Publicidade

Estado de Minas

'Sem reforma, contas públicas se tornam insustentáveis', diz Schwartsman

Economista considera que o Brasil está no rumo, mas corre risco se não houver mudanças


postado em 05/02/2018 12:00 / atualizado em 05/02/2018 08:51

O ex-diretor do BC diz que o atual governo dificilmente avançará na reforma da Previdência(foto: Iano Andrade/CB)
O ex-diretor do BC diz que o atual governo dificilmente avançará na reforma da Previdência (foto: Iano Andrade/CB)

Uma das vozes mais influentes no campo da economia brasileira, Alexandre Schwartsman tem analisado o vaivém político e econômico do país com uma contundência peculiar. Conhecido por sua postura crítica em relação às políticas econômicas adotadas pelos governos petistas, ganhou holofotes depois de sua passagem pela Diretoria de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), entre 2003 e 2006. Depois de deixar o BC, assumiu a cadeira de economista-chefe para a América Latina do ABN Amro e Santander.

Atualmente, é sócio-diretor da Schwartsman & Associados Consultoria Econômica, onde tem se dedicado a prever os rumos do país. Schwartsman é formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), com mestrado em economia pela USP e doutorado pela Universidade da Califórnia. Para ele, o Brasil está no rumo certo, mas as incertezas políticas ainda representam ameaça à recuperação. Leia os principais trechos da entrevista concedida ao Estado de Minas.


Quais são as perspectivas para a economia brasileira em 2018?
A economia está em trajetória de recuperação e isso é visível, é muito claro. Começou no ano passado de forma tímida e foi se consolidando ao longo de 2017. Existem alguns fenômenos que surgiram no ano passado, e que continuam valendo para 2018. Primeiro, uma forte recuperação do consumo. É muito transparente isso nos balanços de vendas do varejo. Segundo, a queda na taxa de juros, que encolheu bastante. Mesmo o juro real, que é a Selic menos a inflação, está se reduzindo gradualmente. Com crédito mais barato, vemos um maior apetite por parte das famílias no sentido de tomar financiamento.

Isso tem beneficiado alguns setores, como o automobilístico, mas outros ainda estão sofrendo...
Automóvel não é o único. As mobílias e os eletrodomésticos, por exemplo, são setores que estão crescendo razoavelmente bem. A verdade é que a melhora no mercado de trabalho tem se apresentado como um impulso para a volta do consumo. Acabou de sair o número fechado da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua de 2017, em que vemos um processo importante de criação de empregos. Desde março do ano passado, adicionou-se mais de 2 milhões de empregos. A imensa maioria deles não é um emprego de altíssima qualidade, mas é emprego. Dos 3 milhões de vagas que perdemos durante a crise, 2 milhões foram recuperados. É um processo importante.

O emprego está voltando, mas os salários estão achatados pela crise, não?

A renda das famílias está também em trajetória de alta, quase chegando aos níveis do começo de 2015. Essa recuperação se traduz em aquecimento do consumo. Então, juro baixo, geração de empregos e renda em alta criam um ambiente mais favorável para a economia. Os salários voltarão a subir.

Dá para comemorar um desemprego acima de dois dígitos?
Sim, um desemprego de 11,8% ainda é um desemprego muito alto, mas a tendência é de queda. O importante, nesse caso, é enxergar a trajetória.

 

Qual a sua aposta para o PIB deste ano?
Algo entre 2,5% e 3%. Estou mais propenso a apostar em algo próximo a 3%. Vamos convir que um crescimento desse, depois de um ano de crescimento zero, em 2014, dois anos de retração, em 2015 e 2016, e de expansão baixa, em 2017, não é uma coisa ruim. Esse ritmo está dentro dos padrões históricos das recessões brasileiras. O fato de estar no padrão não significa que devemos ficar contentes com isso, mas é algo muito positivo.

Então, podemos cravar que a crise ficou para trás?
Não, a gente não superou totalmente a crise. A gente está caminhando para isso, com desafios importantes. As preocupações permanecem, principalmente no campo fiscal.

As incertezas políticas podem contaminar a economia?
Em certa medida, sim. Esse risco existe. Poderemos ter um adiamento da recuperação por motivos políticos. Se alguém não comprometido com as reformas liderar as pesquisas de intenção de voto, a reação negativa será imediata. Uma coisa que está clara é que o atual governo dificilmente conseguirá fazer grande avanço na questão da Previdência. Então, a tarefa de aprovar um conjunto de reformas que trate da questão fiscal no Brasil vai ficar para o próximo presidente, que será escolhido neste ano. A eleição vai demonstrar qual o caminho a população vai escolher.  Os caminhos são: continuar o processo reformista ou tentar, mais uma vez, um atalho. Eu, obviamente, defendo o caminho reformista. Acredito que o caminho reformista é o melhor para o Brasil.
A questão é que muitos eleitores não se convenceram de que a mudança é necessária...
Faz parte do jogo. Os eleitores não precisam, necessariamente, acreditar em mim. Podem, inclusive, achar que estou errado. O fato é que o Brasil vai ter que fazer uma escolha. Se essa escolha for pela não reforma, aí acho que teremos um sério problema. O mercado sempre precifica. Então, poderemos enxergar esses problemas já neste ano. Se chegarmos em agosto ou setembro e ficar mais claro que o próximo presidente não tem o menor compromisso com a reforma, o dólar não vai ficar parado. Os juros não vão ficar parados. De uma forma ou de outra, haverá uma reação.

A euforia do mercado com a condenação de Lula demonstra que os investidores já o consideram carta fora do baralho?
O Lula é percebido como um candidato que não levaria adiante as reformas. Como é um candidato forte e sai do páreo, se é que já saiu, aí o mercado antecipa.

Mas o mercado errou com Lula, em 2002. Não pode estar errado de novo?
O mercado às vezes erra, mas na maioria das vezes, não.

Se a reforma da Previdência deve ficar para o próximo governo, qual é o maior desafio do governo de Michel Temer então?
Acho que é tentar manter a casa mais ou menos em ordem. Ou seja, continuar na tarefa de colocar as contas públicas no lugar.

As reformas são factíveis em curto prazo?
A gente sabe que isso não vai acontecer ainda por muitos anos. A gente escolheu a trajetória de ajuste supergradual. Por mais que tenham feito escândalo, chiliques em torno da emenda do teto de gastos, essa mudança implica um ajuste bastante lento do gasto público, particularmente nos primeiros anos. Então, estamos começando a fazer o ajuste fiscal e cabe a esse governo não deixar a peteca cair. Não vai entregar a conta ajustada, mas pode entregar algo no meio do caminho.

Por que a reforma da Previdência é importante para o Brasil?
Sem a reforma da Previdência, as contas públicas se tornam insustentáveis. Simples assim.

Em sua opinião, o ajuste está lento demais?
Não existe outra alternativa. A gente sabe das limitações. Na prática, o governo federal controla menos de 10% do que gasta. Com isso, a gente tem que sair de um déficit recorrente que está na casa de 2,5% do PIB para 1% ou 1,5%. Isso dá um ajuste de 3,5 a 4 pontos percentuais do PIB. Se magicamente ele eliminar todo gasto que controla, conseguiria fazer um ajuste de 2% do PIB, perto da metade do que precisa fazer. Parece complexo esse cálculo. Tenho consciência de que se nada que for feito pode ser feito de forma muito rápida.

A demora em definir as reformas pode criar outros problemas?
Se o país estende esse ajuste por muitos anos, corre dois riscos, basicamente. O primeiro: o risco interno de não fazer as reformas necessárias. Se não faz as reformas, o teto de gastos fica inviável. O segundo risco é o externo, já que o país vai demonstrar a sua incapacidade de conduzir políticas econômicas.

O ambiente internacional está favorecendo a recuperação do Brasil?
O Brasil precisará de muita sorte para ter, novamente, um ambiente internacional tão favorável. Estamos vivendo hoje um momento global raro. Uma conjunção de crescimento global sincronizado, em um ritmo razoavelmente forte, e ao mesmo tempo uma liquidez e uma expansão financeira extraordinárias. Os juros continuam baixos nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. Lá não há nenhuma perspectiva de aperto monetário. Então, esse momento mágico certamente não vai durar. Quanto tempo vai levar, não sabemos. Só sei que não vai durar.

O que vai acontecer quando o mundo desacelerar?
Quando o mundo se tornar menos amigável, com juros mais altos, daí começaremos a ver quem é que tem problemas. Já dizia Warren Buffet, que se descobre quem está nadando pelado quando a maré baixa.  E nós sabemos que o Brasil está nadando pelado.

 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade