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Estado de Minas RECESSÃO

Indústria de calçados vive uma de suas piores crises

Capacidade ociosa das linhas de produção é, em média, de 35%, mas em alguns casos chega a 50%. Nos últimos 18 meses, 10% dos profissionais perderam o emprego no setor


postado em 13/07/2018 06:00 / atualizado em 13/07/2018 09:32

Apesar da crise, a previsão é de que a Usaflex cresça cerca de 70% nas vendas feitas pelas franquias %u2013 que neste ano devem ter um acréscimo de 58 lojas(foto: Divulgação)
Apesar da crise, a previsão é de que a Usaflex cresça cerca de 70% nas vendas feitas pelas franquias %u2013 que neste ano devem ter um acréscimo de 58 lojas (foto: Divulgação)

São Paulo – O setor brasileiro de calçados costuma enfrentar dificuldades. Ora sofre com os problemas na relação comercial com a Argentina, ora tem dificuldades por conta do câmbio. Mas o que se vê agora é uma das mais graves crises enfrentadas até hoje, avalia Heitor Klein, presidente da Abicalçados, entidade que representa as empresas desse segmento. A análise não é feita, como muito se vê, com o objetivo de sensibilizar o governo e conseguir algum tipo de incentivo tributário ou linhas de crédito especiais para reerguer a indústria.



"A situação até agora, pela falta de perspectiva, pode ser considerada muito mais séria do que as crises que enfrentamos no passado" - Heitor Klein, presidente da Abicalçados



Klein é bem objetivo ao explicar a razão de o setor estar hoje com 35% de capacidade ociosa. ‘’A economia brasileira está fragilizada e não há condições por parte da população de comprar muitos dos bens de consumo, apenas o essencial. Não há problema de crédito para as empresas, mas de renda para os brasileiros”, diz.

Em algumas empresas, metade das máquinas está parada por falta de demanda. A previsão para este ano é que o volume de produção e de vendas caia 10% em relação a 2017, que também foi um ano difícil, sem crescimento em relação aos números de 2016.

BOTTERO
Por conta da crise, cerca de 35 mil funcionários foram demitidos dessas empresas nos últimos 18 meses, o que representa 10% da força de trabalho do segmento calçadista. Na semana passada, uma única empresa, a Bottero, do Rio Grande do Sul, cortou 21% dos seus empregados ao demitir 630 profissionais de quatro fábricas. A fabricante permanece com 14 unidades de produção, 2.400 empregados diretos e 500 indiretos.

Na ocasião do anúncio do fechamento das plantas, Luiz Roberto Bianchi, responsável pela imagem institucional da empresa, disse ao Estado de Minas que a decisão foi tomada em função da retração no consumo, causada pela crise. “Para não vir a ter problema de caixa, optou-se por tomar essa atitude agora. Quando voltarmos a ter musculatura será possível pensar em realocar parte desses profissionais”, afirmou o executivo. Neste ano, a previsão da Bottero, a terceira maior do segmento de calçados femininos, é que sejam fabricados 5 milhões de pares, contra 5,4 milhões no ano passado.

FALÊNCIA Nesta semana, o polo calçadista do Rio Grande do Sul, o maior do país, sofreu mais uma baixa. Na terça-feira, a Justiça decretou a falência de outra empresa, a Crysalis, que estava em processo de recuperação judicial e não conseguiu cumprir o plano de reestruturação aprovado pelos credores e homologado em março do ano passado. Com o fim da fabricante de calçados femininos, lacrada depois de publicada a decisão judicial, 400 trabalhadores de Três Coroas (RS) devem perder seus empregos. Ontem, houve protesto organizado pelo sindicato na cidade na tentativa de reabrir a indústria, mas a situação parece irremediável. Segundo o despacho da juíza, houve uma “postura procrastinatória” da Crysalis no cumprimento do plano de recuperação judicial. Desde o pedido de recuperação judicial, a empresa tem apresentado um “crescente aumento de sua dívida”.

Klein, da Abicalçados, teme que até o fim do ano outras empresas do setor tenham o mesmo fim, especialmente o que aconteceu com a Bottero. “Não foi algo pontual, mas sim o resultado do que está acontecendo com praticamente todo o setor. A situação até agora, pela falta de perspectiva, pode ser considerada muito mais séria do que as crises que enfrentamos no passado”, diz.

No entanto, o presidente da associação pondera que desta vez as empresas calçadistas estão, mesmo que tenham diminuído suas atividades, em operação, ou seja, não fecharam as portas. Mas ele lembra que não dá para saber ainda se elas terão fôlego até que as vendas voltem a patamares melhores.

A alta do dólar em relação ao real poderia servir de alento aos exportadores de calçados, mas, explica Klein, hoje a indústria calçadista sofre com a falta de competitividade. Além disso, ainda faltam alguns meses até que chegue a época das vendas de sapatos para a próxima coleção, o que torna impossível saber como estará o câmbio até lá.

ARGENTINA Outro complicador vem do mercado argentino, tradicionalmente um grande comprador dos produtos brasileiros. Os embarques estão parados – os últimos ocorreram entre janeiro e fevereiro. O freio, segundo o presidente da Abicalçados, é resultado da crise no país vizinho, que levou a inflação para a casa dos 40% e desvalorizou muito a moeda local, o peso.

Para Klein, ainda é difícil prever quando a recuperação do setor deverá começar a acontecer. “Não tenho a ilusão de que é possível criar condições para a retomada da nossa atividade artificialmente. O fato que temos hoje é que o desemprego está alto, a renda caiu e as pessoas estão adaptando seus orçamentos a essa realidade. Isso tudo não gera negócios”, explica.

Na Usaflex, planos de crescimento e aquisições


Apesar da crise que derrubou o ânimo da maioria dos fabricantes de calçados, ainda há quem consiga fazer planos para aumentar as vendas em 2018 e, quem sabe, comprar o controle de algum concorrente, como espera Sergio Bocayuva, presidente da Usaflex e coinvestidor do Axxon Group, fundo de investimento que adquiriu a empresa no final de 2016.

Bocayuva garante que 2018 será um ano de crescimento das vendas tanto nas lojas da marca, que são franquias, quanto para o mercado internacional. O mesmo otimismo, no entanto, não é visto quando o investidor fala dos canais multimarcas. Para tentar melhorar esse desempenho, a empresa vai reunir cerca de 400 dos maiores varejistas desse setor durante a Francal, evento a se realizar a partir do dia 16, em São Paulo, para uma espécie de treinamento para melhorar o gerenciamento dos canais de venda.

“Temos feito uma série de mudanças internas desde que assumimos a empresa, remodelando o negócio para ter mais eficiência, mas sabemos que esse ambiente de uma forma geral ainda é retrógrado, sem produtos competitivos e sem ferramentas de gestão adequadas ao momento”, afirma o presidente da Usaflex.

Parte dessa remodelação do negócio foi feita a partir do fechamento de unidades e a concentração de processos de produção em um menor número de fábricas – segundo Bocayuva, sem que fossem feitas demissões, apenas o remanejamento de funcionários. Hoje, segundo o executivo, não há ociosidade nas quatro unidades fabris. Hoje, são feitos cerca de 25 mil pares de calçados por dia.

A previsão de Bocayuva é de que a Usaflex consiga chegar a um crescimento de cerca de 70% nas vendas feitas pelas franquias – que neste ano devem ter um acréscimo de 58 lojas – e de cerca de 60% nas exportações. Já as vendas para os canais multimarcas devem ter uma retração de 5%. Por isso, a empresa avalia a possibilidade de investir no próprio e-commerce e assim reforçar o desempenho.

O executivo conta ainda que tem conversado com donos de algumas empresas do setor e que já está em fase avançada de negociação com uma delas para comprá-la por meio do fundo Axxon. “Nosso plano é ter mais um ou dois ativos nesse setor para chegar a um Ebitda (sigla em inglês para “lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 200 milhões e abrir o capital até 2022”, prevê Bocayuva. Por enquanto, com a Usaflex, o investidor prevê chegar em 2018 a um faturamento de R$ 350 milhões, ante os R$ 327 milhões de 2017 e R$ 287 milhões de 2016.

 

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