Brasília – Se nada mudar no roteiro traçado pelo Banco Central e pelo mercado financeiro, a taxa básica de juros (Selic) subirá hoje 0,25 ponto percentual, de 10,75% para 11% ao ano. Embora esse aumento já seja pedra cantada, ele terá um poder simbólico: marcará um retrocesso enorme na política monetária de Dilma Rousseff. Ela entregará ao próximo governo juros maiores do que os que recebeu de seu antecessor, Lula, de 10,75%. Desde que o sistema de metas de inflação foi implantado no Brasil, isso nunca aconteceu. Sempre as administrações seguintes assumiram com Selic menor, reforçando o controle do custo de vida.
Na avaliação dos especialistas, o fato de Dilma empurrar uma fatura maior de juros para o próximo governo – que ela pode comandar, caso seja reeleita –, é resultado da leniência no combate à inflação. Desde que tomou posse, em janeiro de 2011, a presidente explicitou a obsessão por derrubar a Selic. A meta era que a taxa real (que desconta a inflação) ficasse em 2% ao ano, semelhante ao observado em outros países emergentes. Dilma acreditava que, com isso, conseguiria impulsionar o crescimento econômico. O problema é que, ao mesmo tempo, ela autorizou o Ministério da Fazenda a abrir os cofres e a reduzir o superávit primário (saldo para pagar os encargos da dívida). A gastança pressionou a inflação. E, pior, o crescimento não veio.
O BC só recebeu carta branca do Palácio do Planalto para aumentar os juros no início do ano passado, devido aos consecutivos estouros do teto da meta de inflação, de 6,5%. Como, no entanto, a política monetária havia caído em descrédito, a carestia não cedeu para os níveis esperados e as expectativas dos agentes econômicos se deterioraram. Por isso, com a nova disparada dos preços dos alimentos, o BC terá de pesar um pouco mais a mão na Selic. No entender de André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, em vez de elevar a taxa básica para 11% na reunião de hoje e encerrar o ciclo de aperto, o Comitê de Política Monetária (Copom) terá que subir a Selic em maio e em julho. Serão mais duas alta de 0,25 ponto cada, para 11,50%, o maior nível desde outubro de 2011
Para Luciano Rostagno, do Banco Mizuho, o Copom será um pouco mais comedido, com a Selic subindo 0,25 ponto hoje e mais 0,25 no mês que vem. Segundo ele, sustenta esse quadro a recente surpresa negativa da inflação, puxada por produtos in natura (frutas, legumes e verduras). Ele acredita que se somará a esse movimento uma onda de reajustes dos serviços por causa da Copa do Mundo. No Palácio do Planalto, a ordem é para que o BC faça o dever de casa, mesmo que uma dose maior de juros derrube o crescimento econômico.
