
Contudo, apesar da segunda intervenção em menos de uma semana do Banco Central (BC), que vendeu US$ 1,3 bilhão em um leilão de swap cambial no mercado futuro, a divisa americana reagiu forte ao longo do dia, chegou a bater nos R$ 2,15 na máxima, e retornou aos patamares de R$ 2,13 no fim do pregão. A bolsa de valores também teve um dia tenso, com forte queda nas ações das empresas siderúrgicas, e fechou em baixa, de 2,26%.
Segundo analistas, as declarações desencontradas do governo confundiram o mercado. O diretor do BC, Aldo Mendes, chegou a afirmar na terça-feira que o Brasil terá que conviver com uma taxa de câmbio mais fraca. Ontem, a presidente Dilma Rousseff disse que o governo não tem medidas a tomar para segurar a valorização do dólar. “Eu quero informar que este país adota o regime de câmbio flexível”, afirmou a presidente. O mesmo discurso foi adotado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que negou a intenção de reduzir a cotação do dólar com a redução do imposto para investidores estrangeiros. “A medida é de longo prazo e não para ter efeito imediato”, disse o ministro.
Contradições
A declaração, um dia após o governo ter reduzido a zero a alíquota do IOF para investimento estrangeiro, e num momento em que o BC despejava US$ 2 bilhões em 40 mil contratos no mercado futuro de câmbio — dos quais vendeu 27,5 mil, totalizando US$ 1,37 bilhão — , não caiu bem. “Cada um fala uma coisa e todos contrariam as medidas tomadas. O mercado está tentando entender isso tudo”, comentou Mário Battistel, gerente de câmbio da Fair Corretora.
O especialista afirmou que a justificativa do governo para zerar o IOF é para atrair mais dólares e melhorar o perfil da dívida do governo. “A gente sabe que é para combater a inflação. O BC colocou dólares no mercado para conter o fortalecimento do dólar. Mas o cenário internacional não está permitindo este movimento porque a divisa está valorizada contra várias moedas”, lembrou.
“Embora no curto prazo a medida (de zerar a taxa de 6% no IOF) possa resultar num aumento dos fluxos de entrada, a ausência do imposto provavelmente levará a uma volatilidade maior”, informou o banco HSBC em relatório. “Investidores estrangeiros provavelmente ficarão mais dispostos a entrar no Brasil, mas também mais inclinados a tirar investimentos em tempos de aversão ao risco.”
“A tendência do dólar mais forte é irreversível”, apontou o gestor de investimentos da Coinvalores, Denis Botini, alertando que os fundamentos da economia norte-americana são muito mais robustos do que os da brasileira e a melhora no cenário econômico dos EUA vai elevar a força da divisa contra as demais moedas do mundo.
Títulos
Não à toa, o Ministério da Fazenda decidiu acabar com o pedágio para capital externo que ingresse no Brasil. Os investidores que viam um porto seguro nos títulos públicos do governo estão assustados. Muitos ficaram com patrimônio inferior ao que tinham 30 dias atrás e o Tesouro Nacional pode enfrentar dificuldades para se financiar. A rentabilidade dos papéis indexados à inflação, os chamados NTN-B, derreteu. No ano, as perdas, em média, chegam a 5%. Diante desse tombo, os brasileiros evitam aplicar nessa modalidade e quem tinha dinheiro no produto foge. Apenas em abril, os fundos de renda fixa que carregam esses títulos registraram volume recorde de saques: R$ 6 bilhões. Em três meses a fuga de recursos chega a R$ 11,5 bilhões.
Brasil sofre com estrago maior
O estrago que a alta do dólar provocou nas contas públicas pode ser maior no Brasil, que tem um rombo muito grande para cobrir, mas a valorização da moeda norte-americana no fim de maio e neste início de junho repercutiu no mundo inteiro. Várias divisas acumulam perdas semelhantes à do real frente ao dólar. Em 30 dias, a desvalorização da moeda brasileira é de 5,54%, e a dos pesos chileno e mexicano, de 6,6% e 5,82%, respectivamente.
A explicação pode estar nos dados divulgados pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) no Livro Bege, uma espécie de ata que apresenta as variações da maior economia do mundo. Segundo a publicação, a atividade econômica dos EUA se expandiu em ritmo “modesto a moderado” desde meados de abril, enquanto as contratações permaneceram relativamente contidas.
Os gastos do consumidor ganharam fôlego e o mercado imobiliário continuou a dar sinais de força, mostrou o relatório, que é elaborado com base em discussões com contatos empresariais. Segundo o analista da XP Investimentos William Alves, os dados levaram o mercado a entender que o governo americano pode estar em vias de reduzir a política de incentivos — compras de títulos no valor de US$ 85 bilhões por mês. Com isso, a moeda norte-americana deu um salto em todo o mundo.
“Hoje (ontem), também saíram outros dados nem tão positivos assim dos EUA. Parece que a indústria não atingiu o crescimento esperado. Então, a interpretação do mercado é bastante relativa, porque ele tenta antecipar os fatos. Isso explica a volatilidade com que tem operado nos últimos dias”, disse o especialista.
O fato de o real ter se desvalorizado quase na mesma proporção, porém com muito mais rapidez, de acordo com o gestor de investimentos da Coinvalores, Denis Botini, é explicado pela maior liquidez com que o Brasil opera e também pelos mecanismos adotados no país para conter a alta da moeda. “Tudo no Brasil é muito mais líquido, é sempre possível encontrar um comprador ou um vendedor dos três ativos mais comercializados: renda fixa, renda variável e dólar futuro”, disse.
Segundo ele, no Chile e na Colômbia existem muitos ativos, mas eles são alocados de forma mais contida no mercado. “A nossa bolsa, por exemplo, tem muito mais liquidez. Isso explica por que aqui o baque é sempre maior”, avaliou. (SK)
