais países reconhecidos nessa área?
Com base no que vi nesta viagem nas reuniões com os clientes, acho que o país está muito próximo. Os clientes estão muito abertos para adotar novas tecnologias e querem um contexto local. Empresas como a TCS podem oferecer algumas dessas tecnologias em um período de seis meses a um ano. Essa tecnologia, afinal, existe, está comprovada, você a localiza no contexto das empresas e a oferece. Foi uma ótima experiência estar no Brasil pela primeira vez. Estou muito impressionado em ver como os clientes são abertos e como eles são engajados na discussão.

Qual a sua avaliação sobre a indústria e a economia brasileira como um todo?
Enxergo enorme potencial de mercado na América Latina em geral, e no Brasil em particular. Temos perspectivas consistentes para crescimento e geração de valor. Quando falamos sobre a área de energia, o Brasil é uma liderança e referência no mundo. Também é preciso ter em mente que o Brasil é um dos maiores mercados consumidores do planeta, o que por si só chama a atenção de qualquer empresa de qualquer lugar. Em recursos naturais, é um dos maiores exportadores de minério de ferro e há muito potencial a ser explorado.

Na área de inovação, qual é a relevância do Brasil em termos globais?
Em nosso último estudo global de tendências, focado no que os executivos pensam sobre inteligência artificial, um dos principais pilares do conceito de business 4.0, identificamos que as empresas da América Latina e do Brasil olham para a inteligência artificial como uma forma de ultrapassar os competidores de economias mais estabelecidas. Dito isso, podemos, com toda certeza, esperar grandes coisas da indústria brasileira. O Brasil está aberto à inovação, e tem enorme disposição para mudar. Isso é o mais importante.

 

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