
As barreiras impediram a entrada de milhares de calçados brasileiros na Argentina nos últimos quatro anos. Em 2011, o volume exportado pelos empresários mineiros era de 674 mil pares, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). No ano seguinte, com a vigência das barreiras, o total caiu para menos da metade. Apenas no ano passado o volume superou a marca de 2011. Ao todo, 922 mil pares foram vendidos.
A ampliação das vendas ainda no ano passado é sinal de que o real desvalorizado facilita o ingresso de produtos nacionais em outros mercados. Mas, ao se observar a fatia exportada anos atrás, é visível a possibilidade de crescimento da participação da Argentina nesta pauta. Pelos números do Mdic, em 2011, o volume exportado para a Argentina representava 44,68% do total vendido no exterior. No ano passado, as encomendas para lá representaram apenas 12,18% do total.
“Depois que a Cristina Kirchner começou a reter nossos calçados na alfândega, as exportações recuaram muito. Hoje, até a Colômbia importa mais que a Argentina. Então estamos com uma expectativa muito positiva para retomar as vendas”, afirma o presidente do Sindicato da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova), principal polo produtor de calçados do estado, Pedro Gomes. Antes das restrições, diz ele, o país era responsável por 6% das encomendas da produção da região. Gomes diz esperar mais novidades sobre a relação comercial entre os dois países nas reuniões da Couromoda, maior feira de calçados da América Latina, com forte presença de argentinos.
Em antecipação à decisão da Organização Mundial de Comércio (OMC), a Declaração Jurada de Autorização à Importação (DJAI) deixou de vigorar uns dias antes por decisão de Macri. A DJAI impunha restrições à entrada automática de milhares de produtos. No caso de perecíveis, as mercadorias eram devolvidas sob o risco de deterioração. Em relação aos calçados, a reclamação era que a lentidão fazia com que os produtos chegassem aos importadores já fora da moda.
Para acelerar Outro setor diretamente interessado nas decisões adotadas pelo novo presidente da Argentina é o automotivo. Com a queda nas compras no Brasil, as exportações são uma saída para manter o nível de produção, principalmente com a desvalorização cambial percebida nos últimos meses. As medidas de Kirchner contribuíram para retrair as vendas para o país vizinho.
No caso de Minas Gerais, até 2011, eram 48,2 milhões de automóveis, peças e seus acessórios negociados com os argentinos, devido principalmente à Fiat. No ano passado, o volume total foi de 24,7 milhões, quase a metade. “Estamos animados com a Argentina. A visão econômica adotada pelo novo governo deve colaborar com o aumento das exportações”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, durante a entrevista coletiva para divulgação do balanço de 2015, ano em que as vendas da indústria automotiva encolheram 26,55%. Logo, a procura por aumentar as exportações pode ser uma saída.
No ano passado, o câmbio desvalorizado contribuiu para manter o saldo da balança comercial no azul, invertendo o resultado de 2014, que foi negativo. No caso de Minas Gerais, o cálculo de exportações menos importações fechou positivo em US$ 13,23 bilhões. A Argentina representou o total de 6,13% do valor exportado. O total negociado por empresas mineiras com o país vizinho corresponde a 10,54% do volume exportado por todo o país para lá.
Mercosul O professor de relações internacionais do Ibmec-RJ e coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Leonardo Paz Neves, considera que a eleição de Macri deve reavivar as relações entre Brasil e Argentina. Segundo ele, a “postura liberal” adotada pelo novo presidente hermano resulta na desburocratização das relações comerciais entre os dois países, com a adoção de novas políticas menos protecionistas. “Modifica um pouco o paradigma do comércio com a Argentina”, afirma Neves.
Ele acrescenta que Macri lança nova luz para acordos entre blocos internacionais antes totalmente rejeitados pela antecessora, Cristina Kirchner. O principal deles é o acordo entre o Mercosul e a União Europeia. As negociações estão em pauta há quase duas décadas, mas não avançam. Nos últimos anos, os Kirchners eram apontados como o principal entrave, mas Neves adverte que o “Brasil (também) nunca foi muito favorável”, adotando sempre políticas protecionistas.
Alteração de rota
Logo que assumiu, presidente argentino fez modificações rápidas na política econômica do país
14 de dezembro
>> Os impostos relativos às exportações de grãos (trigo, milho e sorgo) são zerados para incentivar a produção agrícola. No caso da soja, a alíquota é reduzida de 35% para 30%.
15 de dezembro
>> O presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger, aumentou as taxas de juros em nove pontos percentuais para Letras de Crédito do Banco Central. Depois, as mesmas foram reduzidas em cinco pontos, para 33%.
17 de dezembro
>> A cotação do dólar é unificada e o controle para compra da moeda norte-americana e transferência de divisas de empresas multinacionais para suas sedes no exterior é extinto.
Estreitando laços
Com a maior abertura das fronteiras vizinhas, o Brasil pode beneficiar-se especialmente na exportação de produtos manufaturados, afirma o professor de relações internacionais do Ibmec-RJ e coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) Leonardo Paz Neves. Ele diz que os países do Mercosul são um dos poucos casos em que as empresas brasileiras conseguem exportar manufaturados. O setor de químicos também pode ser beneficiado com o aumento das exportações. Por outro lado, o presidente argentino diminuiu os impostos de exportação sobre soja, carne, trigo e milho, o que aumenta a competitividade desses produtos em mercados estrangeiros.
Antes mesmo de tomar posse, Maurício Macri embarcou para o Brasil em sua primeira viagem internacional como presidente eleito da Argentina. A viagem é vista como a sinalização do estreitamento de laços entre os dois países, principalmente ao se considerar que no encontro o político reuniu-se com 150 empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
“Ele não veio simplesmente visitar o Brasil. Ele foi à Fiesp. Não é por acaso. Poderia ter ido a Brasília. A Fiesp é o coração do comércio internacional, onde ele vai conseguir alavancar os negócios”, afirma o professor de relações internacionais do Ibmec-RJ. Na cerimônia, Macri recebeu o título da Ordem do Mérito Industrial de São Paulo, concedida a personalidades e instituições reconhecidas ou admiradas pela indústria. “Juntos, Argentina e Brasil devem estar mais unidos do que nunca”, disse o argentino no evento.
A eleição de Maurício Macri na Argentina é vista por especialistas como a interrupção de um ciclo de governos tidos como de esquerda na América do Sul. O professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes chama a atenção para o segundo turno das eleições no Brasil, com a disputa acirrada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Tal mudança no país vizinho deve forçar alteração nas relações do Mercosul.
Dawisson Belém Lopes corrobora a opinião de que Macri deve buscar maior abertura das relações comerciais argentinas, mas considera que o novo presidente pode até mesmo forçar atuação mais independente dos demais países do bloco caso não se chegue a um acordo e diz ser possível a ocorrência de “alguns estranhamentos na relação bilateral” com o Brasil. “Macri não vai gastar tempo e energia diplomática com o Mercosul. Não que ele vá romper, mas pode tomar medidas à revelia do bloco”, afirma Belém Lopes.
Com isso, o professor da UFMG enxerga uma possível mudança no dinamismo do Mercosul. Segundo ele, uma tendência é a adoção de um modelo de regionalismo aberto, no qual é dada preferência aos países do bloco, mas sem exclusividade. No caso, seria possível firmar outros acordos sem a necessidade de se discutir tão a fundo tarifas com os demais integrantes do bloco.
