Apenas um dia depois de a presidente Dilma Rousseff ter afirmado a empresários que a inflação “vem caindo de maneira consistente nos últimos meses”, o Banco Central (BC) rebateu o discurso oficial do Palácio do Planalto e recomendou prudência com a escalada dos preços. Nas palavras dos diretores que assinam ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada, mas que só foi divulgada ontem, “o nível elevado” do custo de vida e a “dispersão de aumentos de preços” contribuem para que a carestia no país ainda mostre “resistência”. O comunicado, que tem como objetivo explicar por que o BC elevou os juros básicos de 8% para 8,5% ao ano, foi muito elogiado pelos analistas de bancos e corretoras, que viram uma mudança radical na postura da instituição.
No dia anterior à divulgação da ata, Dilma fez discurso acalorado em que, além de atacar o que chamou de pessimismo dos que criticam o governo, defendeu veementemente os resultados de sua equipe econômica, entre os quais o controle da inflação e o maior rigor fiscal. Para o Copom, em lugar de prudência com gastos públicos, “iniciativas recentes apontam o balanço do setor público em posição expansionista”. Trocando em miúdos: o governo está gastando demais, quando, na verdade, deveria poupar recursos.
A crítica tem justificativa. Sempre que o Tesouro Nacional despeja bilhões de reais nos bancos públicos ou quando autoriza o pagamento de gastos do governo, provoca aquecimento da economia. Em um trecho da ata, o BC alerta para que o Ministério da Fazenda ponha freio à gastança de dinheiro público. Com isso, a autoridade monetária quis dizer que o aumento de juros iniciado em janeiro não será suficiente para domar o dragão da inflação se a Fazenda não fizer a sua parte e estancar a sangria de recursos públicos, o que significa cumprir plenamente a meta de economizar 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) – o PIB representa a soma da produção de bens e serviços – para saldar juros da dívida pública.
O tom duro do comunicado mostra que, apesar da euforia do staff presidencial com números recentes que apontam para a desaceleração da inflação no curto prazo, o comportamento dos preços ainda enseja cuidados principalmente para 2014, ano em que Dilma Rousseff tentará a reeleição pelo PT. Em 2013, mesmo com todos os esforços do governo para reduzir impostos sobre a conta de luz e alimentos e com a ajuda dos estados e municípios em postergar o reajuste das passagens de transporte público, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve acumular alta de 5,8%, segundo estimativa divulgada pelo BC, com base em projeções de analistas independentes. Será, dessa forma, o quarto ano consecutivo em que a inflação ficará acima do centro da meta definida, de 4,5%.
Para 2014, a projeção colhida pelo BC com analistas de mercado é de que o índicador avance para 5,90%, alta de 0,1 ponto percentual desde a última apuração, feita em maio. Contribui para alta das perspectivas de inflação o dólar valorizado. Pela primeira vez, o BC elevou consideravelmente a taxa de câmbio utilizada no seu cenário de referência, de R$ 2,05 para R$ 2,25. Os diretores do Copom enfatizam que os efeitos prolongados dessa apreciação do dólar “podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária”. Ou seja, mais aumentos de juros.
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Rumo da inflação opõe BC a Dilma
Relatório do Banco Central rebate discurso da presidente enfatizando perda de fôlego do IPCA e critica gasto público
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