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Estado de Minas

Renda apertada faz do doméstico opção de serviço de luxo

Queda da demanda das famílias, em razão do desemprego e das despesas que cresceram acima das receitas, reduz as vagas e o salário desses trabalhadores, depois de longo período de expansão


postado em 18/07/2016 06:00 / atualizado em 19/07/2016 12:23

Com dificuldade de voltar a trabalhar, Maria dos Anjos se viu forçada a baixar a pretensão salarial(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Com dificuldade de voltar a trabalhar, Maria dos Anjos se viu forçada a baixar a pretensão salarial (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Há seis meses Maria dos Anjos, de 60 anos, busca uma vaga como empregada doméstica. Ela tem referência de experiências anteriores anotadas em carteira e diz aceitar proposta até inferior a sua pretensão inicial, que seria de R$ 1,3 mil. Ainda assim, não está fácil recomeçar. A lei da oferta e da demanda se inverteu no segmento do emprego doméstico, acompanhando a tendência que se instalou com a crise da economia brasileira em quase todos os setores.

Depois de forte crescimento de oportunidades no mercado de trabalho, entre 2008 e 2012, o emprego doméstico ficou escasso, empurrado pela crise que derrubou a renda dos empregadores. Segundo agências especializadas no recrutamento e recolocação profissional na área, Maria dos Anjos não está sozinha na batalha por uma vaga, já que a demanda das famílias caiu, o tempo de recolocação no mercado aumentou e os salários foram reduzidos.

De acordo com pesquisa do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio do setor, que inclui o emprego formal e informal, atingiu R$ 801 no país, valor que ficou estável no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Nas agências especializadas na recolocação profissional dos trabalhadores domésticos, o termômetro do emprego formal esfriou. As empresas informam que o mercado se despediu de ofertas com salários gordos. “Vagas que ofereciam de R$ 1,5 mil a R$ 2,3 mil por mês em Belo Horizonte para a empregada mensalista, praticamente desapareceram. O que existe agora são salários variando em torno de R$ 1,2 mil, mas muitos profissionais até aceitam oferta menor”, comenta Alexandre Rocha, dono da agência Lar Feliz, com quatro unidades em Belo Horizonte.

Nos anos de forte expansão da economia brasileira, as candidatas ao emprego puderam escolher a vaga porque faltavam profissionais nesse mercado, como observa Alexandre. Hoje, a agência tem um cadastro farto, com 3,2 mil candidatos, entre domésticas, babás, cozinheiras, arrumadeiras e motoristas, sendo um terço deles de mão de obra considerada com boa qualificação e habilidades para a função, assim como referências de empregos anteriores.

Em Minas Gerais, o rendimento médio de quem está ativo no mercado de trabalho vem encolhendo, om base nas pesquisas do IBGE, o que ajuda a explicar a redução da demanda. No primeiro trimestre deste ano, a queda foi de 3,7% ante idêntico período do ano passado. Maria dos Anjos considera que o mercado está mais fechado e que o tempo para conseguir um trabalho também está maior. Alexandre Rocha concorda. Em outros tempos o encaminhamento da doméstica era feito no mesmo dia, e, agora, quando se trata de uma profissional com qualificação, o tempo está variando entre dois e três meses. Se a qualificação é baixa, o especialista diz que a recolocação pode exigir prazo bem maior. “A concorrência também aumentou, já que com a nova lei, o emprego doméstico se tornou mais atrativo”, afirma.

A crise econômica e o desemprego, que derrubou a renda real média das famílias, tiveram impacto direto na realidade do setor.No país, o número de trabalhadores domésticos, nas estimativas do IBGE, aumentou em 307 mil pessoas, alta de 5,1% entre o trimestre terminado em maio, e o mesmo trimestre do ano anterior. Os números recentes revertem uma trajetória de queda, o que tem contribuído para inflar a oferta. Gustavo Fontes, analista do IBGE em Minas, acredita que as garantias que o segmento passou a oferecer e também o desemprego em outros segmentos da economia, como o comércio e as empresas prestadoras de serviços, podem estar atraindo mais profissionais ao setor, em busca de renda fixa ou complementar, formal ou informal.

Rosimeire dos Santos, 52, tem experiência de mais de 20 anos no ramo. Ela procura trabalho como empregada doméstica há quatro meses e pretende receber R$ 1,3 mil por mês. Rosimeire também considera que a situação do país piorou e que o custo de vida encareceu. Segunda ela, o marido está empregado, mas o financiamento de um caminhão pesa muito no orçamento da família. “Preciso voltar a trabalhar, sei fazer de tudo”, diz ela.

Formalização pouco ajuda

Falta de anotação de tempo de trabalho em carteira prejudica a busca de Ronilda Dias para voltar ao mercado(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Falta de anotação de tempo de trabalho em carteira prejudica a busca de Ronilda Dias para voltar ao mercado (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Para a administradora da agência Nosso Lar, Rosemeire Genaro, especializada na recolocação profissional de empregados domésticos, o Simples Doméstico ajudou a regulamentar o setor tornando-o mais atrativo, enquanto a crise econômica acelerou uma tendência de redução do número de empregados nas casas de famílias. “Além de o padrão de limpeza das famílias brasileiras ser alto em relação ao existente em outros países, muitos não podem abrir mão da empregada porque precisam trabalhar. Assim, o que está ocorrendo é a unificação de funções. As famílias estão optando por um empregado que faz diversas atividades, a empregada que também é motorista, o cuidador que também ajuda na limpeza.”

Rosimeire Santos diz que já sente uma leve recuperação do mercado, mas que permanece a oferta de salários mais baixos. Ronilda Dias, 36 anos, mudou-se para Belo Horizonte há três meses, e ,desde então, está a procura de uma colocação como doméstica. Ela conta que tem experiência de 21 anos no ramo, mas carrega o peso da informalidade. Apesar do longo tempo na atividade, em carteira são menos de 12 meses anotados. “Neste caso, a profissional deve tentar um trabalho por indicação de amigos. As agências exigem pelo menos um ano de experiência formal”, explica Alexandre Rocha. A despeito da dificuldade, Ronilda está otimista e diz que para começar aceita propostas a partir de um salário mínimo.


Na contramão do Simples Doméstico, o índice de informalidade ainda é muito alto no setor e prejudica profissionais como Ronilda. Em Minas, dos 703 mil trabalhadores domésticos que o IBGE identifica, 438 mil não têm carteira assinada, universo que inclui o trabalho das diaristas. Em junho último, o preço médio cobrado por diaristas em Belo Horizonte subiu 4,28% frente a junho do ano passado, como mostrou levantamento do site de pesquisas Mercado Mineiro. O reajuste é inferior à inflação do período, que registrou alta de 8,84%, medida pelo IBGE.


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