Brasília – Flamenguista roxo – sua última experiência no estádio não foi boa, pois viu o Flamengo ser derrotado pelo São Paulo –, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, não baixa a guarda. Ele garante que a instituição está pronta para agir caso as turbulências políticas, advindas das eleições de 2018, coloquem em risco o controle da inflação e a estabilidade da economia. “Nosso papel no BC será o de manter o sistema o mais estável e calmo possível”, avisa.
Para o presidente do BC, mesmo com a atividade econômica reagindo ainda não se pode dizer que houve um descolamento total da economia em relação à política. “À medida que se consegue avançar na economia, dar confiança e tranquilidade, a atividade pode ter seu próprio ritmo. Mas nunca há um descolamento perfeito”, afirma.
Na visão de Ilan, a economia realmente está se recuperando, mas há um longo caminho a ser percorrido.
Ele diz que, mantidas as atuais condições, os juros podem cair até 7% em dezembro, como prevê o mercado, e dá um recado aos consumidores neste Natal, que, acredita, será bem melhor: “Comprem apenas o que cabe no bolso”. Ressalta ainda que o Brasil já cometeu erros demais e não pode se negar a reformar a Previdência Social sob o argumento de que não há déficit no sistema. Veja os principais pontos de sua entrevista ao Estado de Minas.
• Eleições 2018
Como cidadão, poderia me posicionar de forma mais direta. Como presidente do Banco Central, tenho mantido um esforço relevante de nos manter fora da política, de uma forma técnica, sem entrar nessas questões. Acho que isso ajudou a economia a continuar se recuperando, apesar de as políticas andarem com alguma volatilidade. Esse nosso esforço institucional de não se manifestar sobre candidato A ou B eu gostaria de continuar. Nosso papel no BC será o de manter o sistema mais estável e calmo possível. Não há um descolamento perfeito e não precisa ter uma relação de um para um. À medida que se consegue avançar na economia, dar confiança e tranquilidade, a atividade pode ter seu próprio ritmo. Mas nunca há um descolamento perfeito da política.
• Reformas
O que temos dito é que existem duas fases. A primeira é derrubar a inflação e, como consequência disso, os juros caírem. A segunda é conseguir manter a inflação e os juros baixos. São questões sequenciais. Para poder garantir a sustentabilidade desse processo são importantes o ajuste fiscal e as reformas, entre elas a da Previdência. Todas elas compõem o processo necessário para colocar as contas públicas em ordem. Se você, de fato, colocar as contas públicas em ordem – e não falo só deste ano e, sim, ao longo do tempo – teremos uma taxa de juros estrutural menor. E se o país tem uma taxa de juros estrutural menor, significa que, a longo prazo, ela fica mais baixa. Se a taxa estrutural de juros não cair, a questão será temporal. Vai cair e subir. Nesse sentido, as reformas colocadas são importantes para a política monetária. De uma certa forma, ter uma taxa estrutural menor significa juros menores por mais tempo.
• Retomada econômica
A recuperação está vindo, é gradual. Mas a estrada ainda é longa. Foram dois anos de recessão, uma queda acumula de quase 8% (do Produto Interno Bruto, PIB), aumento do desemprego, que começa a cair. Se você olhar, a quantidade de empregos criados este ano chegou a 1 milhão. Esse número não é pequeno, mas, perto do que aconteceu na recessão, a sensação ainda não é das melhores. Ainda temos 13 milhões de desempregados. A sensação é de que estamos no caminho certo, mas não há a sensação de que está tudo resolvido. Por isso, insistimos em que precisamos trabalhar, continuando os ajustes e as reformas para manter a inflação e os juros baixos. A gente tem que perseverar no caminho. Mas acho que há uma parte cíclica. A arrecadação começará a recuperar à medida que a economia voltar a crescer. Então, tem uma parte cíclica e uma que dependerá dos ajustes.
• Investimentos
Acho que o investimento é o próximo passo. Uma recuperação não pode estar baseada só no consumo. Precisa do consumo para começar a vender. Quando vende, a indústria começa a utilizar a capacidade ociosa. Uma vez que a capacidade ociosa diminui, vem o investimento. Tem um lado cíclico. Quando você utiliza a capacidade (produtiva disponível), você tem vontade de ampliar essa capacidade. Do contrário, não há incentivo para investir. Outras questões são estruturais e dependem de esforço de infraestrutura. Tem que dar frutos para investimentos. Um esforço são as privatizações. Quando (um ativo) muda de mãos, dá um novo ar e vem investimento. São vários pilares que devem levar a mais investimento. Eu diria que o investimento depende da capacidade ociosa, depende do esforço de infraestrutura, depende das privatizações, mas também do grau de confiança que você tem. A confiança tem subido, mas existem incertezas que permanecem.
• Consumo
Acho que será um Natal melhor. A economia está se recuperando. Mas, de novo, é um processo gradual, a dona Maria não pode achar que mudou tudo. O brasileiro precisa perceber que as coisas estão melhorando, não de uma hora para outra. Temos feito algumas campanhas e uma delas é falar para as pessoas que têm cartão de crédito que faz uma enorme diferença se elas pagam o mínimo da fatura. Quando o cidadão paga pelo menos o mínimo, os juros são a metade daqueles que não pagam nem o mínimo. A campanha diz para as pessoas gastarem o que têm no bolso. Não é para deixar de comprar, mas, sim, comprar o que cabe no bolso.
