Voltar a consumir antes de conseguir quitar prestações em atraso se tornou uma armadilha para o brasileiro, que, ao se endividar, arca com taxas de juros que estão entre as mais altas do planeta, caindo em uma bola de neve. Dados do Banco Central (BC) mostram que neste ano muitos consumidores tentaram quitar suas contas, mas depois de limpar o nome na praça, não conseguiram sustentar o pagamento das parcelas e voltaram a se tornar inadimplentes.
O fenômeno da reinadimplência começou o ano com tendência de queda, mas voltou a crescer a partir de maio, atingindo, segundo o BC, o percentual de 17,3% em novembro, que é três vezes a taxa geral da inadimplência para pessoa física, de 5,8% no mesmo mês. Quando renegocia a dívida com o credor, em um prazo médio de três anos, por exemplo, um terço dos consumidores atrasa o pagamento em pelo menos 15 dias e a metade não consegue seguir adiante, abandonando as parcelas antes de conseguir se ver livre da dívida.
Uma das explicações para o sufoco do orçamento doméstico, é que ao longo do ano, as condições de crédito pioraram para o brasileiro. A avaliação de risco dos bancos está mais rígida e a taxa de juros mais alta. Além disso, a inflação de 10,5% ao ano, segundo o IBGE, corrói a renda, ameaçada também pelo crescimento do desemprego. Com essa combinação de fatores o calote voltou a subir ao maior patamar desde 2013 e deve fechar esse ano em 6%, segundo projeção da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). A expectativa é que o índice continue a subir, atingindo 7,5% no ano que vem, o que acende todos os alertas e pressiona ainda mais a reinadimplência.
Levantamento da consultoria Trading Economics mostra que, entre 196 países pesquisados, o Brasil tem a 18ª taxa básica de juros mais alta do planeta, cenário desfavorável para o endividamento. O economista Róridan Penido Duarte, representante do Conselho Regional de Economia de Minas Gerias (Corecon-MG) na entidade federal (Cofecon), observa que a reinadimplência reflete uma espécie de “efeito riqueza” ou seja, ao limpar o nome, o brasileiro fica com o compromisso de pagar mensalmente as parcelas renegociadas, no entanto, diante da nova situação de crédito, ele se sente livre para consumir e contrair novas dívidas. O resultado é um só. Quando no orçamento não cabem duas prestações (a antiga dívida e a nova parcela) o devedor é novamente tragado pela bola de neve.
CUSTO DO DINHEIRO A taxa média de juros nas concessões de crédito subiu de 47,9% ao ano em outubro para 48,1% ao ano em novembro. Com essa alta, a taxa volta a ser a maior da série iniciada em março de 2011. Desde o início do ano, em todos os meses a taxa de juros tem sido recorde e batido a do mês anterior, de acordo com dados do Banco Central. Nos primeiros 11 meses deste ano, a taxa subiu 10,8 pontos porcentuais. Em 12 meses, a alta é de 10 pontos.
Pagar dívidas em atraso se tornou mais difícil em 2015. Em todos os meses do ano a taxa de juros tem sido recorde e batido a do mês anterior. Segundo o Banco Central, nos primeiros 11 meses deste ano, a taxa média de juros nas concessões de crédito livre subiu 10,8 pontos porcentuais. Em 12 meses, a alta é de 10 pontos, alcançando 48%, o mais alto percentual da série histórica, iniciada em 2011. Para a pessoa física, a taxa de juros no crédito livre passou de 64,7% em outubro para 64,8% em novembro, também um recorde na série.
Entre as principais linhas de crédito livre para pessoa física, o destaque vai para o cheque especial, cuja taxa subiu de 278,1% em outubro para 284,8% ao ano no mês passado. Essa é uma das linhas mais caras que o consumidor pode acessar, perdendo apenas para o rotativo do cartão de crédito.
No cartão de crédito, ferramenta mais usada pelo brasileiro, o descontrole gira uma bola de neve com taxas estratosféricas e que podem se tornar impagáveis para o consumidor já que ultrapassam 400% ao ano. Em 2015, a renda média do brasileiro foi reduzida, o que é mais um desafio para manter em dia as prestações. Róridan Duarte comenta que os números da reinadimplência mostram que se por um lado a negociação de dívidas é a chance de limpar o nome, ao repactuar os pagamentos em atraso, o brasileiro também se vê livre para voltar a gastar.
PÉSSIMO NEGÓCIO A reinadimplência é um negócio ruim para o consumidor. Quando entra em acordo com o banco ou outro credor, geralmente o brasileiro consegue estender o prazo para pagamento e reduzir as taxas de juros. Quando não consegue honrar os compromissos que assumiu na negociação, a cobrança retorna ao patamar inicial, valendo para o contrato os valores de antes, que levaram a inadimplência. “É preciso observar no momento do acordo se o orçamento disponível é suficiente para arcar com a despesa”, lembra o economista.
Outro ponto é que o credor pode cobrar o vencimento antecipado, ou seja, pode executar todo o valor da dívida. “Nesse momento, o consumidor deve avaliar, financeiramente falando, se a devolução do bem, não é a atitude menos traumática”, observa Róridan.
O POVO FALA
Você pretende fazer dívidas em 2016?

Dona de casa e pensionista
“De jeito nenhum. Não uso cartões de crédito e todas as compras que faço, pago à vista. Este ano, troquei alguns móveis sem fazer prestações. Mesmo não conseguindo guardar dinheiro, quando preciso comprar alguma coisa, faço um esforço. Em 2016 não pretendo comprar nada e nem pagar juros.”

Engenheiro agrônomo
“Usei cheque especial pouquíssimas vezes, há muito tempo. Hoje em dia, de jeito nenhum. Pago tudo no cartão de débito e este ano preferi não fazer compras. Guardei o meu 13º para fazer poupança e no ano que vem não planejo comprar nada de preço alto.”
Turbulência exige cautela
A recessão na economia e o crescimento do endividamento provocaram também um efeito contrário ao da reinadimplência. A diarista Maria José de Almeida, de 37 anos, está com medo de gastar e prefere não fazer dívidas. Este ano, ela trocou os presentes de Natal por uma pequena poupança. Preferiu guardar o dinheiro que tinha em mãos.“Estou com medo de que essa crise de que todos falam tanto fique pior no ano que vem. Não estou gastando nada, estou poupando um pouquinho porque não sabemos o dia de amanhã. O Natal este ano foi sem presentes. Não quero fazer dívida nenhuma, e só compro se for à vista.” No passado, quando tinha cartão de crédito, a diarista já chegou a pagar juros sobre valores baixos, mesmo assim, ela conta que não gostou. “Quebrei o cartão”, revela.
Em tempos de crédito escasso no mercado, o cartão já pré-aprovado costuma ser uma tentação que o consumidor deve fugir, Miguel José de Oliveira, presidente da Associação Nacional dos executivos de Finanças (Anefac) lembra que uma dívida no rotativo do cartão pode quintuplicar no prazo de um ano e, por isso, a ferramenta não deve ser usada com essa finalidade. “O consumidor deve optar por linhas mais baratas, como o crédito pessoal ou o consignado para evitar a inadimplência que deve continuar crescendo em 2016.”
Para o crédito pessoal, a taxa total de juros caiu de 52,9% em outubro para 51% em novembro, segundo balanço do Banco Central. No caso de consignado, a taxa passou de 28% para 28,4% de um mês para o outro e, nas demais linhas, de 129,3% para 120,4%.

