
As vendas desaquecidas e o crédito mais caro obrigam as concessionárias de veículos a usar todas as armas possíveis para desovar os estoques. A novidade, agora, é parcelar no cartão de crédito a entrada do financiamento para a compra do carro zero quilômetro. A modalidade já faz parte de do cardápio de ofertas de boa parte das revendas autorizadas de Belo Horizonte, que aceitam o pagamento de valores de até R$ 15 mil parcelado em 12 vezes. Se a iniciativa não integrar a política de vendas de praxe da loja, dependendo da negociação e do contrato, a empresa aceita o parcelamento no cartão. Ainda de acordo com as concessionárias ouvidas pelo Estado de Minas, a opção só não tem sido divulgada na maioria da vezes devido às altas taxas cobradas pelas administradoras do chamado dinheiro de plástico, que podem encarecer o financiamento ao consumidor.
O educador financeiro Erasmo Vieira alerta para o risco que esse tipo de crédito oferece, já que o cliente vai acumular duas parcelas fixas mensais, a do cartão de crédito e aquela do financiamento. “Ele tem que fazer as contas e ver se as duas prestações cabem no orçamento da família. Se ficar em dúvida, é melhor esperar. As taxas de juros dos cartão são as mais altas do mercado e as do financiamento também”, explica. A inadimplência de uma das dívidas pode significar uma bola de neve.
Na concessionária Carbel, revendedora da marca Volkswagem, o valor de entrada do financiamento no cartão de crédito pode ser de até R$ 15 mil, parcelados em 12 vezes. O gerente de vendas da Carbel, André Corrêa Nunes, afirma que está é só mais uma das iniciativas para tornar o negócio atrativo e tentar alavancar as vendas que não alcançam os patamares de 2012, quando foram registrados recordes de consumo e de produção. “A economia estagnada e a realização da Copa do Mundo, trazendo feriados e manifestações, contribuem para um cenário menos favorável neste ano”, afirma.
Concessionárias Fiat, Chevrolet e Renault de BH também aceitam a entrada parcelada no cartão. De acordo com gerente de vendas da Tecar Fiat, Shelber Morato, o parcelamento pode ser feito em até 10 vezes, e os valores são negociados de acordo com o modelo do carro e as condições de contrato. A nova modalidade de negociação começou a ser ofertada neste mês, também com o intuito de alavancar as vendas. “Os bancos estão muito rigorosos para aprovar financiamentos. Acredito que a retração vai até julho, no fim da Copa do Mundo. A expectativa é de que a situação volte a melhorar no segundo semestre”, ressalta. Shelber conta, ainda, que a cada 10 pedidos de financiamentos que a concessionária remete aos bancos, quatro são recusados.
O analista de sistemas Ney Brandi reclama da dificuldade para contratar financiamento que caiba no bolso. Há quatro meses ele tenta negociar com uma concessionária para incluir o carro usado no negócio na forma de entrada e financiar o restante, cerca de R$ 20 mil. “As taxas de juros estão muito altas e o valor que eles pagam no usado é inferior ao de mercado, mesmo que o carro esteja bem conservado”, diz.

Montadoras têm queda de 18%
Diante do consumidor retraído e das exportações em queda, a indústria automotiva brasileira sofreu, em maio, o terceiro recuo consecutivo da produção. Os 282,5 mil veículos fabricados no mês passado, incluindo carros de passeio, caminhões, ônibus e comerciais leves, significaram declínio de 18% em relação ao mesmo período do ano passado. O setor acumula um estoque de 400 mil unidades, distribuídas entre as concessionárias e os pátios das montadoras, o suficiente para 41 dias de vendas.
No início do ano, as empresas esperavam produzir neste ano 1,4% a mais do que em 2013. De janeiro a maio, no entanto, saíram das linhas de montagem 1,35 milhão de veículos — 13% a menos do que nos primeiros cinco meses do ano passado. "O viés é de baixa geral", disse Luiz Moan, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
A entidade, no entanto, espera do governo medidas para que a situação não fique ainda pior. A redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na captação de recursos do exterior, anunciada na quarta-feira, deve ajudar bancos de menor porte a aumentar os financiamentos para a compra de carros. Somente em maio, as vendas caíram 7,2% em relação ao mesmo mês do ano passado. Neste ano, o recuo é de 5,5%.
O setor quer que, diferentemente do programado, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos não seja totalmente recomposto em julho. A medida já foi admitida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Estamos aguardando o ministro", disse ontem o presidente da Fiat para a América Latina, Cledorvino Belini, depois de reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
A estratégia das concessionárias de financiar o valor de entrada na compra financiado do carro zero quilômetro para tentar recuperar o ritmo de vendas ocorre no momento em que os fabricantes de veículos, que estão com os estoques abarrotados, anunciando férias coletivas e programas de demissão voluntária. O gerente regional de Financiamentos do Grupo Saga, Murilo Jorge Sahium, explicou que a alta da inadimplência nos financiamentos levou os bancos a reduzirem a oferta de crédito. Com a restrição, o indicador de calotes medido pelo Banco Central caiu de 6,4% em dezembro de 2012 para 5% em abril passado. No entanto, as vendas despencaram.
Sahium detalhou que, de cada 10 propostas encaminhas para as instituições financeiras para parcelamento em até 60 vezes, apenas uma é aprovada. "Estamos incentivando os clientes a dar uma entrada maior, dividindo esse valor inicial no cartão de crédito em até 10 parcelas, para diminuir o prazo e as taxas de juros dos contratos", contou.
