Frankfurt — A fraqueza econômica da Zona do Euro, que ameaça cair em um novo período de recessão enquanto ainda enfrenta altas taxas de desemprego, levou o Banco Central Europeu (BCE) a baixar, ontem, um pacote de medidas para injetar recursos no mercado e tentar reanimar o nível de atividade na região. A instituição baixou para apenas 0,05% ao ano os juros cobrados na sua principal linha de financiamento e passou ao terreno negativo (-0,20%) a taxa aplicada aos recursos mantidos na entidade por instituições financeiras. Isso significa que, em vez de pagar juros, passará a cobrar dos bancos que deixarem fundos depositados nos seus cofres.
“O BCE vai dar dinheiro para os bancos gastarem e penalizá-los por não emprestar”, explicou Valentin Marinov, estrategista do Citi, em entrevista publicada no site do jornal britânico Financial Times. Além disso, numa iniciativa que chegou a surpreender os analistas, a autoridade monetária europeia anunciou que, a partir de outubro, dará início a um programa de compra de títulos privados que poderá chegar a 500 bilhões de euros (US$ 650 bilhões) em três anos. O objetivo das medidas é aumentar o volume de crédito ao setor produtivo e afastar a ameaça de deflação no bloco monetário, formado por 18 países.
A deflação é uma situação em que uma queda generalizada de preços faz empresas e consumidores adiarem as compras, o que reduz ainda mais a demanda e, novamente, os preços, num movimento em espiral que acaba resultando em queda na produção e aumento do desemprego. A economia da Zona do Euro estagnou no segundo trimestre, enquanto a inflação em 12 meses caiu para 0,3% em agosto. O BCE trabalha com uma meta anual de pouco menos de 2%, mas estima que, neste ano, os preços devem ter variação de apenas 0,6%.
Não bastassem as dificuldades estritamente econômicas, a crise na Ucrânia, que elevou as tensões políticas e ameaça resultar no corte no fornecimento de gás russo para a Europa, pesou consideravelmente na confiança empresarial. "O conselho diretor vê riscos cercando a perspectiva econômica para a Zona do Euro", disse o presidente do BCE, Mario Draghi, ao explicar as medidas. "A perda do ímpeto econômico pode afetar o investimento privado, e riscos geopolíticos elevados podem ter mais impacto negativo sobre a confiança de empresas e de consumidores", acrescentou.
Bolsas sobem
Embora o quadro traçado por Draghi tenha sido sombrio, os mercados reagiram bem às iniciativas do BCE. As principais bolsas de valores europeias subiram e o índice FTSEurofirst 300, que reflete o comportamento das ações das principais empresas do continente, chegou a atingir, durante as negociações, o nível mais elevado em seis anos e meio. A alta refletiu o sentimento dos investidores de que as autoridades estão agindo contra a crise e a constatação de que, diante do atual quadro de incerteza, são poucas as oportunidades de aplicação. "O mercado está inundado por liquidez e há poucas alternativas às ações", disse o operador sênior da Peregrine & Black Markus Huber.
O euro, entretanto, caiu ao nível mais baixo em relação ao dólar nos últimos 13 meses, uma reação ao corte drástico das taxas de juros, que torna menos atraentes os investimentos na moeda europeia, mas que, em compensação, pode aumentar em alguma medida a competitividade das exportações do bloco, o que ajuda a recuperação. Pelas novas projeções do BCE, a Zona do Euro deve crescer apenas 0,9% neste ano e 1,6% em 2015.
