Antonio Temóteo
Brasília – O Banco Central (BC) sucumbiu às pressões do governo e do PT, e manteve a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano. Em uma decisão divida, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) justificaram que as incertezas domésticas, e principalmente, externas, pesaram na deliberação do colegiado, mesmo com a mediana das expectativas de inflação em 7%. O Palácio do Planalto comemorou o veredito, mas o mercado classificou a medida como uma guinada na política monetária e já espera uma queda da Selic no segundo semestre.
A avaliação dos economistas é de que as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) continuarão em alta ao longo de 2016, já que o BC preferiu evitar um aprofundamento maior da recessão do que subir os juros para conter o avanço da carestia. Para a autoridade monetária, a depressão econômica e o desemprego em massa esfriarão ainda mais a demanda por produtos e serviços, e contribuirão para queda da inflação. Além disso, os membros do Copom demonstraram preocupação com a volatilidade dos mercados internacionais, puxados pela queda da atividade chinesa e do petróleo.
Entretanto, diversos especialistas alertaram que com uma economia extremamente indexada, com os aumentos de impostos e tarifas, além da inércia inflacionária, o IPCA caminha para estourar o teto da meta, de 6,5%, até o fim do ano. Sem credibilidade, o sacrifício para conter o avanço do custo de vida seria um ciclo de alta de juros ainda maior do que o projetado pelo mercado de 1,25 ponto percentual. Na opinião de Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, a decisão do Copom jogou uma pá de cal na reputação da autoridade monetária. “Isso foi a prova de rendição do BC ao Executivo”, resumiu.
Até o início da reunião do colegiado, o os diretores da autoridade monetária sinalizavam que tomariam as medidas necessárias para entregar uma inflação de, no máximo, 6,5% em 2016 e garantiram que o IPCA convergiria para a meta, de 4,5%, em 2017. Para cumprir esse objetivo, eles sinalizaram que aumentariam os juros. No entanto, essa indicação provocou a ira do PT e de parte do governo, que consideravam a medida descabida em um momento de baixo crescimento.
O BC ignorou até quando pôde as pressões, mas, na segunda-feira, em reunião com a presidente Dilma Rousseff, Tombini teria recebido um ultimato: “um ciclo longo de alta de juros não era condizente com o momento econômico”. Para atender o desejo da chefe do Executivo, o presidente da autoridade monetária, Em um ato inédito na véspera da reunião do Copom, Tombini divulgou uma nota e avaliou como “significativas” as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) que apontam que a economia encolherá 3,5% em 2016 e ficará estagnada em 2017. Com isso, deu uma guinada no discurso e abriu uma brecha para justificar a manutenção da Selic em 14,25%.
Queda NO FUTURO Na avaliação do economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, a imagem do BC perante ao mercado fica arranhada com a mudança qualitativa no discurso e sinaliza que o foco dos trabalhos é a atividade econômica. “O BC sinalizava que estava preocupado com a desancoragem das expectativas. O mercado fica com a pulga atrás da orelha para saber o que mudou dá última semana até agora para a alteração do discurso”, afirmou.
Rosa adia comentou que as expectativas de inflação continuarão a aumentar nos próximos meses. Ele comentou que deve revisar de 6,8% para 7% a previsão da instituição financeira para a elevação do IPCA em 2016. Apesar disso, o economista comentou que a decisão do BC indica que a Selic pode ser reduzida nos próximos meses. “A indicação é de queda de juros nos próximos meses”, afirmou.
Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, a mudança no discurso do BC provocou ruídos desnecessários, apesar de a autoridade monetária ter argumentos técnicos para justificar a manutenção da Selic em 14,25%. Na opinião dele, a fraqueza da atividade econômica pode abrir espaço para que a autoridade monetária inicie um ciclo de queda dos juros a partir do segundo semestre. “Minha expectativa é de uma inflação de 6,7% em 2016 e o viés é de baixa. Com a economia fraca pode ser possível reduzir a Selic”, comentou. Na avaliação do presidente da RC Consultores, Paulo Rabello de Castro, a decisão do BC foi adequada em um ambiente recessivo.
Análise da notícia
Muito além da inflação
Marcílio de Moraes
No campo político, o Banco Central cedeu às pressões do Planalto e do PT. Mas, por trás da decisão de manter a taxa básica de juros mesmo com a inflação alta, está o que os economistas classificam como dominância fiscal, situação em que a desordem das finanças públicas anula os efeitos dos juros sobre o controle da inflação. Alexandre Tombini resistiu às vontades do mercado financeiro, mas, mais do que isso, com o descontrole fiscal nas contas do governo, o BC perdeu sua ferramenta de política monetária. Como não há pressão de demanda – pelo contrário, há retração – sobre os preços, elevar o custo do dinheiro agora não terá praticamente nenhum efeito sobre a inflação engordada por câmbio, tarifas públicas, impostos e salário mínimo. Por outro lado, o aumento da Selic elevaria a dívida pública e poderia agravar ainda mais a debilitada situação fiscal do país.
