
Em 1944, um ano antes do fim da guerra, Samuel conseguiu fugir, durante uma transferência de presos. Foi para a Alemanha em busca do pai e lá permaneceu até 1951, vendendo produtos para os aliados. Em Munique, conheceu Ana, com quem se casou. Em 1952, o casal deixou a Europa e se estabeleceu em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde, com apenas US$ 6 mil, comprou uma casa e uma charrete para trabalhar como mascate, revendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta, para uma carteira de 200 clientes. À época, já adotava os pagamentos parcelados.
Cinco anos depois de chegar ao Brasil, Samuel naturalizou-se brasileiro e comprou a primeira loja, à qual deu o nome Casas Bahia, em homenagem aos nordestinos, seus principais clientes. Focada na baixa renda, a empresa permitia, até 2006, que os compradores não comprovassem renda para a abertura de crediário. Em 2004, quando firmou parceria com o Bradesco, 80% das vendas da rede eram financiadas, a maioria com recursos próprios. A carteira de crédito chegava a R$ 4,5 bilhões e apenas R$ 1 bilhão era captado no mercado.
De acordo com a família, Samuel Klein dedicou a vida inteira a concretizar os sonhos dos fregueses. Simples e irreverente, costumava dizer que o segredo é "vender a quem precisa". Ele tornou a Casas Bahia case mundial na concessão de crédito à população de baixa renda, foi capítulo do livro The fortune at the bottom of the pyramid, do guru da estratégia empresarial, o indiano C.K. Prahalad, e tema de estudo das principais universidades de negócios do mundo.
FRASES Em novembro de 2003, registrou suas memórias no livro Samuel Klein e Casas Bahia — Uma Trajetória de Sucesso. Entre os pensamentos divulgados na publicação estão frases que mostram sua personalidade. Entre elas: "temos que amar o país em que vivemos"; "a palavra crise não existe no meu dicionário"; "eu sempre comprei por 100 e vendi por 200". O empresário considerava que "a riqueza do pobre é o nome", e cunhou pérolas como: "O crédito é uma ciência humana, não exata. Não importa se o cliente é um faxineiro ou um pedreiro, se ele for bom pagador, a Casas Bahia dará crédito para que ele resgate a cidadania e realize seus sonhos".
No final de 2009, o Grupo Pão de Açúcar, anunciou a união com as Casas Bahia. O objetivo das famílias Klein e Diniz era ganhar escala para acelerar o plano de expansão pelo Brasil. No entanto, os Klein consideraram que o negócio foi subavaliado. Os dois grupos tiveram que reavaliar a fusão, com a renegociação de valores e de algumas condições do contrato. Um novo contrato foi firmado em meados de 2010, com injeção de R$ 689 milhões por parte do grupo Abílio Diniz.
A família Klein iniciou, então, a retirada do negócio, ao comunicar a oferta de parte de suas ações da Via Varejo — companhia controladora da empresa— na Bolsa de Valores de São Paulo (BMFBovespa), em transação que ultrapassou os R$ 2 bilhões.
HOMENAGENS Nessa quinta, todas as lojas da rede Casas Bahia fizeram um minuto de silêncio, às 14h, em homenagem ao fundador do grupo. Em nota, a presidente Dilma Rousseff manifestou pesar pela morte de Samuel Klein, lembrando que "refugiado da Segunda Guerra Mundial, o polonês encontrou no Brasil uma nova pátria e a oportunidade de recomeçar a sua vida". O presidente executivo do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, manifestou suas condolências à família ressaltando as virtudes de patriarca. "É uma referência para todos os brasileiros. Sem jamais esmorecer, conseguiu vencer toda sorte de obstáculos para construir uma família unida, e uma marca de sucesso, as Casas Bahia, empresa associada à promoção da felicidade para milhões de brasileiros".
Para Roque Pellizzaro Junior, presidente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), "o Brasil perde um pedaço da história, um ícone que transformou o conceito de varejo, um grande empreendedor, uma pessoa à frente do seu tempo". A Via Varejo, ao comunicar com pesar o falecimento de Samuel Klein, destacou que foi sua visão e seu pioneirismo na oferta de crédito às camadas populares que realizaram os sonhos de milhões de famílias brasileiras.
