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Estado de Minas

Fundador das Casas Bahia deixa como legado a crença no ser humano e a aposta no consumo

Aos 91 anos, refugiado de guerra e fundador da Casas Bahia morre em São Paulo


postado em 21/11/2014 06:00 / atualizado em 21/11/2014 07:27

Samuel Klein veio para o Brasil em 1952 e se naturalizou em 1957(foto: Foto de arquivo de 24/11/2003)
Samuel Klein veio para o Brasil em 1952 e se naturalizou em 1957 (foto: Foto de arquivo de 24/11/2003)
Brasília – Morreu na manhã dessa quinta-feira, de insuficiência respiratória, o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein. Internado há 15 dias no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, foi enterrado no Cemitério Israelita Butantã. Um dos empresários mais respeitados do país, com apenas o nível primário de escolaridade, criou uma rede de lojas que se expandiu por todo o país. Segundo a assessoria de imprensa da família Klein, ele havia completado 91 anos no último dia 15. Nascido em Lublin, na Polônia, em 1923, Samuel era o terceiro de nove irmãos. Aos 19 anos, ele e o pai foram presos pelos nazistas e levados para Majdanek — terceiro maior campo de concentração da Segunda Guerra Mundial.

Em 1944, um ano antes do fim da guerra, Samuel conseguiu fugir, durante uma transferência de presos. Foi para a Alemanha em busca do pai e lá permaneceu até 1951, vendendo produtos para os aliados. Em Munique, conheceu Ana, com quem se casou. Em 1952, o casal deixou a Europa e se estabeleceu em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde, com apenas US$ 6 mil, comprou uma casa e uma charrete para trabalhar como mascate, revendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta, para uma carteira de 200 clientes. À época, já adotava os pagamentos parcelados.

Cinco anos depois de chegar ao Brasil, Samuel naturalizou-se brasileiro e comprou a primeira loja, à qual deu o nome Casas Bahia, em homenagem aos nordestinos, seus principais clientes. Focada na baixa renda, a empresa permitia, até 2006, que os compradores não comprovassem renda para a abertura de crediário. Em 2004, quando firmou parceria com o Bradesco, 80% das vendas da rede eram financiadas, a maioria com recursos próprios. A carteira de crédito chegava a R$ 4,5 bilhões e apenas R$ 1 bilhão era captado no mercado.

De acordo com a família, Samuel Klein dedicou a vida inteira a concretizar os sonhos dos fregueses. Simples e irreverente, costumava dizer que o segredo é "vender a quem precisa". Ele tornou a Casas Bahia case mundial na concessão de crédito à população de baixa renda, foi capítulo do livro The fortune at the bottom of the pyramid, do guru da estratégia empresarial, o indiano C.K. Prahalad, e tema de estudo das principais universidades de negócios do mundo.

FRASES Em novembro de 2003, registrou suas memórias no livro Samuel Klein e Casas Bahia — Uma Trajetória de Sucesso. Entre os pensamentos divulgados na publicação estão frases que mostram sua personalidade. Entre elas: "temos que amar o país em que vivemos"; "a palavra crise não existe no meu dicionário"; "eu sempre comprei por 100 e vendi por 200". O empresário considerava que "a riqueza do pobre é o nome", e cunhou pérolas como: "O crédito é uma ciência humana, não exata. Não importa se o cliente é um faxineiro ou um pedreiro, se ele for bom pagador, a Casas Bahia dará crédito para que ele resgate a cidadania e realize seus sonhos".

No final de 2009, o Grupo Pão de Açúcar, anunciou a união com as Casas Bahia. O objetivo das famílias Klein e Diniz era ganhar escala para acelerar o plano de expansão pelo Brasil. No entanto, os Klein consideraram que o negócio foi subavaliado. Os dois grupos tiveram que reavaliar a fusão, com a renegociação de valores e de algumas condições do contrato. Um novo contrato foi firmado em meados de 2010, com injeção de R$ 689 milhões por parte do grupo Abílio Diniz.

A família Klein iniciou, então, a retirada do negócio, ao comunicar a oferta de parte de suas ações da Via Varejo — companhia controladora da empresa— na Bolsa de Valores de São Paulo (BMFBovespa), em transação que ultrapassou os R$ 2 bilhões.

HOMENAGENS Nessa quinta, todas as lojas da rede Casas Bahia fizeram um minuto de silêncio, às 14h, em homenagem ao fundador do grupo. Em nota, a presidente Dilma Rousseff manifestou pesar pela morte de Samuel Klein, lembrando que "refugiado da Segunda Guerra Mundial, o polonês encontrou no Brasil uma nova pátria e a oportunidade de recomeçar a sua vida". O presidente executivo do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, manifestou suas condolências à família ressaltando as virtudes de patriarca. "É uma referência para todos os brasileiros. Sem jamais esmorecer, conseguiu vencer toda sorte de obstáculos para construir uma família unida, e uma marca de sucesso, as Casas Bahia, empresa associada à promoção da felicidade para milhões de brasileiros".

Para Roque Pellizzaro Junior, presidente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), "o Brasil perde um pedaço da história, um ícone que transformou o conceito de varejo, um grande empreendedor, uma pessoa à frente do seu tempo". A Via Varejo, ao comunicar com pesar o falecimento de Samuel Klein, destacou que foi sua visão e seu pioneirismo na oferta de crédito às camadas populares que realizaram os sonhos de milhões de famílias brasileiras.


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