Brasília – Os brasileiros apelaram para as economias em 2015 na tentativa de manter o orçamento equilibrado em um ano de crise econômica, alto desemprego e níveis crescentes de endividamento. Os saques na aplicação financeira mais tradicional do país somaram R$ 53,568 bilhões, maior volume de retiradas dos últimos 20 anos, reconheceu o Banco Central. A instituição compila as informações sobre a poupança desde 1995. Balançou, também, a atratividade da aplicação, em relação a outras opções no mercado financeiro, a combinação entre juros e dólar alto.
O dinheiro depositado na poupança é remunerado por uma taxa fixa de 0,5% ao mês, acrescida da Taxa Referencial (TR), cálculo que vale para quando a taxa básica de juros (a Selic, que remunera os títulos do governo e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio) está acima de 8,5% ao ano. No ano passado, as aplicações totalizaram R$ 1,906 trilhão, enquanto as retiradas foram de R$ 1,959 trilhão.
Com a Selic em 14,25% anuais, quem ainda consegue poupar prefere investir, por exemplo, em títulos públicos ou em fundos de renda fixa. Por outro lado, com a inflação em alta, as famílias têm gastado mais com energia elétrica, alimentação e gasolina. Para economistas ouvidos pelo Estado de Minas, a tendência é que a poupança mantenha perdas neste ano.
Como os indicadores da economia apontam para aumento do desemprego nos próximos meses, as famílias serão obrigadas a usar as economias para manter as contas em dia. Com a queda na renda real dos trabalhadores, é difícil imaginar alguma recuperação da poupança em 2016.
Na opinião de Myrian Lund, educadora financeira da Fundação Getulio de Vargas (FGV), os brasileiros continuarão com o orçamento apertado em 2016. Ela explicou que, apesar de boa parte ter aproveitado o fim do ano para liquidar alguns débitos em atraso com o 13º salário e com os descontos oferecidos pelos credores, o nível de endividamento continua elevado. “Ainda temos uma inflação alta e salários sem reajuste real (acima da inflação). Com isso, muitos não conseguem fechar as contas no azul”, disse.
Myrian Lund recomenda que as famílias trabalhem para equilbrar receitas e gastos, cortando despesas supérfluas para economizar. Ela enfatizou os compromissos financeiros típicos do começo de ano, como impostos e material escolar. “Vai ser difícil ver um saldo positivo da poupança com todas essas dificuldades. Muitos deixarão de fazer economia para honrar as contas”, afirmou.
Foi por pouco que 2015 não teve saques maiores do que depósitos em todos os meses. Pela primeira vez no ano, o resultado de dezembro ficou positivo em R$ 4,789 bilhões, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central. O mês costuma ser favorável ao investimento por causa do pagamento do 13º salário. O resultado de dezembro ficou maior até do que o de idêntico mês de 2014, quando as aplicações líquidas ficaram em R$ 3,572 bilhões.
Até o dia 30, o saldo já estava positivo em R$ 3,754 bilhões, o que não havia sido visto em nenhum mês do ano passado. O que ocorreu ao longo de 2015 foram cifras negativas até a véspera do fechamento do mês, com o sazonal aumento dos depósitos na caderneta no último dia útil. Isso costuma ocorrer por causa de aplicações automáticas da conta corrente que alguns investidores já deixam programadas para ocorrer.
ROLO COMPRESSOR Em janeiro, o resultado ficou negativo em R$ 5,5 bilhões e, em fevereiro, em R$ 6,3 bilhões. Em março, os resgates superaram os depósitos em R$ 11,4 bilhões e, em abril, em R$ 5,8 bilhões. Em maio, o saldo ficou no vermelho em R$ 3,2 bilhões e, em junho, em R$ 6,3 bilhões. No mês seguinte, o volume de saques alcançou R$ 2,454 bilhões a mais que as aplicações e, em agosto, R$ 7,501 bilhões.
Em setembro, as retiradas foram de R$ 5,293 bilhões e, em outubro, os saques ficaram em R$ 3,3 bilhões. Em novembro, as saídas superaram as entradas em R$ 1,303 bilhão. O resultado negativo de março foi o pior para qualquer mês da série histórica do BC, iniciada em 1995. Com o resultado de dezembro, o saldo total da poupança ficou em R$ 656,590 bilhões, já incluindo os rendimentos do período, no valor de R$ 47,430 bilhões. Os depósitos na caderneta somaram R$ 197,960 bilhões no mês passado, enquanto as retiradas foram de R$ 193,170 bilhões.
Devido à sangria na poupança vista desde o início do ano, o setor imobiliário passou a reclamar de falta de recursos, atrelados à poupança, para financiamentos de casas e apartamentos. Para minimizar esse quadro, o BC decidiu, em maio, liberar os bancos para usar R$ 22,5 bilhões dos depósitos da poupança que são obrigados a manter na instituição para desembolsos nas operações de financiamento habitacional e rural. Recentemente, esses recursos foram liberados para uso também em investimento em infraestrutura.
Palavra de especialista
Paulo Vieira, professor de economia e consultor financeiro
Lastro quebrado
Saques superiores à aplicações na caderneta de poupança são uma má notícia para a economia, porque a aplicação serve de lastro para programas importantes, como aqueles que financiam a casa própria e os investimentos no campo. É mais um problema sério que o país enfrenta. As famílias estão queimando reservas porque ficaram descapitalizadas e endividadas, num Brasil que passa por contingenciamento muito grande de recursos. Há um claro empobrecimento da população e outra causa das perdas da poupança é a própria alta das taxas de juros, que faz com que a aplicação seja menos interessante em termos de remuneração.
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Brasileiros queimam R$ 53,5 bi da poupança para driblar a crise
Saques representaram, em 2015, o maior volume de perdas já visto nos últimos 20 anos na tradicional aplicação, num período marcado por renda apertada e alto endividamento
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