
Em plena safra, o etanol continua sem competir com a gasolina nos postos de Belo Horizonte e de todo o estado, onde o consumidor segue abastecendo seu carro flex com o combustível derivado do petróleo. Apesar de nas últimas quatro semanas os preços do etanol na indústria terem caído, em média, R$ 0,22 por litro, nas bombas o motorista paga em média pelo produto quase o mesmo preço da entressafra. A queda registrada nas últimas quatro semanas é muito acanhada nas revendas, média de R$ 0,04 por litro na capital e R$ 0,02 em Minas.
A diferença de preços entre os dois combustíveis também segue alta, chega a 77% em Belo Horizonte, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para ser competitivo, o álcool não deve ultrapassar 70% do valor da gasolina. Segundo o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Minas Gerais (Siamig), a redução de preços na produção foi significativa e, ainda de acordo com a entidade, já abriu espaço para que os postos consigam praticar valores perto de R$ 2, quando a média no estado é ainda bem maior que isso, de R$ 2,27, e na capital de R$ 2,21. “Há espaço para redução de pelo menos mais R$ 0,20 por litro”, garante Mário Campos, presidente do sindicato. “Prova disso é que em Belo Horizonte já existem postos vendendo o etanol por menos de R$ 2”, reforça.
Apesar de pressionar distribuidores e revendedores para reduzir preços, o executivo do Siamig diz que não é possível relacionar o baixo consumo do produto com nova derrubada de preço nas usinas. “Esse ano não prevemos alta na produção. Minas deve manter a produção de 1,5 bilhão de litros do ano passado, já que em 2013, com relação ao ano anterior, a alta na produção foi expressiva, de 36%”, justificou o executivo.
Levantamento semanal da ANP mostra que na capital o menor custo/benefício encontrado pelo derivado da cana-de-açúcar é de R$ 1,89. No estado, esse valor é o mesmo, mas em outras regiões do Brasil, onde em média o litro do etanol hidratado custa R$ 2,11, há revendas comercializando o produto por R$ 1,62.
Estoques
Na ponta do consumo, o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados do Petróleo do Estado de Minas Gerais (Minaspetro) informa que tanto os revendedores quanto as distribuidoras têm altos estoques de etanol e por isso a queda de preços ainda não se deu na mesma proporção e intensidade da indústria. “Geralmente, existe um intervalo de três semanas entre as duas pontas da cadeia. Quando o preço cai na produção, o movimento leva algum tempo para chegar aos postos”, afirma Felipe Bretas, diretor do Minaspetro. “O etanol é um produto que vende pouco, por isso os estoques das distribuidoras e dos postos são altos”, justifica. Bretas evita analisar a tendência dos preços para o derivado da cana-de-açúcar durante a safra e também diz que não há projeção para as vendas do etanol este ano. “Os preços nos postos são livres. Cada empresa precifica como quiser, de acordo com seus custos.”
O motorista Isaac André de Oliveira, 58 anos, tem um carro movido a álcool e por isso mesmo em períodos de alta de preços não foge do etanol. Ele usa cerca de 80 litros por mês e em anos passados, ele conta que chegava a estocar o produto em casa, para aproveitar o alívio no bolso. Na última semana, o motorista sentiu a redução nos preços e na Região Metropolitana de Belo Horizonte pagou pelo litro R$ 2,06. “Já vi na região da Via Expressa que há postos vendendo o litro por R$ 1,99.”
Competição
Nos postos, motoristas da frota flex hesitam em abastecer com o álcool. A psicóloga Kelly Montoaneli conta que sua família tem dois carros. No modelo importado, utiliza gasolina, e, no econômico, abastece com álcool quando os preços compensam. “Considero que o álcool poderia custar menos, mas há interesses econômicos e também políticos que não deixam os preços caírem”, comenta. Para testar se o preço do álcool vale a pena o consumidor deve dividir o valor pelo da gasolina, obtendo como diferença percentual igual ou inferior a 70%. Kelly Montoaneli faz a conta e por isso tem optado até mesmo em seu carro econômico pela gasolina.
Levantamento de preços do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) realizado entre 17 de abril e 16 de maio mostra que o etanol hidratado teve, no período, seu preço reduzido de R$ 1,42 para R$ 1,19. Já o álcool anidro, que é adicionado à gasolina, era vendido a R$ 1,53 em 17 de abril e teve o preço reduzido para R$ 1,33 em 16 de maio.
