Brasília – Apesar de o Banco Central elevar a taxa básica de juros (Selic) pela nona vez consecutiva, a inflação não dá trégua para o bolso do brasileiro. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, que será divulgado dia 9, deve vir com alta de 0,82% pela mediana das projeções dos especialistas ouvidos pelo Estado de Minas. Se confirmado, esse dado será o maior para o mês desde 2003, quando o indicador saltou 1,23%, conforme a série histórica medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A equipe econômica da presidente Dilma Rousseff reconhece que o IPCA de março será elevado e suas previsões estão em linha com as do mercado. “De fato o IPCA virá salgado, mas isso não preocupa porque já está no nosso radar. Obviamente, esse resultado não agrada o governo. Ele tem consciência de que está fazendo o seu trabalho tanto na política fiscal quanto monetária e aposta que haverá uma reversão do aumento dos preços nos próximos meses”, destacou uma fonte da equipe econômica.
Essa contínua alta da inflação, na avaliação dos especialistas, está relacionada com os choques nos preços dos alimentos ocorrido desde o início do ano por conta do clima. Outro ingrediente é o custo dos serviços, que cresce em torno de 8% a 9% ao ano, e deverá aumentar ainda mais durante a Copa do Mundo. Com isso, as projeções dos especialistas são que a inflação volte a estourar o teto da meta, de 6,5% ao ano, entre junho e julho.
“Os alimentos têm um peso grande no IPCA, em torno de 25%, eles devem sair de uma alta de 0,56%, em fevereiro, para 1,51%, em março, algo bastante expressivo. Logo, a inflação ficará acima de 6% no acumulado em 12 meses, podendo estourar o teto da meta até junho, durante a Copa, puxados por gastos como passagens aéreas e refeição fora de casa”, explicou o economista Étore Sanchez, da LCA Consultores, que espera alta de 0,86% no IPCA de março e de 6,10% no acumulado em 12 meses.
O economista-chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, lembrou que essa carestia pode não ser temporária e sim permanente por conta da inércia dos preços em abril, o que exigirá uma continuidade do aperto monetário do BC em maio já que ele sinalizou que vai continuar monitorando a inflaçao. “Se o dólar voltar a subir muito, a gasolina deverá ser reajustada e isso impactará diretamente na inflação”, completou. A divisa americana teve alta de 0,54%, cotada R$ 2,28. No ano, entretanto, a queda acumulada no ano é de 3,7%.
Na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, que prevê alta no IPCA de 0,80%, em março, e de 6,10%, no acumulado em 12 meses, o cenário só não ficará pior porque o país está crescendo pouco e não deverá haver impacto da demanda. “O problema é que a inflação está com os preços administrados represados. No ano passado, eles representaram 1,5% do IPCA e hoje estão em 3% e essa sequência deverá manter a inflação elevada durante algum tempo, independentemente da política monetária. Se o BC não estivesse atuando desde abril do ano passado, a situação seria pior”, explicou ele lembrando que, o impacto do aumento dos juros no IPCA demora de 6 a 12 meses. “Provavelmente agora estamos sentindo o impacto do aumento da Selic realizado no ano passado”, afirmou.
Objetivo é ficar na meta
Apesar das altas constantes nos preços, a presidente Dilma Rousseff afirmou ontem que a inflação se manterá dentro da meta em 2014, assim como ocorreu nos últimos 11 anos, um dia depois de o Comitê de Política Monetária (Copom) elevar a taxa Selic para 11%, numa tentativa de conter a escalada dos preços. “A taxa de inflação vem sendo mantida nos últimos 11 anos, agora chegando quase a 12, dentro dos limites estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). E assim ocorrerá também em 2014”, disse Dilma em evento da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais Brasileira (CACB), em Brasília.
À frente de um público de microempresários, a presidente defendeu que a dívida líquida do setor público em relação ao PIB tem “decrescido sistematicamente”, desde o começo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “Em 2002, a dívida líquida chegava a 60% do PIB e hoje chegamos a 33,7% do PIB”. Dilma também afirmou que, a partir do mesmo período, o país passou a acumular imensas reservas cambiais, o que “significa que diante do mercado internacional nós temos o nosso conjunto de reservas que nos preserva em relação à extrema volatilidade”..
Dilma também reiterou o compromisso do governo em fortalecer a questão do investimento produtivo e da produtividade. Em seu discurso, a presidente afirmou que outras condições macroeconômicas do país estão sob controle e aproveitou para exaltar a geração de empregos durante sua gestão, que chegou a 4,8 milhões de novas vagas.
Os dois lados das taxas
Técnicos do governo que se encontraram, nas últimas duas semanas, com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o diretor de Política Econômica da instituição, Carlos Hamilton Araújo, garantem que o ciclo de aumento dos juros acabou. Baseados nas conversas com os dirigentes da autoridade monetária, esses técnicos entendem que uma nova elevação da Selic só virá se o Comitê de Política Monetária (Copom) perceber que os reajustes dos alimentos contaminaram toda a economia.
Ou seja: o BC descontará do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) o encarecimento da comida, chegando ao que os especialistas chamam de núcleo da carestia. Se o resultado mostrar altas fortes nos demais produtos e serviços, aí, sim, a Selic subirá. Do contrário, permanecerá por um bom tempo nos 11% ao ano, taxa que passou a vigorar desde anteontem, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por um aumento de 0,25 ponto percentual.

Na avaliação do governo, endossada por vários analistas de mercado, não há porque o BC pesar a mão nos juros agora, quando país enfrenta um novo choque de alimentos. A taxa básica não consegue inibir os reajustes da comida, decorrentes de problemas climáticos, em sua maioria. A regra vale, também, para os preços administrados (tarifas públicas). Assim, o Copom entendeu que, por enquanto, os 11% são suficientes para conter o repasse dos alimentos para os demais itens pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na pior das hipóteses, os juros podem ir a 11,25% em maio, caso a inflação surpreenda muito — o pico mensal deverá ser registrado em março. A partir desse patamar, “somente com muita reza brava” o Copom elevará a Selic, destacou um dos interlocutores de Tombini.
No bolso pesa Mesmo se o BC mantiver a Selic o estrago no bolso dos consumidores já foi feito. Isso porque apesar de o Copom ter elevado a Selic em 3,75 pontos percentuais ao longo dos últimos 12 meses a taxa média de juro ao consumidor avançou 8,55 pontos percentuais no mesmo período, de 88,61% para 97,16% ao ano, segundo um estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). A taxa média calculada pela entidade leva em conta seis linhas de crédito (veja quadro). Algumas subiram num ritmo bem maior, como a do cartão de crédito (23,56 pontos), de 192,94% para 216,5%.
O juro do empréstimo pessoal em bancos avançou abaixo da média das seis linhas de crédito, mas superou a alta da Selic, pois passou de 41,42% para 47,64% – alta de 6,22 pontos. “Destacamos igualmente que por conta da maior competição no sistema financeiro após os bancos públicos reduzirem mais fortemente suas taxas de juros é possível que algumas instituições financeiras possam manter inalteradas as suas taxas das operações de crédito”, disse Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor da Anefac.
A última alta da Selic ocorreu na quarta-feira passada. Na prática, porém, a alta de 10,75% para 11% ao ano não aumentará muito os juros e o valor das prestações nas linhas de crédito. Veja essa simulação para o juro de um cartão de crédito rotativo com o valor de R$ 3 mil: o valor do juro mensal passará de R$ 302,40 para R$ 303,00. A diferença é de R$ 0,60, mas o problema não é esse: o que pesa para o bolso do consumidor é a taxa alta das linhas de crédito, que é de 216,5% ao ano.

