
Reflexo da crise, a Argentina está próxima de ser ultrapassada pela Alemanha como terceira maior origem das importações brasileiras. A diferença é de apenas US$ 20 milhões nos seis primeiros meses. No ano passado, era de US$ 1,44 bilhão. A Holanda também caminha para ultrapassar a Argentina como terceiro maior destino das exportações brasileiras: o país sul-americano recebe 6,71% do total, enquanto os europeus, 6,25%. Em junho, a Holanda já importou mais do Brasil que a Argentina.
A crise portenha tende, ainda, a provocar impacto além do comércio, contribuindo para corroer o Produto Interno Bruto (PIB, a soma da produção de bens e serviços) do Brasil. Nas estimativas preliminares feitas pelo professor do Insper, instituto de ensino e pesquisa em negócios, Otto Nogami, a queda nos negócios entre os vizinhos latinos pode conter o crescimento brasileiro entre 0,15 e 0,2 ponto percentual.
O maior impacto no balanço de comércio, se considerada a receita de vendas, foi sentido pela indústria automotiva. A redução nas exportações de carros de passeio no primeiro semestre totalizou US$ 653,3 milhões (retração de 31,5%), de arcordo com dados do Mdic. O setor representava 22,3% do valor total do comércio brasileiro com a Argentina nos seis primeiros meses do ano passado, tendo recuado para 19,2% no mesmo período de 2014.
Queda
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa que o país deixou de vender 74 mil carros entre janeiro e junho, no comparativo com o mesmo período do ano passado, o que, de certa forma, contribuiu para a queda de 16,8% na produção do setor no período. O volume das exportações da Fiat, por exemplo, diminuiu em 9,1 mil unidades, caindo de 32 mil para 22,9 mil unidades (28,5% a menos). “A Argentina enfrenta problemas localizados, momentâneos e conjunturais, que esperamos sejam superados no curto prazo. Brasil e Argentina são parceiros naturais por sua própria geografia, e o fluxo comercial entre ambos os países deve ser preservado”, afirma o presidente da Fiat Chrysler para a América Latina, Cledorvino Belini.
A imprensa argentina noticiou na semana passada que a Renault iria deixar de importar os carros montados no Brasil pelo menos até dezembro. Mas a fábrica brasileira nega. A queda de vendas, no entanto, já é significativa. O país vizinho comprou 9 mil carros a menos da marca francesa.
O professor de economia do Insper Otto Nogami diz que caso se confirme o default pode afetar o comércio entre os dois países de alguma maneira. Ele acredita que o volume de importação da Argentina tende a diminuir e, com a esperada desvalorização do peso argentino, o importador brasileiro poderá recusar a moeda. Em troca, exigiria que os pagamentos fossem feitos em real. “É preciso ver até que ponto o governo argentino permitirá negócios em real”, afirma Nogami.
Os cortes são ainda mais significativos em outros setores se consideradas as variações percentuais de comércio. Na lista, estão semimanufaturados de ferro e aços (-52,3%), motores para veículos automotivos (-39,4%) e tratores (-39,2%). O setor de calçados segue no ranking, com retração de 39,1% no primeiro semestre. A queda nas exportações desses produtos foi de US$ 21,3 milhões (R$ 48,13 milhões).
O vice-presidente do Sindicato da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova) – polo do Centro-Oeste de Minas Gerais –, Júnior César Silva, afirma que a crise argentina agrava as relações de exportação entre os dois países. Ele diz que, uma década atrás, 5% da produção de Nova Serrana era destinada ao país vizinho. Atualmente, só 1%. Há dois anos, milhares de pares de calçados produzidos no Brasil têm sido barrados na fronteira por tempo três vezes maior que o estabelecido pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Os produtos chegaram a ficar mais de seis meses sem liberação para entrar na Argentina. “Os importadores precisam do produto para determinada estação, mas com a demora de seis meses, ele chega fora da temporada”, afirma Silva, que calcula em US$ 1 milhão o prejuízo para a indústria por esse motivo.
