Desde abril, todo dia é como uma sexta-feira para Belo Horizonte. No mês do festival gastronômico Comida di Buteco, os adeptos da cerveja gelada e do tira-gosto se aglomeram nos bares participantes, que garantem faturamento até cinco vezes maior que em períodos normais. Além disso, o consumo nos dias que tradicionalmente são menos movimentados, durante o festival, equivale ao da véspera de fim de semana. A expectativa para este ano é que o evento, que se encerra neste domingo, gire mais de R$ 50 milhões, crescimento de 15% em relação à última edição. Para ter uma ideia do sucesso, tem boteco que vende uma porção a cada dois minutos. Por isso, mais uma vez, a solução encontrada para a próxima edição é aumentar o número de bares e de cidades.
O festival se iniciou há mais de uma década com apenas 10 bares participantes, mas rapidamente conquistou os belo-horizontinos. Nesta edição, foram 41 estabelecimentos inscritos, sempre com mesas lotadas e filas de espera com mais de 30 nomes. Para o próximo ano, a organização já prevê aumentar o número de bares para 45 em Belo Horizonte. Além disso, o festival deve chegar a todas as regiões do país. O Sul, por exemplo, também deve embarcar na onda. Curitiba e Porto Alegre podem entrar no rol da fama dos botecos, totalizando 18 cidades. Mesmo quem tem mar está preferindo ir para o bar.

E uma novidade: pela primeira vez um ingrediente em comum deve ser obrigatório para todas as cidades. O produto guardado a sete chaves deve ser anunciado no próximo dia 19, depois da premiação do melhor prato no encerramento do festival na Saideira Comida di Buteco.
A costelinha ao molho de rapadura e cachaça e pachá mineiro (o queijo dec minas) do Bar do Antônio (Pé de cana), no Bairro Sion, na Região Centro-Sul, chamou tanto a atenção do público que diariamente são feitas 230 porções. É o recorde de vendas do estabelecimento nos 11 anos de participação do festival. O faturamento do bar aumenta 40% nos 30 dias do evento. E não para por ai: apesar de uma queda no movimento nos três meses seguintes, os frequentadores assíduos continuam pedindo o petisco. “Até meia-noite tem fila de espera. O pessoal chega e pede para pôr o nome na lista, mas, sob reclamação, temos que fechar”, afirma o dono do bar, Márcio Bomtempo.
Se no Bar do Antônio a fila é perto do fechamento, no Estabelecimento Bar, na Serra, na mesma região, as portas nem se abriram e já tem gente esperando para garantir uma das mesas. Em um aconchegante quintal ao pé de uma jabuticabeira e uma ameixeira, os clientes lotam mesas e até o balcão. Por noite, são comercializadas 720 garrafas de cerveja, o equivalente a 432 litros da bebida. “O mais incrível é que as pessoas esperam. Teve noite que tivemos 22 nomes na fila. Este ano abrimos todos os dias com espera e às vésperas do fim do festival tivemos só duas noites mais fracas, mas que equivaleram a uma quinta-feira, o segundo melhor dia do bar”, diz o dono do estabelecimento, Olívio Cardoso Filho. Para suprir a maior demanda, a equipe praticamente dobra no período do evento e quem for aprovado, permanece.
Adaptação Apesar de serem avisados pela organização sobre a garantia de aumento no período do festival gastronômico, os novos convidados muitas vezes dão de ombro e acham ser exagero. De acordo com o idealizador do Comida di Buteco, Eduardo Maya, 90% tomam “bomba” nos primeiros dias e são obrigados se adaptar às pressas para garantir bom atendimento. “O faturamento chega quase ao limite. Bares que faturam R$ 30 mil passam para R$ 150 mil no mês”, diz o gastrônomo, que nesta edição já visitou mais de 200 bares nas quatro regiões do país.
Ainda segundo o organizador, o desafio nasce depois que as cortinas do evento se fecham. Maya diz que os bares participantes têm que criar alternativas para fidelizar a clientela e manter o bom atendimento o ano inteiro. Para isso, ele visita um por um antes do festival e dá dicas para melhorar a qualidade do serviço. Entre os conselhos, é indicado que o dono do bar receba os clientes e participe ativamente do atendimento.
Serviço rápido para 2013
É vapt-vupt. Só dá tempo de sentar, beber, comer, pagar a conta e correr para a próxima mesa. Depois de perceber a necessidade de garantir agilidade na liberação de mesas e aumentar a rotatividade dos frequentadores, a organização do festival estuda novas regras para que um espaço dos estabelecimentos participantes seja destinado especialmente para os clientes peregrinos - aqueles que gostam de ir em mais de um bar na mesma noite e, por isso, precisam chegar e sentar, sem esperar na fila. Na próxima edição do Comida di Buteco uma das novidades deve ser a mesa express.

Para favorecer as caravanas, a organização do festival ainda define os moldes do projeto de atendimento rápido. A ideia é que uma parcela das mesas seja reservada para que as turmas não tenham que esperar na fila e possam a peregrinação do dia nos estabelecimentos. Atualmente, em algumas casas que participam do festival, o freguês pode esperar por mais de meia hora na fila até conseguir sentar e beber a primeira cerveja, o que, muitas vezes, desestimula a formação de novas caravanas. “A pessoa vai sentar, tomar a cerveja e experimentar o tiragosto, que já vem acompanhado da conta”, afirma o idealizador do Comida di Buteco, Eduardo Maya.
Quem gosta de caravana, este ano já pensou em alternativas para não ficar parados. Desde 2003, uma vez por ano a chefe de cozinha Nayara Gabriel e uma turma de 26 amigos se reúne em um sábado durante o festival gastronômico para rodar pelos bares que participam do evento. Além da animação e da cerveja gelada, este ano eles decidiram levar no micro-ônibus uma mesa dobrável para que fossem atendidos na área externa do estabelecimento. “Nos bares fora da Região Centro-Sul, é raro se conseguir uma mesa mesmo para duas ou três pessoas. Por isso fazíamos o pedido do lado de fora e montávamos nossa mesa”, relata Nayara. Ela acredita que o serviço de mesa express pode dar mais rapidez e aumentar a rotatividade dos botecos. A chef espera que no próximo ano, em vez dos seis bares que a turma costuma visitar por noite, possam ser oito, nove ou 10. (PRF)
