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Estado de Minas

Provas mal formuladas favorecem os despreparados em concurso públicos


postado em 18/03/2012 07:24

Questões erradas, mal formuladas e, muitas vezes, sem nenhuma relação com a função a ser desempenhada pelos aprovados em concurso se tornaram comuns nas seleções para o funcionalismo público. A prática coloca em dúvida até que ponto as bancas organizadoras são capazes de selecionar, de fato, os candidatos mais bem capacitados a prestar um serviço de qualidade ao país, ou se simplesmente escolhem os que passam mais tempo memorizando conteúdos que de nada servirão depois dos testes. Não é à toa que o nível de qualificação dos recentes servidores públicos é tão ruim.

Um dos casos recentes mais emblemáticos foi o da prova para técnico de nutrição da Prefeitura de Jaboticabal (SP), na qual os candidatos precisaram responder qual o estado de origem da paraibana Luiza, que se tornou famosa com a frase “Menos Luiza, que está no Canadá”, pronunciada em um comercial de televisão. Situações esdrúxulas também puderam ser observadas no concurso do Senado, realizado no último domingo. O certame contou com uma pergunta sobre o nome de dois conselheiros da Agência Nacional do Petróleo (ANP) — órgão que nada tem a ver com o trabalho dos que forem aprovados — nos testes para o cargo de consultor.

Outro problema comum são questões que, por pura falta de conhecimento do conteúdo por parte da banca organizadora, resultam em gabaritos errados e, invariavelmente, levam à anulações das perguntas e pilhas de recursos apresentados pelos candidatos. José Wilson Granjeiro, diretor-presidente da rede Grancursos, avalia que a má elaboração das provas fere o princípio da razoabilidade. “São muitas as questões que não agregam nada. O objetivo deveria ser medir o conhecimento e a cultura do candidato em assuntos que possam ajudar na atividade que será executada, em vez de um mero exercício de adivinhação”, argumenta.

Despreparo Os especialistas consideram que a origem desses problemas está na falta de uma regulamentação para os concursos públicos. “A inexistência de uma lei específica permite às bancas organizadoras elaborar seleções completamente absurdas sem que os cerca de 10 milhões de pessoas envolvidas no setor de concursos tenham meios de recorrer, já que, na prática, nada é ilegal”, pondera Mário Elesbão, professor de direito constitucional do preparatório Canal dos Concursos.

Faltam leis específicas e banca isenta

O desamparo dos candidatos ante questões estapafúrdias elaboradas por bancas mal preparadas é agravado pelo fato de que os responsáveis por julgar recursos contra essas perguntas são os mesmos professores que as elaboraram, em vez de uma comissão independente, segundo destaca Ernani Pimentel, presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac). “Sem uma lei que regulamente os concursos, o setor está sujeito ao caos e corre o risco de não ser mais levado a sério no país”, sustenta.

Para Paulo Estrella, diretor da rede Academia do Concurso, a falta de uma legislação específica para os concursos públicos resulta, por exemplo, na cópia de questões aplicadas em certames anteriores, como ocorreu na seleção para o Senado. “Espera-se que a banca trabalhe com questões inéditas, mas nada a obriga a isso. Não existe uma regra consolidada e o candidato fica à mercê de bancas organizadoras despreparadas”, afirma. Pimentel, ressalta que, em muitos casos, perguntas sem a mínima conexão com os temas relacionados à atividade a ser desempenhada pelos candidatos podem ser uma forma velada de direcionamento dos certames para facilitar a aprovação de apadrinhados. Um exemplo disso foi a prova para taquigrafia do Senado, na qual, apesar do vasto conteúdo de regimento interno, com mais de 500 artigos, apenas duas questões sobre o tema foram cobradas. “A Fundação Getulio Vargas (organizadora) precisa vir a público esclarecer todas as suspeitas”, diz Pimentel. (GHB)


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